<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477</id><updated>2011-11-28T15:37:16.078-08:00</updated><title type='text'>Meu Avô A´uwê</title><subtitle type='html'>Esta é a versão digital do livro que lancei em novembro de 2004, sobre 3 viagens que fiz para uma aldeia indígena xavante no Mato Grosso.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>84</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116191766565836068</id><published>2006-10-26T19:53:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T18:35:07.456-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/1600/capa.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/capa.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Apresentação&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este livro não tem a menor pretensão de ser um tratado sobre o povo Xavante, muito menos um trabalho científico, antropológico ou jornalístico (apesar de minha formação em jornalismo). Meu &lt;em&gt;Avô A´uwê&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;a´uwê&lt;/em&gt; significa índio - em xavante) é o relato de minhas três primeiras visitas a uma aldeia indígena. No caso, a aldeia xavante &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em dois momentos distintos surgiu um personagem que foi determinante para o rumo de toda essa história. Especialmente para o rumo da minha vida. E, não por acaso, esse foi um dos xavantes mais importantes e influentes do século XX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, além de minhas viagens, também conto a história desse índio, o velho &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;. O xavante foi um dos últimos povos nativos a entrar em contato com os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; (não-índio - em xavante) e &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; entrou para a história como o líder que protagonizou o encontro oficial de seu povo com o governo brasileiro. A vida desse cacique foi marcada por muitos outros episódios interessantes. Principalmente para nós, ocidentais &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;, que estamos tão distantes da terra e da natureza. Feitiçarias, espíritos, interações com os sonhos e tantos outros elementos não muito comuns para nós, são parte intrínseca da cultura e do cotidiano xavante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estive na aldeia, alguns desses elementos vieram à tona e pude presenciar e viver experiências fantásticas. As histórias que conto são fruto do que vivenciei e do que eles me contaram. Portanto, muitas interpretações para os fatos estão baseadas na ótica cultural do xavante. Há várias passagens que até hoje não sei explicar e que, provavelmente, jamais entenderei, mas transmito como aconteceram e as interpreto sob o ponto de vista Xavante.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/rosto.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116191766565836068?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116191766565836068/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116191766565836068' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191766565836068'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191766565836068'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/apresentao-este-livro-no-tem-menor.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116191755272482912</id><published>2006-10-26T19:51:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T19:52:32.726-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Capítulo 1&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Insatisfação&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;SÃO PAULO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;As coisas não estavam boas. Eu morava em São Paulo, mais precisamente no Itaim-Bibi, e trabalhava na Vila Madalena. O descontentamento com o trabalho era tanto que apelidei o curto trajeto de 20 minutos entre o lar e a labuta de "via crucis". Eu era redator de uma produtora de multimídia e fazia historinhas e textos para crianças. Nada contra escrever para crianças. Mas o problema era que, em função dos prazos, preferiam que eu desenvolvesse histórias superficiais e banais ao invés de conteúdos mais elaborados, e isso me irritava e desestimulava profundamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era junho de 2001 e as férias da faculdade estavam chegando. Aliás, a faculdade de jornalismo era outra atividade que não fazia muito sentido. Com exceção de pouquíssimas aulas interessantes, o restante não acrescentava absolutamente nada. Não por acaso era mais fácil me encontrar no bar do que na sala. Pelo menos a minha vida social era divertida - festas, churrascos, bebedeiras e viagens nos finais de semana. Porém, como redator, eu sentia um vazio muito grande. Tanto que precisei inventar um projeto para ter algum estímulo profissional e, por muito pouco, não filmei um curta-metragem que eu havia escrito. Infelizmente, pequenos detalhes me obrigaram a adiar a aventura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do desânimo, algo maior me motivava: a paixão por escrever. Eu era novo, tinha 24 anos, e já havia trabalhado em alguns lugares. Minha curta carreira começou em março de 1995, na cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, onde fui morar com meu pai e minha irmã. Ali estagiei e trabalhei como repórter esportivo em dois jornais, além de passar por uma agência de propaganda como assistente de atendimento (também conhecido como office-boy de luxo). Depois nos mudamos para Florianópolis, onde também trabalhei em propaganda, como assistente de atendimento e mídia. Em 1998, fomos para Curitiba e tive a minha primeira experiência como redator. Estagiei no departamento de criação de uma das principais agências do Paraná, a Z. Publicidade. De Curitiba retornei para São Paulo, minha cidade natal, onde trabalhei como redator em uma revista sobre animais e em duas agências de propaganda, até chegar à produtora de multimídia em que eu estava no final de 2000. Após esses primeiros anos de experiência, concluí que jamais seria feliz trabalhando em jornais, revistas, agências ou produtoras. Conclusão bastante desanimadora e preocupante para um redator, já que sem essas opções ficara bastante reduzido o campo de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a proximidade das férias senti que deveria fazer algo, mas não sabia o que. O certo é que precisava dar um tempo, sair de São Paulo e tentar achar algum sentido para as coisas. Foi quando me lembrei de que minha mãe estava morando em Água Boa, no Mato Grosso. Eu não sabia exatamente o que ela fazia lá (e acho que nem ela), mas o certo é que estava na região central do país e tinha contato com alguns índios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116191755272482912?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116191755272482912/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116191755272482912' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191755272482912'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191755272482912'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-1-insatisfao-so-paulo-as.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116191744983859032</id><published>2006-10-26T19:48:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T16:11:30.866-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;ÁGUABOA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pouco antes, em janeiro daquele mesmo ano de 2001, num domingo à noite, eu voltava de Peruíbe, litoral sul de São Paulo, quando meu pai me ligou no celular: "Filho, a que horas você vai chegar? Sua mãe já voltou de viagem e tem algumas novidades". Como conheço bem a minha família, principalmente minha mãe, a sra. Ana Maria de Carvalho Guimarães, sabia que ali tinha coisa. As hipóteses poderiam ser as mais variadas. "Bem, filho, decidimos que 16 anos depois vamos recomeçar o nosso casamento"; ou "Filho, a sua mãe decidiu virar astronauta e vai trabalhar na nasa". Nada me chocaria. Chegando em casa, os dois estavam na sala, absolutamente sorridentes. Como eu não via a minha mãe desde o Natal, ela fez uma grande festa. Eu havia passado apenas o final de semana fora. Já ela estava na estrada desde o dia 26 de dezembro. Viajara para Mato Grosso com os donos da empresa em que trabalhava. Nas andanças, eles conheceram algumas pessoas, alguns lugares e, quando passaram por Água Boa, minha mãe sentiu: "Aqui é o meu lugar. Preciso morar aqui". E era essa a tal novidade. Ela ia se mudar para Água Boa, onde, segundo a própria, tinha o céu mais bonito que já avistara na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/c%3F%3Fu.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Claro que não foi uma decisão insensata, fruto de um mero desejo irracional. Dona Ana Maria já trilhava um caminho, digamos, espiritual, havia mais de 15 anos. Ela construiu uma interessante carreira de terapeuta corporal em São Paulo, e era extremamente respeitada tanto nas altas rodas sociais, como nas esotéricas e espirituais. Ironicamente, há pouquíssimos meses ela deixara boa parte disso de lado para entrar de cabeça num trabalho que lhe proporcionava bom salário, status e muito estresse, chegando a ser personagem de uma matéria da revista Cláudia que tinha o seguinte título: "Mulheres de Coragem - De Esotérica a Executiva". De repente, largou tudo para viver num local que, dois meses antes, nem saberia localizar no mapa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Séculos atrás, Água Boa era habitada por índios. A partir da segunda metade do século XVII começou a ser explorada por algumas expedições e, no final da década de 50 do século XX, foi colonizada por famílias gaúchas. A cidade fica a 780 km a nordeste da capital do estado, Cuiabá. Como está próxima de algumas das seis reservas xavantes, o cotidiano de Água Boa é muito ligado aos índios. Não tanto pela influência que a cultura tradicional exerce, mas por problemas relacionados à disputa de terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por intermédio de algumas pessoas que moravam na cidade, minha mãe acabou conhecendo alguns índios e identificando-se com o povo xavante. Aos poucos, esse relacionamento estreitou-se, principalmente com o índio Paulo &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; Xavante e sua mulher, &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt;. O fato de ambos falarem português e terem residido por muito tempo fora da aldeia, em cidades como Goiânia e Nova Xavantina, facilitou a aproximação e a convivência. Se por um lado minha mãe teve contato com um mundo desconhecido e misterioso para ela, por outro, também pôde acrescentar alguma coisa ao deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/%3F%3Fgua%20boa.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116191744983859032?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116191744983859032/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116191744983859032' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191744983859032'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191744983859032'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/guaboa-um-pouco-antes-em-janeiro.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116191729591626274</id><published>2006-10-26T19:43:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T20:44:54.133-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;CIPASSÉ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; Xavante, mais conhecido como &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, é descendente da linhagem xavante mais antiga. Quando ainda era garoto, no final dos anos 70, seu avô, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, o mandou, junto a outros parentes, estudar no interior de São Paulo, em Ribeirão Preto. O objetivo era que essa nova geração (&lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; tinha apenas 9 anos) passasse a conviver com os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; (não-índios), para aprender sobre a cultura e, mais importante, para entender o modo como os brancos pensavam, agiam e viam o mundo. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; adaptou-se a essa nova realidade e cresceu entre os brancos. Durante a década de 1980, aproveitando o acesso ao "mundo &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;" e a habilidade natural de se relacionar socialmente, ele teve papel importante na divulgação da cultura xavante e na discussão de assuntos ligados à questão indígena. Tanto que esteve em alguns encontros históricos, como o congresso do Banco Mundial sobre o Projeto de Desenvolvimento Econômico, em Washington, D.C., em 1988. Na Alemanha, esteve reunido com representantes do Governo Alemão, FMI e Organizações Ambientalistas em discussões sobre a queda do muro de Berlim e, ainda, na Conferência Internacional dos Povos Indígenas em Hokkaido, no Japão, entre outros acontecimentos de menor repercussão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/cipa.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é novidade para ninguém que, desde a colonização e o início do contato com o branco, os índios vêm se enfraquecendo, física e espiritualmente. Com a redução brutal do território, eles passaram a viver enclausurados e tiveram que adaptar seu antigo modo de vida à nova realidade. O resultado dessa transformação involuntária foi o distanciamento das raízes, a perda de hábitos e tradições e o conseqüente empobrecimento cultural. Com o xavante a história não foi diferente. Na década de 1990 a situação chegou a tal ponto que, por motivos internos, alguns membros da família de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; decidiram deixar a aldeia em que estavam, Pimentel Barbosa, para fundar uma nova. A idéia era formar uma aldeia pequena, ali perto, com poucas pessoas, que tentariam retomar o "caminho verdadeiro" - como Cipassé costuma dizer. Resgatando as tradições e ensinando-as para os mais novos, eles teriam condições de recuperar a antiga força espiritual, fortalecer o povo e voltar a viver como &lt;em&gt;a'uwê uptabi&lt;/em&gt; (índio verdadeiro) - que é o modo como essa linhagem se autodenomina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa nova aldeia foi fundada em 1996, a 12 km da aldeia Pimentel Barbosa, ao leste da reserva, e chama-se &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt; (Jenipapo). O xavante possui seis reservas, espalhadas por Mato Grosso. São elas: Pimentel Barbosa, São Marcos, &lt;em&gt;Parabubure&lt;/em&gt;, Sangradouro, Areões e Marechal Rondon. A reserva Pimentel Barbosa inicia-se por 6 km além da margem direita da rodovia BR-158 (sentido norte), no município de Canarana. Lá existem cinco aldeias - Pimentel Barbosa, Água Branca, &lt;em&gt;Tanguro&lt;/em&gt;, Caçula e &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt; - uma população de 1.800 índios, aproximadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com muita dificuldade, Wederã foi, aos poucos, tentando cumprir o seu objetivo. Cipassé participou de todo o processo, mas ainda não estava morando na aldeia. Por suas características pessoais e até por sua própria história, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; era a pessoa indicada para assumir a função de cacique da aldeia, como havia sido seu avô. Entretanto, por diversos motivos, ele evitara essa responsabilidade. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; sentia que assumir a função seria um peso muito grande e uma responsabilidade para a qual não se considerava preparado ainda. Nesse ponto, a atuação de minha mãe foi importante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, sua mulher, &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt;, minha mãe e Valéria Queiroz, uma amiga que conheceram em Água Boa, juntaram-se e fundaram uma associação para desenvolver e viabilizar projetos para o povo xavante. Era a Aliança dos Povos do Roncador. Em torno dessa associação, os quatro passaram a conviver e a trabalhar diariamente, levantando os problemas, as soluções, enfim, as questões sobre a situação do xavante (especialmente da aldeia &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;). Entre as ações que deveriam desenvolver, uma era vista como prioritária: a necessidade de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; voltar a morar na aldeia para assumir o posto de cacique. Residindo na &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, ele estaria mais próximo da comunidade e do conselho tradicional - formado pelos anciões - e teria melhores condições para realizar o trabalho de resgate da essência da família e das tradições culturais. Esse seria o primeiro passo, caso desse certo, para posteriormente estender o trabalho para outras aldeias e outras reservas xavantes. Uma das pessoas que o ajudaram a se convencer dessa necessidade foi minha mãe. Tanto que, em janeiro de 2002, ele já estava morando na aldeia na condição de cacique.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/alian%3F%3Fa.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, em junho de 2001, decidi visitá-la em Água Boa e comecei a me programar. Consegui, para julho, duas semanas de férias no trabalho que coincidiram com as férias da faculdade. Depois, foi só dar a boa notícia para a minha mãe, descobrir como se chegava lá e perguntar se eu poderia visitar os índios. Acontece que não é qualquer pessoa que pode entrar na reserva e ir para a aldeia. É preciso que eles tomem conhecimento e autorizem, pois, se alguém entra sem permissão, pode ser perigoso. Após alguns dias recebi a notícia de que permitiram a minha visita. Perfeito! Agora era só concluir os preparativos e embarcar para o Mato Grosso. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116191729591626274?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116191729591626274/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116191729591626274' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191729591626274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191729591626274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/cipass-paulo-cipass-xavante-mais.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116191061352241240</id><published>2006-10-26T17:55:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T17:56:53.526-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Capítulo 2&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Embarcando para o Mato Grosso&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CONVITES&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Na última semana de junho, enquanto orçava as passagens, pensei em quem poderia me acompanhar na empreitada. Eu ainda não sabia o que iria fazer exatamente por aquelas bandas. Mas, com a possibilidade de visitar alguma aldeia indígena, achei que tirar fotos seria uma boa idéia. Então, lembrei de um amigo de São José do Rio Preto, Mauro Henrique, publicitário e fotógrafo, que gostava desse tipo de aventura. Liguei para ele, o entusiasmo foi imediato e Mauro ficou de confirmar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A outra pessoa que chamei foi por acaso. Eu tenho uma amiga, Fernanda Purchio, com quem volta e meia discuto quem tem a mãe mais "maluca". Ora eu ganho, ora ela ganha. A mãe dela, Clara Coelho, faz peças de cerâmica inspiradas em conceitos indígenas. É um trabalho muito interessante. Fernanda me apresentou Clara no início daquele ano, em um restaurante, e trocamos algumas idéias sobre índios, budismo, Shambhala e outros assuntos impróprios para o local. Quando me lembrei que ela demonstrara interesse em conhecer a região, principalmente a Serra do Roncador, onde está situada a cidade de Água Boa e algumas reservas, comentei com Fernanda, que disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pablo, por que você não chama a minha mãe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No começo achei estranho mas, tratando-se de uma viagem tão incomum, falei que telefonaria. Liguei para Clara na tarde seguinte, ela adorou a idéia e ficou de dar resposta. Passados alguns dias, eu já estava com tudo pronto, itinerário, datas, horários e preços. Era só confirmar com eles e fazer as reservas. Mas, por motivos distintos, ambos desistiram e acabei indo sozinho (apesar de que outro telefonema mudaria esse desfecho).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116191061352241240?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116191061352241240/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116191061352241240' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191061352241240'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191061352241240'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-2-embarcando-para-o-mato.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116191051450483609</id><published>2006-10-26T17:53:00.000-07:00</published><updated>2006-11-03T11:42:37.336-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A VIAGEM&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para chegar em Água Boa, de São Paulo, as principais opções são embarcar de ônibus e viajar aproximadamente 27 horas, ou ir de avião até Goiânia e rodar mais 10 horas de estrada (quando esta não se encontra esburacada, como na terceira vez em que fui). Escolhi a segunda opção. No dia 9 de julho de 2001, segunda-feira, embarquei para Goiânia. Após uma hora de vôo, já estava no Centro-Oeste brasileiro, pela primeira vez. Assim que cheguei, entrei num táxi e fui direto para a rodoviária. A pressa tinha motivo: apenas duas companhias faziam o percurso Goiânia-Água Boa e cada uma só tinha um ônibus noturno para lá. Como não era possível reservar antecipadamente, corria sério risco de chegar na rodoviária e ter de passar a noite pelas redondezas, caso os dois veículos estivessem lotados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei na rodoviária por volta das 19h30 e fui para o primeiro guichê. Ao perguntar sobre o último ônibus (se não me engano das 21h30) soube que não tinha mais lugar. Meu coração bateu mais forte no trajeto de 2 metros até o guichê da empresa vizinha. Para minha sorte, aquela ainda tinha algumas poltronas vazias, só que o ônibus sairia apenas às 23 horas. Sem problemas! Comprei a passagem, agradeci a todos os meus guias por ter conseguido e liguei para a minha mãe, em Água Boa, avisando que chegaria por volta das 9 horas da manhã. Com a passagem no bolso e bastante aliviado, precisava inventar algo para fazer nas próximas três horas e meia. Como já era noite, descartei um &lt;em&gt;city tour&lt;/em&gt;. A principal alternativa, então, seria encostar em algum boteco e tomar algumas cervejas até a hora de partir, mas os estabelecimentos da rodoviária não eram nada animadores. Decidido a encontrar um local melhor, me informei com um taxista e descobri que a construção contígua à rodoviária, que eu pensara ser um supermercado, era um shopping center ainda não inaugurado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheio de malas e completamente desajeitado, dei uma volta à procura de algum lugar para aportar. Seguindo as placas do shopping, vi dezenas de mesas e cadeiras, cercadas de estabelecimentos como lanchonetes e restaurantes. Era uma agradabilíssima praça de alimentação. Deixei as malas num guarda-volumes, sentei numa simpática pastelaria, coloquei o CD Tim Maia Racional - Vol. 1 no disc-man e comecei a bebericar alguns chopes, enquanto observava as belas goianas que circulavam. Minha única preocupação, naquele momento, era não perder o horário do ônibus. E, de fato, não perdi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dez chopes e três pastéis depois, não muito alcoolizado mas morrendo de sono, peguei minhas coisas, entrei no ônibus e só acordei após seis horas, quando estava na rodoviária de Barra do Garças, a primeira cidade mato-grossense da BR-158, após a divisa com Goiás. Era a segunda parada da viagem, ideal para se ir ao banheiro, comprar água e evitar comer coxinha. Ao retornar para o ônibus, dormi novamente e só abri os olhos após algumas horas, próximo de uma pequena cidade chamada Nova Xavantina. Como o dia estava amanhecendo não consegui mais dormir. Ainda bem, pois a paisagem era maravilhosa. O contraste que havia entre o céu azul sem nuvens, a terra avermelhada e a vegetação do Cerrado - bastante seca - era impressionante. Mas o que mais me chamou a atenção foi uma extensa e interminável cadeia de serras que acompanhava paralelamente a estrada. Era linda! Mais tarde fiquei sabendo que aquelas serras faziam parte da famosa e misteriosa Serra do Roncador. Pouco depois, ainda na companhia do Roncador, o ônibus parou em uma pequena rodoviária com cerca de seis plataformas (não me lembro exatamente) e dois bares. Debaixo de um sol forte, desci na rodoviária municipal de Água Boa, meu ponto final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/1600/chegada.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/chegada.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116191051450483609?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116191051450483609/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116191051450483609' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191051450483609'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191051450483609'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/viagem-para-chegar-em-gua-boa-de-so.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116191030615192142</id><published>2006-10-26T17:51:00.001-07:00</published><updated>2006-11-03T11:48:04.470-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A CASA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/1600/casa%20frente%20perto.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/casa%20frente%20perto.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que eu esperava, com base no que a minha mãe falava pelo telefone, a casa dela era muito bacana. Na parte da frente tinha um belo gramado com algumas árvores (incluindo um pé de pitanga e um de maracujá). A casa era em forma de "L", o que proporcionava bastante espaço interno e externo. Entre o jardim e a área construída, ficava o meu lugar preferido. Era uma espécie de varanda. Lá havia algumas cadeiras, uma rede e a mesa de jantar. Era extremamente agradável. Mas ainda era estranho para mim. Apesar de ela já ter vivido em sítios (sempre próximos de São Paulo), eu estava acostumado a morar com ela ou a visitá-la em bairros tipicamente paulistanos como Higienópolis, Moema, Jardins e Itaim-Bibi. E, de repente, o novo lar ficava numa pacata rua sem asfalto, no Mato Grosso, região central do Brasil, e era visitado diariamente por diversos calangos que adoravam o gramado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/casa.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Chegando na casa tomamos o tradicional café da manhã de boas-vindas para visitantes, que a minha mãe sempre preparava quando recebia algum hóspede. Mais tarde, Valéria e Stella foram embora e fiquei sozinho com ela. Como estava cansado da viagem, aproveitei para colocar o assunto em dia e descansar um pouco, enquanto aguardava a chegada de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116191030615192142?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116191030615192142/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116191030615192142' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191030615192142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191030615192142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/casa-ao-contrrio-do-que-eu-esperava.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116191038345298468</id><published>2006-10-26T17:48:00.001-07:00</published><updated>2009-11-22T21:56:21.249-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;ESCARIFICAÇÃO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Logo que cheguei vi Stella Mendes Gonçalves, minha vizinha de São Paulo que estava passando uns dias em Água Boa, Valéria, amiga da minha mãe que eu ainda não conhecia pessoalmente e, claro, a própria, que me deu um grande susto. Ao me aproximar, vi que estava com a testa inteira riscada, com finos cortes paralelos que iam do início do couro cabeludo até próximo à sobrancelha. Era bem assustador. Após cumprimentar todas, não pude deixar de perguntar, com extrema cautela, o que havia acontecido. Entramos no carro da Valéria e, enquanto percorríamos os cinco quarteirões entre a rodoviária e a casa da minha mãe, ela explicou que aquilo se chamava escarificação. Era um tipo de cura da tradição xavante para diminuir a dor de um determinado local. Eles acreditam que, com esses pequenos cortes superficiais, o sangue sai do corpo levando as toxinas que causam as dores. No caso da minha mãe, ela falou que as dores de cabeça cessaram após a escarificação. Independentemente do êxito, é uma imagem bastante chocante. Não por acaso, a vizinha de Água Boa chegou a perguntar, ironicamente, se ela havia brigado com alguma onça ou outro animal quando esteve na aldeia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116191038345298468?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116191038345298468/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116191038345298468' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191038345298468'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191038345298468'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/escarificao-logo-que-cheguei-vi-stella.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116191024868434081</id><published>2006-10-26T17:48:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T17:50:48.686-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;CHOQUE CULTURAL&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha visto poucos índios pessoalmente na minha vida, quase todos em situações deploráveis - mendigando ou bêbados. Também já havia encontrado alguns em feiras hippies e vendendo artesanato. Mas jamais conhecera um índio próximo de seu contexto, muito menos havia sido apresentado a um. Quando &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; chegou, eu e minha mãe estávamos dentro da casa. A campainha tocou e ela comentou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deve ser o &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela deu uma espiada, viu que era ele e disse para entrar. Empurrando uma bicicleta, o índio abriu o portão, colocou-a para dentro e gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ô de casa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Emendando uma sonora risada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; vestia roupas de homem branco (camiseta, calça esportiva e chinelo Havaiana), tinha cara e cabelo de índio e um brinco grosso atravessado em cada orelha, típico do xavante. Quando o vi, fiquei impressionado, pois era um índio de verdade, entrando na casa da minha mãe e fazendo festa. Confesso que não foi uma cena natural para mim. Devo ter sofrido o que chamam de "choque cultural". Achei tudo muito estranho, confuso, mas o que mais me despertou a atenção foi o incrível contraste que ele apresentava. Mesmo não sendo alto, ele parecia um troglodita, de tão forte, e, ao mesmo tempo, lembrava um menino, já que não parava de falar e gargalhar. Quando nos cumprimentamos, percebi que vinte e quatro anos de Brasil e mais 500 de colonização não foram suficientes para me preparar para o meu primeiro contato com um índio. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; foi extremamente simpático e, de coração, após apertar a minha mão, me deu um grande abraço. Eu, surpreso com a espontaneidade do gesto, fiquei sem a menor reação. Parecia um estúpido. Mas, após o abraço, olhei para ele e tive uma sensação maravilhosa, que me deixou emocionado. Eu não sabia se acabara de reencontrar um velho amigo, um irmão mais velho, um mestre, não sei. Foi um encontro muito especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de apresentados, sentamos na varanda e conversamos por algum tempo. É claro que eu tinha milhões de perguntas para fazer, mas quem iniciou os questionamentos foi ele: "O que você acha da sua mãe estar morando aqui? E aí, está pronto pra conhecer a aldeia? O que a sua família, em São Paulo, pensa sobre ela estar no Mato Grosso?". E por aí foi. Eu acabei perguntando pouco, mas o papo foi ótimo. Principalmente para começar a quebrar as barreiras inconscientes que eu tinha e a mudar os preconceitos em relação aos índios que estavam enraizados dentro de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, perto da hora do almoço, Stella e Valéria voltaram. Ficamos um pouco em casa e depois fomos almoçar. À tarde passamos na Portal Turismo, agência de viagem na qual Valéria trabalhava. Lá conheci Laranjinha, um dos sócios, uma figura ímpar. Quando falava com a minha mãe de São Paulo, pelo telefone, ela sempre citava esse Laranjinha. Ele foi umas das pessoas que fez a ponte entre ela e os índios e que apresentou diversos lugares da região. Nascido em Crissiumal, no Rio Grande do Sul, se mudou para Água Boa em 1977. Laranjinha tem trânsito livre entre a sociedade local e o povo xavante, e é uma das pessoas que mais conhece aquela parte da Serra do Roncador, incluindo alguns lugares maravilhosos e misteriosos. No restante do dia não fiz nada de muito útil, apenas passeei no centrinho da cidade para ver as mulheres locais, em sua maioria belíssimas descendentes de gaúchas, li e dormi. Mas a grande expectativa era mesmo em relação à data em que iríamos para a aldeia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116191024868434081?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116191024868434081/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116191024868434081' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191024868434081'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191024868434081'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/choque-cultural-eu-tinha-visto-poucos.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116191006684418071</id><published>2006-10-26T17:45:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T20:48:11.280-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;CLARA?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia seguinte, quarta-feira, foi bastante agitado. Pela manhã, logo que acordei, Valéria, Stella e minha mãe estavam em casa. Antes mesmo de desejar bom dia, perguntaram:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pablo, você conhece alguma Clara?&lt;br /&gt;- Conheço, por quê?&lt;br /&gt;- Porque o Marcelo, um arquiteto de São Paulo, que está vindo para a casa da Ely &lt;span style="font-size:78%;"&gt;(1)&lt;/span&gt;, ligou de Goiânia e perguntou se ela conhecia algum Pablo em Água Boa. Ele falou que está vindo com uma amiga de São Paulo chamada Clara e a única referência dela na cidade é um tal de Pablo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondi que conhecia, mas que não deveria ser a mesma pessoa, pois a Clara que eu havia convidado para viajar comigo acabara desistindo. O mistério ficou no ar e eu tinha certeza de que não era ela. Já elas achavam que era a mesma Clara, pois na cidade só havia um Pablo (e ele não devia conhecer muita gente de São Paulo). Ficamos todos com a pulga atrás da orelha. Seria muita coincidência o amigo da Ely estar chegando com a mãe da minha amiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das 11 horas da manhã ligaram da casa da Ely. Os dois chegaram. Nós quatro fomos até lá para conhecê-los e, principalmente, descobrir quem era essa Clara. Chegando na casa, a surpresa: era a mãe da Fernanda, minha amiga. Nós nos cumprimentamos e perguntei o que havia acontecido. Ela respondeu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu estava colocando algumas roupas para secar no varal, quando o Marcelo, meu amigo, ligou avisando que estava indo para Goiânia. Estranhei Goiânia. Na minha cabeça ainda estava fresca a lembrança da cidade por causa da sua viagem e perguntei o que ele iria fazer lá. Ele disse que, na verdade, estava indo para Água Boa, como arquiteto, para fazer um trabalho para uma amiga de São Paulo. Quando ele falou Água Boa tomei um susto e achei que era muita Água Boa em poucos dias. Perguntei, então, quando ia, e ele respondeu que no final da tarde. Liguei para a Fernanda (que trabalhava numa agência de viagens) e ela comprou a passagem. Não tive nem tempo de explicar ou me despedir direito, deixei as roupas no varal, arrumei a mala e fui para o aeroporto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela terminou de contar, o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi a disputa entre a Fernanda e eu. A princípio achei que estivesse ganhando no quesito mãe maluca, já que vi a minha com a testa inteira talhada. Mas Clara empatou, e bonito. Ela simplesmente embarcou com o amigo sem saber onde eu estava, o meu telefone e sem fazer idéia de que a Ely poderia me conhecer. Ela sentiu que deveria ir e foi. Independentemente de eu estar lá ou da possibilidade de não me encontrar. Mas, por "sorte", ela viajou com o Marcelo que era hóspede da Ely - amiga nossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(1) Ely era sócia da empresa em que a minha mãe trabalhava, em São Paulo, e estava naquela viagem que a fez decidir se mudar para Água Boa, no início do ano. Ely tem uma casa na cidade, a seis quadras da de minha mãe, e estava passando alguns dias com o marido, Zé Carlos.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116191006684418071?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116191006684418071/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116191006684418071' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191006684418071'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116191006684418071'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/clara-o-dia-seguinte-quarta-feira-foi.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116190991954168284</id><published>2006-10-26T17:36:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T17:45:19.546-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;PREPARAÇÃO MENTAL&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o inusitado encontro, fomos almoçar e depois retornei à casa para descansar (eu estava um perfeito vagabundo). No final da tarde, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; ligou e se encarregou de colocar um ponto final na minha expectativa em relação à ida para a aldeia, ao mesmo tempo em que acrescentou um pouco mais de emoção naquele agitado dia. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; avisou a minha mãe que iríamos na manhã seguinte, quinta-feira. Ela desligou o telefone e me avisou na hora, toda animada. Eu, com um tremendo sorriso amarelo, respondi:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro! - travando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que eu não quisesse ir para a aldeia, longe disso. Mas não queria ir tão depressa. Eu estava curtindo ficar o dia inteiro sem fazer nada em Água Boa. E aquela notícia repentina fez a minha cabeça ficar a mil por hora. Dúvidas, receios, medos, mais dúvidas, tudo começou a vir à tona. Enquanto minha mãe preparava o jantar, eu a bombardeava com perguntas. Ela estivera diversas vezes na aldeia e sabia bem como era. Então tentei iniciar uma espécie de preparação mental. Aos poucos fui compreendendo melhor como era o esquema e pude relaxar. Após o jantar ela perguntou se eu gostaria de ir até a casa da Ely, onde um pessoal estava reunido. Não fui, preferi ficar em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das 21 horas, o telefone tocou. Era o meu pai, ligando de São Paulo. Antes mesmo de perguntar como estavam as coisas, ele falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá assistindo o jogo do São Paulo? Já está 2 a 0!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, são-paulino roxo, havia me esquecido de que o Tricolor estava disputando a finalíssima da Copa dos Campeões, contra o Flamengo. Como a casa da minha mãe estava sem televisão, nem me lembrei da partida. Aquele tinha tudo para ser um jogo duríssimo, pois o São Paulo havia perdido feio no primeiro encontro e agora precisava ganhar com vários gols de diferença. Mas, vencendo por 2 a 0, ainda no primeiro tempo, tudo era possível. Assim, meu coração tricolor bateu mais forte e não tive dúvida. Liguei para a casa da Ely, perguntei se tinha televisão e como chegava lá. Ela me  explicou e, constrangido, subi na bicicleta da minha mãe - uma Caloi Ceci cor-de-rosa com cestinha na frente - e pedalei em alta velocidade pelas alamedas agua-boenses até lá (torcendo, é claro, para que ninguém me visse naquela situação).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando na casa, Ely atendeu a porta, falou que tinha uma turma no terraço do fundo e que era para eu ficar à vontade na sala. Sentei no sofá e sem fazer barulho, o que não foi fácil, assisti a partida. De repente, surgiu uma indiazinha linda de quatro anos de idade. Era Clarinha, xavante, filha de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;. Ela sentou ao meu lado e perguntou, em português, se eu era filho da Ana Maria. Respondi que sim e trocamos algumas palavras. Clarinha estava muito animada e não parava quieta. Ficava um pouco com o pessoal do fundo e depois vinha para a sala, falava comigo, pegava algumas balas na mesa e dizia que era Flamengo. Para alegria dela e total desespero meu, o Mengo começou muito bem o segundo tempo e logo empatou a partida, restando-me fazer a seguinte pergunta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que eu vim fazer aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxa vida, deixei o sossego de casa, pedalei em uma bicicleta cor-de-rosa, à noite, só para ver a porcaria do meu time perder mais uma final! Só não fiquei completamente mal-humorado porque Clarinha era divertidíssima e não parava um minuto. Numa das vezes em que ela voltou para a sala, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; veio junto. Ele me cumprimentou e perguntou o placar do jogo. Falei o resultado e notei que ele ficou feliz, já que é flamenguista. Mas o mais engraçado era a situação. A primeira partida entre os dois times, assisti na casa de Dorlan Jr., grande amigo de São Paulo, enchendo a cara de cerveja e churrasco com toda a turma. Agora, quatro dias depois, eu estava em Água Boa, tomando suco de laranja e assistindo à segunda partida ao lado do meu novo amigo índio... e flamenguista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o jogo praticamente definido em favor do adversário, minha atenção voltou-se ao &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;. Aproveitando a deixa do futebol, ele falou dos tempos em que jogava em Goiânia, contou do pessoal que joga bola na aldeia e, quando me dei conta, o assunto já era o povo xavante. Eu fazia várias perguntas, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; respondia, contava histórias e, pela primeira vez na minha vida, vi o São Paulo perder uma final sem me alterar (ainda bem que os meus amigos são-paulinos não viram). Quando ele falou sobre a aldeia, as coisas que fazem lá e o que eu poderia esperar da visita, fiquei muito empolgado e ansioso para embarcar. A conversa despertou algo em mim que, de alguma forma, começou a mudar o meu foco sobre aquela viagem e a maneira de enxergar o que estava em volta. E essa mudança foi fundamental para eu compreender o que iria acontecer dali para frente. Mais tarde, na caminhada de volta para casa, debaixo de um belo céu estrelado, percebi que não tinha ido à toa para a casa da Ely, como imaginara, mas para concluir a "preparação mental" que começara à tarde, com a minha mãe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116190991954168284?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116190991954168284/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116190991954168284' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116190991954168284'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116190991954168284'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/preparao-mental-aps-o-inusitado.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116190939778558427</id><published>2006-10-26T17:35:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T17:36:37.786-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Capítulo 3&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Entrando no Mundo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;PREPARATIVOS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, quinta-feira, acordei cedo. Enquanto tomava café da manhã, ajudava a minha mãe nos preparativos para a viagem. A gente não sabia se iria ficar um ou dois dias na aldeia, já que existia a possibilidade de fazermos um passeio na sexta-feira, a uma gruta. Separamos, então, apenas o que era extremamente necessário: roupas, incluindo calça e casaco, cobertas, rede e alimentos, como pão de forma, atum, maionese, margarina, macarrão e frutas. Apesar do calor forte que faz de dia, é fundamental levar calça, casaco e cobertas para dormir, pois a madrugada, ao contrário, é gelada. E a rede, diferente daquela imagem romântica de que se encontrará na aldeia diversas redes produzidas pelos próprios índios para dormir, lá, quem vai leva a sua.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116190939778558427?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116190939778558427/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116190939778558427' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116190939778558427'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116190939778558427'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-3-entrando-no-mundo.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116190934029984105</id><published>2006-10-26T17:33:00.000-07:00</published><updated>2006-10-26T17:35:40.303-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;PÉ NA ESTRADA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos na parte de fora da casa, conversando, quando chegou uma caminhonete D-20 repleta de índios na carroceria. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; desceu com Clarinha. Após as apresentações carregamos tudo e subimos na carroceria, onde havia de oito a dez índios. Desde jovens até idosos. Ao cumprimentá-los percebi que não falavam português. Eles só mexeram a cabeça, positivamente. Antes de cairmos na estrada, passamos na casa da Ely para buscar Clara e depois na de Valéria para pegá-la e mais Stella, que estava hospedada com ela. Pronto. Todos a bordo, o raio-x do caminhão era o seguinte: Clara, Stella e eu íamos pela primeira vez. Minha mãe e Valéria eram habitués da aldeia. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; e Clarinha, apesar de estarem morando em Água Boa, seguiam para a casa de seus parentes, enquanto os outros índios voltavam para casa. Tentei passar a impressão de que aquela era a situação mais normal do mundo. Mas não era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que mais me chamou atenção foi o jeito dos índios conversarem. Eles falavam muito rápido, em xavante, e, de vez em quando, o tom de voz se elevava até estourar em uma grande risada. Para quem está perto e não entende uma palavra, a sensação é de que estão tirando o maior sarro. Mas, conforme &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; entrava na conversa e também gargalhava, percebia-se que o motivo da chacota não era a gente, já que ele não faria isso (até faria, mas depois traduziria). Mesmo assim não deixa de ser um pouco constrangedor, até se acostumar. Outra coisa que também impressiona é o olhar das pessoas na rua, ao verem o caminhão cheio de índios e alguns não-índios. É uma mistura de curiosidade, medo e raiva. Como pude perceber nas duas semanas em que fiquei na região, principalmente em Água Boa, a grande maioria da população local não gosta dos índios. E isso se deve, principalmente, à questão da disputa de terra, que já mencionei anteriormente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saindo de Água Boa seguimos pela mesma rodovia que eu havia chegado de Goiânia, a BR-158, rumo ao norte. O trecho estava bom, é de asfalto e não tem quase nada em volta. Apenas vegetação do Cerrado e, muito raramente, alguma casinha ou estabelecimento comercial. Depois de passar por Serra Dourada, cidade que está para ser emancipada, e Matinha, um pequeno vilarejo, deixamos a via principal na altura do município de Canarana e entramos à direita, em uma pequena estrada de terra seca, totalmente irregular e esburacada. Dali a 6 km é o início da reserva. Se viajar em uma rodovia na caçamba de um caminhão (dirigido por um índio) não era muito seguro, agora então, tornara-se alto risco, pois a estrada é péssima e não há absolutamente nenhuma perspectiva de ajuda por perto. Tanto a primeira aldeia quanto a última cidade estão muito distantes. O melhor que se tem a fazer é segurar firme em algum lugar e rezar para que tudo dê certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre as conversas na carroceria, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; me perguntou se eu praticava esporte ou corria bem. Falei que fazia natação, que de vez em quando jogava futebol e squash, mas que não era nenhum atleta. Ele respondeu ótimo e falou que eu participaria de uma competição assim que chegássemos na aldeia. Levei para o lado da brincadeira e disse que não tinha problema. Conforme avançamos para dentro da reserva, a paisagem ficou mais bonita e a quantidade de serras cada vez maior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após aproximadamente duas horas e meia de viagem, vi uma construção. A primeira dentro da reserva. Era uma casa normal, de tijolo, onde morava uma família de não-índios. Ao lado havia outra construção, do mesmo tipo. Essas eram, respectivamente, o posto da Funai e a escolinha da aldeia, que também servem de abrigo para visitantes. A caminhonete continuou andando e pude observar uma grande caixa- d’água, onde estava escrito Aldeia Pimentel Barbosa e, por perto, vi vários índios jovens, todos pintados, descalços, sem camisa e com shorts. Eles estavam na estrada, mas o caminhão entrou antes, à esquerda, e seguiu para o pátio da aldeia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116190934029984105?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116190934029984105/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116190934029984105' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116190934029984105'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116190934029984105'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/p-na-estrada-estvamos-na-parte-de-fora.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116190916892429682</id><published>2006-10-26T17:31:00.000-07:00</published><updated>2006-11-03T11:56:19.650-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;PRIMEIRA IMPRESSÃO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira impressão que tive foi de estar num filme ou num sonho. Não parecia real. Eu não estava no Brasil, muito menos nesse mundo. Era como se eu tivesse voltado no tempo ou que o próprio tempo estivesse parado. Mas era uma sensação ótima, de liberdade, como nunca havia sentido. Não sei por que, mas o fato de ter chegado ali era como se eu tivesse quebrado e deixado uma série de obstáculos para trás, internos e externos, e fosse recompensado por ter conseguido. E a recompensa era justamente ter o privilégio de estar lá e sentir o que estava sentindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/corrida.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Diferente da imagem que eu tinha, as ocas eram imensas. Altas e grandes. Pelo menos por fora pareciam ser muito espaçosas. Não contei quantas, mas eram várias. Elas ficavam perfiladas lateralmente formando um semicírculo (ou ferradura, como costumam dizer). Ainda em cima do caminhão, vi outro grupo de índios jovens, todos pintados, com shorts amarelo, sem camisa e descalços. O dorso e os braços estavam pintados de vermelho, com massa de urucum, e as canelas estavam pretas, pintadas com carvão. Eles seguiam em fila, como se estivessem marchando, atrás de um índio mais velho que andava levemente agachado, com várias folhas de buriti entrelaçadas nas costas, formando a chamada capa de Nonississurã. Eles o seguiram até sumir da minha vista.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/corrida2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116190916892429682?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116190916892429682/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116190916892429682' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116190916892429682'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116190916892429682'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/primeira-impresso-primeira-impresso.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116190905305952699</id><published>2006-10-26T17:24:00.000-07:00</published><updated>2006-11-05T12:22:09.503-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;NONI&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A caminhonete parou perto de uma grande oca onde estavam várias mulheres e crianças, que cercaram o veículo e fizeram uma grande festa. Quando descemos, fiquei espantado com minha mãe e Valéria, que conheciam todos. Eu ajudei a descarregar algumas bagagens e fiquei próximo do caminhão, já que nosso destino não era essa aldeia, mas a seguinte, &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;. Em Pimentel Barbosa, a princípio, só íamos parar para deixar os índios que estavam com a gente, descarregar algumas bagagens, pegar Tia Fernanda, mãe do &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, e seguir para a aldeia dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto ajudava a descer os objetos do caminhão, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; me chamou e explicou o que estava acontecendo na aldeia. Tínhamos chegado no meio de um ritual, o &lt;em&gt;Noni&lt;/em&gt;. Durante o mês de julho inteiro daquele ano, os jovens participavam de rituais diários, que faziam parte do fechamento de um ciclo. Após aproximadamente cinco anos vivendo na Casa dos Adolescentes, o &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;, eles estavam se formando. Quando o xavante é adolescente, passa a morar numa oca (que fica dentro da aldeia mas separada das demais) e permanece pelos cinco anos seguintes convivendo com outros garotos. Lá, sob a orientação dos padrinhos, eles vivem a adolescência e a juventude preparando-se para a vida adulta através de diversos rituais, muito aprendizado e iniciações. Após esse período, os &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt;, como são chamados, se formam, voltam a morar em suas casas e vivem outro processo, o &lt;em&gt;ritéiwá&lt;/em&gt;, que é a passagem definitiva para a vida adulta. Essa etapa dura mais alguns anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os rituais de formatura dos &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt;, existe esse que estava acontecendo, o &lt;em&gt;Noni&lt;/em&gt;. Durante um mês, todos os dias, na hora mais fria da manhã e mais quente da tarde, eles disputam corridas. O xavante, por ser um povo guerreiro e totalmente espiritualizado, fundamenta alguns de seus rituais na superação do físico para fortalecer o corpo e o espírito, já que a sobrecarga chega a tal ponto que o esforço transcende o limite dos dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; me contou que o xavante é dividido em grupos. De acordo com o tipo de festa ou ritual que acontece, os grupos são determinados através da idade ou linhagem familiar. Quando os adolescentes estão no &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;, eles se dividem em grupos conforme o clã e competem entre si. Assim que chegamos, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; disse que era do grupo &lt;em&gt;Sada´ro&lt;/em&gt; e que eu participaria da corrida pelo grupo &lt;em&gt;Airere&lt;/em&gt;. Levei um baita susto mas ao mesmo tempo me senti extremamente honrado. Eu entrei para o &lt;em&gt;Airere&lt;/em&gt; porque era justamente a geração que estava se formando naquele momento e tínhamos a faixa etária próxima. Em seguida, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; falou para eu tirar a camiseta e o chinelo. Deixei-os com a Clara e o segui até uma das ocas. Lá, ele amarrou a tradicional e sagrada gravata xavante no meu pescoço. Depois, amarrou duas cordinhas finas, uma branca e uma preta, na minha cintura. Só de bermuda e com os apetrechos xavante, fomos até a caixa-d’água que eu tinha visto na chegada, enquanto ele passava as coordenadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O negócio era o seguinte. Na estrada, em baixo da caixa-d’água, era o início da corrida. Quando ele desse o sinal, eu teria de correr o máximo que eu conseguisse pelo pátio da aldeia e atravessá-lo inteiro, até o final, onde ele apontara duas árvores de &lt;em&gt;wedetede&lt;/em&gt;. Ao chegar, precisava bater a mão em uma das árvores. O problema é que de onde eu estava, não dava para ver as árvores. Primeiro porque era muito longe, quase 300 metros. Segundo porque minha visão de longas distâncias não é das melhores, por conta de 1,75º de astigmatismo que tenho. Em todo caso, visualizei duas formas que deveriam ser as árvores e concentrei-me. Do meu lado havia poucos índios, uns quatro, mas, de repente, uma fila como aquela que vi na chegada apareceu. Guiados pelo padrinho, eles se posicionaram na minha frente e se prepararam. Após o padrinho fazer alguns movimentos com a capa e falar alguma coisa, um deles disparou e outro, do grupo adversário, foi atrás. Na seqüência, alguns índios os seguiram. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; fez sinal para que eu fosse um pouco à frente. Fiquei ao lado de um índio mais jovem do que eu. Ele devia ter uns 16 anos, no máximo. À espera do sinal e sabendo que a hora estava se aproximando, meu coração acelerou e a adrenalina subiu a níveis exorbitantes, até que:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai!&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/corrida4.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Corri como nunca havia corrido. O sol estava a pino, o chão, com a terra pegando fogo e cheia de pedrinhas e galhos, parecia que corroía o meu pé. Como eu não tinha noção da distância e muito menos esperava por aquilo, não fiz nenhum plano de corrida.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/corrida7.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Simplesmente disparei e pensei em manter o ritmo até o final. Mas conforme eu corria, as árvores não se aproximavam como eu gostaria. Mais ou menos na metade, percebi que estava à frente do meu adversário e reduzi um pouco a velocidade. Não foi boa idéia, ele se aproximou e ficou ao meu lado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/corrida5.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sem muito o que fazer e com um péssimo retrospecto, afinal eram meus últimos dez anos de cerveja contra uns dezesseis de vida (no máximo), apelei para o único recurso que tinha, um &lt;em&gt;sprint&lt;/em&gt; final. Tirei forças não sei de onde e consegui encostar a mão em primeiro lugar na árvore.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/corrida6.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, minha mãe e o pessoal aplaudiram, enquanto alguns índios não paravam de rir. Principalmente os que estavam no local da chegada, o &lt;em&gt;wedetede&lt;/em&gt;, posicionados atrás das árvores e de frente para os "corredores". Esses devem ter visto o meu semblante de desespero e caíram na gargalhada. Após a grande vitória, agachei por uns 15 segundos para tentar voltar a respirar, pois a sensação era de que eu não respirava desde a largada.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/corrida8.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Aparentemente recomposto e com o pé dando sinais de que explodiria, caminhei até o meio com ar de dever cumprido, em busca de água. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; acudiu-me com uma garrafa térmica e falou:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/corrida9.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;- Muito bem! Você correu legal. Agora volta lá que você vai disputar mais uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esbocei a menor reação (nem mesmo a de desânimo, que traduziria o sentimento). Lentamente, caminhei até o local, bastante atordoado e sem saber exatamente o que esperar. Mas eu tinha uma vantagem: agora já estava experiente e sabia que em hipótese alguma poderia largar daquele jeito, em alta velocidade, pois eu logo cansaria. A estratégia, então, era sair numa boa e, do meio para o final, disparar. Praticamente um "Joaquim Cruz do Cerrado". Com o plano em mente, aguardei o sinal. Como havia muita gente na região da largada e saíam de dois em dois para correr, em curtíssimo espaço de tempo, eu não sabia quem seria o meu adversário. Mas já estava pronto. De repente, ouço o &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o plano em mente, larguei sem forçar muito e, quando vi, meu adversário já estava a uns 6 metros à frente. Desta vez era da minha idade, talvez poucos anos mais jovem, mas já tinha mais de 20. Vendo que ele disparava, mudei a estratégia e corri o máximo que pude. Foi aí que tudo pesou: a corrida anterior, o pé que parecia estar em carne viva, os dez chopes e três pastéis de Goiânia, os últimos dez anos de churrasco e bebedeira... Resumindo: foi patético. Ele chegou muito antes para alegria total da aldeia, que se divertiu às minhas custas. Quando encostei na árvore, achei que estivesse indo dessa para melhor. O sol, que beirava os 35 ºc, na minha cabeça parecia estar na faixa dos 70 ºc. A terra, então, parecia brasa. Quando olhei para a sola dos meus pés, vi que ganhara uma bela bolha de sangue em cada um.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/corrida10.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Mas, independentemente de todo esforço e conseqüente lastimável estado físico, a sensação era maravilhosa. Pensei comigo, quantos não-índios tiveram ou teriam a oportunidade de participar de um ritual tão importante como esse? Feliz e ciente do privilégio que tivera, juntei-me às pessoas e rapidamente fui cercado pelas crianças. Àquela altura, eu já era a atração da aldeia. Não pela minha performance na pista, mas por uma "estranha" característica física. Ao contrário dos índios, que praticamente não possuem pêlos no corpo, eu tenho. E muito. Como eu estava só de bermuda e levemente familiarizado na aldeia, as crianças deixaram a vergonha de lado, me cercaram e puxaram alguns pêlos da perna que, para eles, era algo exótico e divertido. Elas passavam a mão, puxavam e riam. E eu não podia fazer nada. Geneticamente, o índio não tem tanto pêlo. No caso dos xavantes, eles ainda arrancam os poucos que têm com cinza de fogo, a partir dos 3 anos de idade, seguindo o padrão de beleza deles. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116190905305952699?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116190905305952699/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116190905305952699' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116190905305952699'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116190905305952699'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/noni-caminhonete-parou-perto-de-uma.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116187816511745902</id><published>2006-10-26T08:51:00.000-07:00</published><updated>2006-11-03T12:12:12.370-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;"PRESÂN"&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/eurico.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Na hora de ir embora, nos despedimos de todos e carregamos a caminhonete. Enquanto eu ajudava, o índio que havia me derrotado na corrida parou do meu lado e entregou-me uma cesta de folha de buriti, que ele mesmo fizera. Achei que fosse para levarmos para a outra aldeia e tentei colocar na carroceria. Mas ele tocou na minha mão, balançou o dedo negativamente e falou algo como "presân". Não entendi e tentei guardar. Novamente ele bateu na minha mão e falou "presân". Só que desta vez apontou para mim. Foi aí que percebi que ele estava tentando dizer "presente". Como eu era visita, havia participado de algo tão importante na aldeia e ele foi a pessoa que competiu comigo e venceu, por livre e espontânea vontade, ele achou que deveria me dar uma lembrança, um presente. Eu, absolutamente sem graça e emocionado, peguei a cesta e dei um grande abraço nele, agradecendo o meu "presân".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116187816511745902?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116187816511745902/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116187816511745902' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187816511745902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187816511745902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/presn-na-hora-de-ir-embora-nos.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116187735293058656</id><published>2006-10-26T08:41:00.000-07:00</published><updated>2006-11-03T12:15:49.830-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Capítulo 4&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Descobrindo um Novo Mundo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;ROSTOS INCAS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subimos no caminhão e continuamos a viagem. A estrada era a mesma e os problemas idem - buracos, calor e muito desconforto. Mas, como não estávamos indo para um spa indígena e sim para uma aldeia, tudo fazia parte do contexto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/corrida11.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Na metade do caminho, entre as aldeias Pimentel Barbosa e &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, há um ponto fantástico. Muito próximo da estrada há algumas serras, de ambos os lados. Num determinado ponto, duas delas, gigantes, estão paralelamente perfiladas. A impressão que se tem ao passar é que se está deixando tudo para trás e entrando, definitivamente, num outro território. É como se passássemos por um portal invisível. O mais incrível foi quando nos aproximamos e Clara comentou sobre as formas irregulares dessas serras, que muito lembravam os famosos rostos incas que existem nas serras e montes do Peru. Quando Clara falou, todos nós olhamos e vimos o que ela havia enxergado. Era maravilhoso e extremamente forte. Principalmente porque &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, Valéria, &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt; e minha mãe já haviam passado diversas vezes e nunca repararam. Eles já tinham visto outras formas, mas essa associação que fizeram com os rostos incas foi a primeira vez.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116187735293058656?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116187735293058656/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116187735293058656' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187735293058656'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187735293058656'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-4-descobrindo-um-novo-mundo.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116187725427341528</id><published>2006-10-26T08:38:00.000-07:00</published><updated>2006-11-05T13:55:19.053-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;ENFIM, WEDERÃ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após 12 km (a partir da aldeia Pimentel Barbosa) chegamos à &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/aldeia%20lua.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Assim que o caminhão entrou no pátio, as crianças nos cercaram. Descemos, fomos apresentados aos parentes do &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; e eu, ainda com os pés fritando, ajudei-o a descarregar a bagagem. Nessa primeira visita a &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, a aldeia tinha aproximadamente oito ocas grandes e quatro pequenas. Das grandes, sete perfiladas em semicírculo e uma isolada na metade oposta do pátio. Essa última era a escola e todas as outras eram residências. As quatro pequenas eram as cozinhas da aldeia. Quando estávamos na Pimentel Barbosa, cheguei a entrar em uma oca pouco antes da corrida, mas não reparei atentamente como era. Desta vez, ao entrar com mais calma, pude observar melhor. A construção era realmente grande. Quando se falava em oca, a imagem que vinha à minha cabeça era a daquelas cabaninhas que vemos no cinema, como no filme &lt;em&gt;Dança com Lobos&lt;/em&gt; ou nos desenhos do &lt;em&gt;Pica-Pau&lt;/em&gt;. Mas são enormes, pelo menos aquelas ocas xavantes. Elas devem ter algo em torno de 20 metros de circunferência e uns 20 de altura no ponto mais elevado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/aldeia%20ocas.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;A construção da oca é influenciada pelo estilo das cabanas dos sertanejos e caboclos locais. O esqueleto é formado por grossos troncos de madeira. Um principal, que fica no centro da oca, e outros que são perfilados em volta, inclinando-se para o topo do tronco central. Esses compõem as bases para a parede e o teto. Perpendicular, há diversas tabocas (bambus), que ajudam a sustentar a estrutura. O revestimento, feito de palha de indaiá e de buriti, impede a passagem de luz e ajuda a bloquear tanto o calor quanto o frio (no caso do frio, com menor eficiência).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei na oca do pai do &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, que era a principal liderança da aldeia. A porta era normal, feita de madeira, dividida ao meio. Durante o dia, quando estava calor, só se fechava a parte de baixo para impedir a entrada de cães e galinhas. E à noite, devido ao frio, fechavam-se as duas partes.&lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/Untitled-24A.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Logo na entrada havia uma espécie de biombo. Do lado esquerdo, encostada na parede da oca, ficava a cama de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; e sua mulher, Fernanda. Grande, espaçosa e feita com madeira, taboca e palha de buriti, parecia desconfortável. Na minha segunda visita à aldeia, quando, doente, precisei dormir nela, vi que era apenas a aparência, pois a cama era muito confortável. Do lado direito do biombo havia outra cama e duas redes. A cama era da filha de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, Narazé, seu marido, Tadeu, e seus filhos. Na cultura xavante, depois do casamento o homem vai morar na oca do pai da mulher. Não é muito comum o uso de rede, que é mais utilizada durante o dia e principalmente pelas crianças. Próximo das paredes ficavam algumas estruturas de madeira que serviam de armários e prateleiras para guardar roupas, alimentos e brinquedos. Na palha que revestia a oca havia diversos objetos pendurados, como pás, facas, martelos e cestas. Essas cestas, feitas por eles com palha de buriti, são muito úteis para carregar e transportar objetos, crianças de colo e também servem para armazenar alimentos e roupas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/redes%20oca.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Ao entrarmos na oca, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; falou que iríamos todos dormir lá. Achei estranho, pois somando os visitantes e os da casa, éramos mais de dez pessoas, mas, após ajudar a armar as redes, vi o quanto era grande. Depois de tudo pronto, fui até o rio tomar banho. Toda aldeia xavante situa-se à beira de algum rio, pois é lá que eles tomam banho e lavam a roupa e as panelas. Também é o lugar onde brincam as crianças da aldeia. A única coisa que não fazem no rio ou perto dele é xixi e cocô, e aprendem isso desde pequenos. Peguei sabonete, xampu, toalha, roupa limpa e desci até o rio, distante uns 20 metros, atrás da escola, num pequeno barranco. As aldeias xavantes são construídas dessa forma, à beira de um rio e com as casas em semicírculo voltadas para ele. Lá, vendo que não havia ninguém por perto, tirei a roupa e entrei na água. A sensação foi maravilhosa. Permaneci algum tempo no maior sossego e assim que terminei voltei renovado para o pátio da aldeia. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116187725427341528?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116187725427341528/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116187725427341528' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187725427341528'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187725427341528'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/enfim-weder-aps-12-km-partir-da-aldeia.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116187707323469471</id><published>2006-10-26T08:36:00.000-07:00</published><updated>2006-11-03T12:26:39.596-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;ALIMENTAÇÃO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproveitando a última hora de luz natural, ficamos no pátio conversando, tirando algumas fotos e, finalmente, fomos comer. Estávamos desde a manhã sem colocar nada no estômago e a fome era grande. Diferente do que eu pensava, não há uma refeição única e coletiva na aldeia, pois as ocas são independentes. Cada uma possui a sua roça, o seu estoque de comida e as pessoas para alimentar. Não há um horário certo para as refeições e nem mesmo um local comum. Aliás, a questão da falta de comida é um problema sério enfrentado pelo xavante. Desde o início do contato com os brancos, na metade do século passado, os hábitos alimentares mudaram muito e, também, com a redução territorial, a oferta de alimentos na natureza diminuiu consideravelmente. Assim, não é sempre que comem. Mas eles ainda fazem a tradicional caça coletiva, da qual participam todos os homens da aldeia. Nesse caso, quando retornam, o resultado é dividido entre a comunidade inteira. E, dependendo do êxito e da ocasião, que pode coincidir com um evento importante, como um casamento, por exemplo, é realizada uma grande celebração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No nosso cardápio tinha arroz e peixe, pescado no rio próximo à aldeia. Para acompanhar, pão de fôrma com manteiga e frutas. Com exceção do peixe, levamos tudo. Apesar de cada oca se virar com a própria comida, existem algumas cozinhas comunitárias, que ficam espalhadas entre as ocas. Na parte central da cozinha há uma pequena estrutura onde eles colocam lenha para o fogo. Lá também são armazenados alguns alimentos, a caça e o produto das culturas comuns da aldeia, como mandioca, por exemplo. A mandioca e seus derivados são a base da alimentação xavante. Com ela fazem farinha para comer e, desta farinha, pão e bolo. Já a caça é armazenada de um modo muito peculiar. Como não há energia elétrica para refrigeradores nem caixas de isopor, quando retornam da caça, assam o animal inteiro e assim o conservam por algum tempo. Os xavantes não usam talheres, mas as próprias mãos. Geralmente, aproveitam as poucas sombras que há no pátio, próximas às ocas, e comem sentados no chão ou em cadeirinhas e banquinhos feitos de madeira. Quando está muito quente, ficam dentro da oca para evitar o sol. Aproveitamos que o clima estava fresco e comemos do lado de fora, sentados em um banco encostado à oca, apreciando o maravilhoso pôr-do-sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/porta%20da%20oca.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116187707323469471?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116187707323469471/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116187707323469471' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187707323469471'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187707323469471'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/alimentao-aproveitando-ltima-hora-de.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116187698298704473</id><published>2006-10-26T08:32:00.000-07:00</published><updated>2006-11-03T12:32:42.576-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A NOITE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando anoiteceu, toda a agitação da aldeia diminuiu. A criançada dorme cedo, logo que o sol se põe, e a partir de então faz muito silêncio. Ainda se ouviam algumas pessoas conversando, crianças falando e chorando dentro das ocas, mas só. O principal som vinha da natureza, dos pássaros e cigarras. O céu na aldeia é o mais fantástico que já vi em toda minha vida. Como ela está em uma reserva de 328 mil hectares, não há luz elétrica por perto, muito menos emissão de poluentes. Sem essas interferências, o que se vê é uma noite absurdamente estrelada, com satélites artificiais e estrelas cadentes passando a todo instante, constelações facilmente identificáveis, a Via Láctea extremamente distinta e a lua iluminando o pátio da aldeia. Para quem aprecia uma bela noite com muito do que o céu tem para mostrar, é fascinante. Principalmente no mês de julho, quando não chove e raramente há nuvens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia, não me lembro por quais razões, não houve o tradicional &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt;. O &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; é a reunião dos anciões pertencentes ao conselho tradicional da aldeia, em volta da fogueira, no centro do pátio, para conversar sobre tudo o que aconteceu no dia e o que está para acontecer nos próximos. Sentados ou deitados em esteiras, eles atualizam os assuntos e tratam das questões que ficaram sem solução. É como se no final de cada dia as pessoas limpassem tudo para que o dia seguinte começasse livre, sem nada pendente. Para mim, esse foi um dos hábitos xavantes, aplicáveis à nossa vida, que mais me chamou a atenção. Como não houve o &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; esticou uma esteira de palha de buriti do lado de fora da oca e pediu para &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; nos chamar. Clara, Stella, Valéria, minha mãe, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, Clarinha e eu esticamos algumas esteiras e nos sentamos na frente dele. Debaixo daquele "teto" incrível, ouvindo apenas os sons que vinham da mata e sentindo o cheiro da vegetação seca do Cerrado misturado com o da fumaça de uma pequena fogueira que havia no centro da aldeia, escutamos &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre falando em xavante - &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; traduzia - ele nos deu as boas-vindas oficiais. Após algumas palavras para todos, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; avisou que falaria especificamente para cada um. Principalmente para Clara, Stella e eu, que estávamos pela primeira vez na aldeia. Quando chegou a minha vez, fiquei totalmente paralisado. Apesar de eu não entender uma palavra, aquilo era tão forte que eu só consegui fechar os olhos e me entregar ao momento. Era realmente muito especial. Depois de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; falar por mais de 30 minutos, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; traduziu o que ele havia dito. Dissera, entre outras coisas, que estava feliz por eu estar lá, que eu não estava à toa na aldeia, que havia uma razão maior, que apreciava muito o trabalho de minha mãe, que ela estaria segura enquanto estivesse lá. Quando terminou de falar com todos, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; deu um abraço em cada um e se recolheu. Nós continuamos lá fora, deitamos nas esteiras e ficamos contemplando o céu, comemorando cada nova estrela cadente que surgia. Devia ser pouco mais de 23 horas, o que é muito tarde na aldeia, quando entramos na oca para dormir. A temperatura havia caído bastante e baixaria mais ainda durante a madrugada, obrigando-me a dormir de calça, meia, camiseta e agasalho. Ao deitar na rede, enrolei-me num cobertor e demorei um pouco até pegar no sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/stella%20rede.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte fomos acordados por volta das 6 horas da manhã. A aldeia ainda não se encontrava totalmente desperta, mas já havia um certo movimento. A temperatura estava baixa, mas o céu azul que surgia com o nascer do sol era certeza de mais um dia de intenso calor. Sem comer nada, juntamos nossas coisas, colocamos na caminhonete e nos despedimos do pessoal. &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; chamou cada um e nos presenteou com um anel feito com casca de coco. Subimos na carroceria e deixamos a aldeia para trás. Nosso destino era uma gruta que, segundo os índios e as poucas pessoas que a conheciam, era sagrada. Antes fomos até Água Boa, onde estava &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt;, mulher de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;. Ela acabara de chegar de um congresso sobre educação em Barra dos Bugres, no Mato Grosso. Severiá, uma índia Karajá-Javaé, casada com &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; desde 1988, é professora, fala português, inglês e um pouco de xavante. Pegamos &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt; e voltamos para a BR-158 até um lugar conhecido como Matinha, o último ponto habitável antes da reserva, onde encontraríamos alguns conhecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116187698298704473?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116187698298704473/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116187698298704473' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187698298704473'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187698298704473'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/noite-quando-anoiteceu-toda-agitao-da.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116187659984740191</id><published>2006-10-26T08:27:00.000-07:00</published><updated>2006-11-05T12:24:12.820-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;GRUTA SAGRADA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A Matinha é um pequeno vilarejo à beira da BR-158, 20 km ao sul da entrada da reserva, com um típico botequinho de estrada que quebra o maior galho. Comemos algumas besteiras, enquanto aguardávamos o restante do pessoal. Primeiro chegou um caminhão vindo da Caçula, uma das cinco aldeias xavantes da reserva Pimentel Barbosa. Da caçamba desceram &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt;, pajé da aldeia Caçula e tio de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, Ivan, o cacique, e Zé Guimarães. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; os recebeu com um grande abraço e fez as apresentações. Um pouco depois chegou uma Van trazendo o restante do grupo. Lá estavam Ely, Zé Carlos, Clara, Marcelo, o amigo arquiteto que veio com Clara de São Paulo, Seu Paulo Guarani, um índio que mora na região, &lt;em&gt;Tserité&lt;/em&gt;, pajé xavante da aldeia São Felipe, e Laranjinha, que seria o nosso guia. Com todos reunidos, entramos na Van e seguimos viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O passeio foi planejado por Zé Carlos. Ele tinha o sonho de juntar &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt;, Paulo Guarani e &lt;em&gt;Tserité&lt;/em&gt;, três grandes forças espirituais da Serra do Roncador que, apesar de se conhecerem, nunca tinham se reunido. E nada melhor do que fazer isso num lugar sagrado. A gruta fica dentro de uma propriedade particular, no município de Cocalinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/laranjinha.jpg" border="0" /&gt;Para chegar, retornamos na BR-158 sentido Água Boa e, pouco depois de passar por Serra Dourada, entramos à esquerda. Seguimos pela MT-346, atravessamos o Rio das Mortes de balsa e, depois de 70 km nessa estrada, chegamos na porta da fazenda. Para entrarmos, Laranjinha pegou a chave com um funcionário que estava nos esperando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gruta ficava a uns 7 metros acima do lugar em que paramos a Van. Era extremamente imponente. De onde estávamos, era possível ver apenas o vão principal cercado por diversas árvores. Caminhamos alguns metros e subimos por uma pequena trilha. Quase no topo havia uma cobertura de cimento que lembrava um coreto, só que com uma mesa central e banquinhos em volta. Deixamos nossos pertences e subimos mais um pouco.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/gruta%20entrada.jpg" border="0" /&gt;Na entrada, fiquei impressionado. A gruta era muito maior do que parecia. A água, ora azul, ora esverdeada, era cristalina e brilhava com os poucos raios de sol que incidiam. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/gruta6.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No teto e nas paredes, as estalactites esculpiam formas maravilhosas e algumas um pouco assustadoras. Descemos alguns metros por uma pequena escada lateral e finalmente nos aproximamos da água. Molhei a mão, o rosto e, fascinado com a beleza, perguntei ao Paulo Guarani se poderia tirar algumas fotos. Ele falou que sim, porém dificilmente sairia alguma coisa, já que além de ser muito escuro, era um lugar sagrado. Segundo ele, foram raras as fotos tiradas lá que ficaram boas. Ouvi o conselho mas não resisti. Subi de volta para a cobertura de cimento, peguei minha máquina e bati algumas chapas.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/gruta%20verde.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos as pessoas foram se ajeitando. Enquanto umas tiravam fotos, outras meditavam, descansavam e, claro, entravam na água. Os três índios mais velhos andaram por umas pedras e se acomodaram numa delas, grande, que ficava bem próximo da água. Eles iniciaram uma longa conversa e ninguém se aproximou. Depois de bater as fotos, resolvi juntar-me aos que estavam nadando. A temperatura da água era agradável, apesar de um pouco fria. Mas como fazia calor, estava ótimo. Atravessamos para o outro lado, onde havia um grande paredão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/gruta5.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Laranjinha nos levou até uma passagem que levava a uma parte interna da gruta. Tomando cuidado com os morcegos, entramos e, mais uma vez, fiquei boquiaberto. Dentro era fascinante, apesar de muito escuro. Com exceção de alguns poucos feixes de luz que passavam pelos buracos das paredes, a fraca iluminação vinha por baixo, através da água transparente. Olhando para o fundo, viam-se claramente as estalagmites. Nas laterais e no fundo de onde estávamos, havia algumas aberturas que davam início a novos corredores, como se fossem câmaras. Sem mencionar detalhes, Laranjinha nos avisou que, em hipótese alguma, poderíamos entrar em qualquer uma delas. Ficamos um tempo contemplando o lugar e tentando decifrar as formas que as estalagmites tomavam. O curioso é que elas lembravam as formas de alguns pontos da Serra do Roncador que havíamos visto ao longo da reserva e da região. Enquanto isso, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; se juntara aos três índios que não paravam de conversar. Algumas pessoas que já haviam saído da água se aproximaram deles e ficaram por perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/gruta4.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Um pouco antes do final da tarde, retornamos para a cobertura de cimento. Conversamos um pouco até que &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; fez uma espécie de fechamento daquele encontro, ressaltando a importância do lugar, a alegria que ele estava sentindo e que era para nós nos sentirmos honrados, já que ali era um local sagrado e não era qualquer pessoa que podia chegar lá e entrar naquelas águas. Além do lugar e do contexto fantástico em que estávamos, o que chamou a minha atenção foi o fato de que do lado de fora da gruta ventava bastante e, mesmo cercada por uma vasta vegetação, nem uma única folha entrou e caiu na água. Era estranho. Depois que &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; falou, tiramos algumas fotos com todos reunidos e entramos na Van para voltarmos para Água Boa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/gruta%20quatro.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116187659984740191?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116187659984740191/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116187659984740191' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187659984740191'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187659984740191'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/gruta-sagrada-matinha-um-pequeno.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116187641921580038</id><published>2006-10-26T08:23:00.000-07:00</published><updated>2006-11-05T12:50:51.493-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Capítulo 5&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;O Livro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BENDITA LOUÇA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol estava se pondo quando a Van deixou minha mãe e eu em casa. Depois de um necessário banho seguido por um rápido cochilo, acordei com o pessoal entrando em casa. Eram &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt;, Clarinha, Valéria e Stella. Para quebrar a "freqüência energética" em que estávamos, pedimos duas pizzas, algumas cervejas e refrigerantes. Depois de acordar numa aldeia indígena e passar a tarde numa gruta sagrada, curtimos um pouco do "profano", como costumávamos brincar. Após a comilança, fizemos uma pequena avaliação sobre a nossa jornada. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; nos explicou muitas coisas, tirou dúvidas e ajudou a compreendermos a experiência que vivemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tarde seguinte, sábado, passamos na casa da Ely para nos despedirmos de Clara, Marcelo e Stella, que voltariam para São Paulo. Eu ainda ficaria mais uma semana em Água Boa, mas não retornaria à aldeia. Pelo menos não desta vez. No domingo aproveitei para fazer algo que não fazia há meses (talvez anos) - comer um legítimo almoço dominical feito pela mama. Enquanto ela preparava uma macarronada, fiquei na varanda descansando e tomando uma cervejinha para abrir o apetite. Não demorou muito e &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; chegou para almoçar conosco. Eu estava bastante ansioso para conversar com ele, já que na minha cabeça não paravam de surgir dúvidas e novas conclusões sobre a visita à aldeia e toda a viagem. Quando terminamos de comer, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; e eu fomos para a cozinha lavar a louça, onde pudemos conversar bastante sobre vários assuntos. Contei um pouco sobre o meu trabalho, a minha vida em São Paulo, ele falou sobre a gravação que a banda Sepultura fez na aldeia Pimentel Barbosa, a turnê do cd Txai com o Milton Nascimento, entre outras coisas. No meio do papo, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; disse algo que na hora não fez tanto sentido, mas depois, com o passar do tempo, descobri que se referia justamente ao que fui buscar naquela viagem. E, mais importante, era o que balizaria a minha vida dali para frente, resultando, inclusive, neste livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/Xav3.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; falou que o meu caminho era o que eu estava seguindo - o de redator. Só que o foco deveria ser outro. Em vez de ficar trancado num escritório escrevendo matérias, criando textos publicitários ou histórias, eu deveria viajar, conhecer novos lugares, pessoas e relatar essas experiências. Na hora, me pareceu pouco viável, mas, conforme absorvi a idéia, fui me sentindo extremamente bem, pois, pela primeira vez, enxerguei algo relacionado ao que eu fazia que poderia me satisfazer plenamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não nos aprofundamos mais no assunto, mas aquilo ficou martelando na minha cabeça. Era como se um novo horizonte se abrisse para mim. E de fato foi o que aconteceu nos meses e anos seguintes. Mas o mais confortante foi saber que a minha viagem para o Mato Grosso fazia muito sentido. Claro que eu já estava feliz demais por tudo o que havia passado e conhecido nos dias em que estive lá. Porém, agora veio a resposta ao que me moveu até a região central do país (pelo menos até aquele momento) - a total insatisfação profissional que eu estava vivendo em São Paulo. Embora tivesse um bom salário e uma agitada vida social, jamais seria feliz e, pior, não via nada que pudesse fazer para melhorar. Agora, apesar de parecer inviável, algo em mim despertou e mudou as perspectivas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116187641921580038?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116187641921580038/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116187641921580038' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187641921580038'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187641921580038'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-5-o-livro-bendita-loua-o-sol.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116187617000832777</id><published>2006-10-26T08:20:00.000-07:00</published><updated>2006-11-05T13:03:29.646-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;ÚLTIMOS DIAS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos meus últimos dias em Água Boa tive bastante contato com Laranjinha, que contou diversas histórias sobre a Serra do Roncador, além de fatos que aconteceram com ele durante suas andanças pela região. Com base no que ouvi e no pouco que vi, li e senti, fiquei absolutamente apaixonado pelo lugar. Histórias reais como as aventuras do coronel Fawcett, nos anos 20, que originou o personagem Indiana Jones; as diversas associações com os incas, maias e astecas; a lagoa sagrada que nunca altera o nível da água; as galerias subterrâneas; as lendas de civilizações intraterrestres, enfim... São segredos e mistérios do Roncador que, não por acaso, atraem pessoas do mundo inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também tive alguns sonhos bastante esquisitos. Por duas noites, sonhei que havia um índio muito grande, de quase 2 metros de altura, no quarto. Ele ficava em pé, sempre parado, com uma postura quase militar. Quando começava a sonhar, eu acordava assustado e, ao abrir o olho, via uma silhueta escura, como a do sonho. Claro que eu ficava ainda mais assustado, fechava os olhos e tentava dormir o mais depressa possível. Tive outro sonho que também continuou depois que despertei. Certa noite, sonhei que andava numa rua e via três senhoras, não-índias, bastante idosas. Elas vieram lentamente na minha direção e, a uns 8 metros de distância, deram um salto para cima, se juntaram no ar e se transformaram numa grande bola de luz. Como um cometa, essa luz veio na minha direção e explodiu na barriga. Eu acordei na hora, assustado e, quando me dei conta, estava com uma baita dor de barriga. Passei a noite em claro, indo da cama para o banheiro e vice-versa, até a hora em que consegui voltar a dormir. No dia seguinte, levantei extremamente bem, como se nada tivesse acontecido e com uma disposição impressionante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu último dia na cidade, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; passou em casa para se despedir e entregar alguns presentes. Ele trouxe a gravata xavante que eu havia utilizado na corrida e as duas cordinhas que usei na cintura. Também me deu quatro cordões, dois pretos e dois brancos, que foram amarrados nos meus pulsos (dois em cada). &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; me explicou que esses cordões são usados pela sua família toda vez que viajam ou fazem trabalho fora da aldeia (como forma de proteção). Ele viajaria para o interior de São Paulo e seu pai havia lhe dado, mas, como a viagem foi cancelada, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; entregou para mim. Antes de nos despedirmos, contei os sonhos e ele me tranqüilizou, dizendo que a casa da minha mãe era especial (não por acaso antes de ela se mudar já se chamava Casa da Luz) e que aquele índio que vi morava lá e era o "guardião da casa". Achei meio estranha aquela explicação, mas acreditei no meu amigo, pelo menos em respeito à crença dele. Quanto às "senhoras iluminadas" e a conseqüente disenteria, ele falou que eu havia passado por uma limpeza física e espiritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/casa%20da%20luz.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;O sonho, aliás, é algo extremamente importante e sagrado para o xavante. É através dele que os vivos se comunicam com os antepassados e os mestres espirituais, recebendo avisos, prenúncios, explicações e até novas canções para serem cantadas nos rituais. Eles procuram dormir com o rosto para cima, sem se mexer muito, pois acreditam que facilita a comunicação com esses espíritos. Outro fator importante são os quatro pequenos pedaços de madeira que algumas ocas possuem amarrados no tronco central, sempre voltados para o centro da aldeia. São chamados de &lt;em&gt;wamãri&lt;/em&gt;. Diz a tradição que, há muitos anos, dois espíritos, criadores do Cerrado e dos bichos que o habitam, foram mortos por um xavante. Ao morrerem, o sangue que pingou na terra deu origem a uma nova árvore, a &lt;em&gt;wamãri&lt;/em&gt;, que nasceu para mostrar que eles eram bons. Desde então, o xavante passou a acreditar que os pequenos pedaços de madeira provenientes dessa árvore servem para protegê-lo e aguçar o sonho. Os pedaços que protegem chamam-se wamãrihurê e os dois do sonho &lt;em&gt;wamãriaue&lt;/em&gt;. Na minha segunda viagem tive a oportunidade de viver algumas experiências que só foram esclarecidas através de uma incrível sincronicidade entre os fatos e os sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116187617000832777?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116187617000832777/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116187617000832777' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187617000832777'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116187617000832777'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/ltimos-dias-nos-meus-ltimos-dias-em.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183370235731415</id><published>2006-10-25T20:33:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T16:16:45.856-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;DE VOLTA A SÃO PAULO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos primeiros dias em São Paulo estive completamente fora do ar. Os acontecimentos e as imagens da viagem não me saíam da cabeça. Enquanto digeria a experiência, voltei às minhas atividades normais: trabalho, faculdade, natação, festas e bebedeiras. As fotos, incluindo as da gruta, ficaram ótimas. Das pessoas que estiveram comigo no Mato Grosso, mantive mais contato com Stella, minha vizinha. Com Clara falei duas vezes por telefone e com Valéria troquei alguns e-mails. Um deles foi muito especial. Conforme eu havia combinado, mandei uma cópia de cada filme que tirei para o &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;. Como chegaram através da minha mãe, várias pessoas as viram, incluindo o Seu Paulo Guarani.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/gruta%20reflexo.1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Num dos e-mails que Valéria me mandou, ela parabenizou-me pelas chapas, especialmente as da gruta, e mandou um recado do Seu Paulo, dizendo que ele havia gostado das fotos e que era para eu me sentir muito honrado com o resultado, pois eu havia recebido permissão dos mestres da gruta para que ficassem como ficaram. E o mais interessante foi quando vi as fotos que Stella tirou na gruta. Só apareceram as imagens das pessoas. O fundo, com a água e as estalactites, ficou totalmente escuro, preto. E as minhas ficaram perfeitas, com todas as cores e detalhes. Claro que isso pode ter diversas explicações, como a qualidade das máquinas e dos filmes. Inclusive porque já vi chapas de um fotógrafo rio-pretense do mesmo local. Mas vale o registro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/eu%20na%20gruta.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183370235731415?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183370235731415/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183370235731415' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183370235731415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183370235731415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/de-volta-so-paulo-nos-primeiros-dias.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183361426070604</id><published>2006-10-25T20:32:00.000-07:00</published><updated>2006-11-05T13:06:26.576-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;GRANDE HONRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; tive mais contato, só que indiretamente, através da minha mãe, que mandava notícias e recados. Com o passar dos meses, o contexto da viagem esfriou, até que em uma tarde de outubro ela ligou de Água Boa com uma grande notícia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabe o que é, filho, o &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, avô do &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, que foi um dos xavantes mais importantes do século passado, morreu há uns 25 anos, e há 20 eles procuram alguém para escrever a história dele. Há alguns anos escolheram uma pessoa, mas parece que não deu muito certo. Dias atrás o &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; teve uma intuição de que você talvez pudesse escrever esse livro. Ele levou a idéia para o pai dele e os tios (os filhos do &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;), que aprovaram. E depois levou para &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt;, que não só concordou como também enviou um medalhão de luz para fortalecê-lo. Agora o &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; quer saber se você aceita escrever o livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/apowe.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Sem palavras do outro lado da linha, não consegui pronunciar um simples sim. Claro que eu aceitaria, mas a emoção era tão grande que não consegui falar nada. Depois de passado o impacto, respondi positivamente e pedi mais detalhes. Assim que desligamos, comecei a pensar a respeito. Antes de mais nada, estava claro que aquela era a maior honra de toda a minha vida. Sentia-me ainda mais honrado por saber que me escolheram sem nunca terem lido um texto meu e que o xavante não faz nada importante sem antes consultar suas bases espirituais. Mas havia um problema nessa história: quando eu iria escrevê-lo e como? Eu tinha o meu trabalho e estava preso à faculdade. Sem muita opção e conhecendo a maneira como as coisas acontecem com o xavante - tudo no seu tempo - não me preocupei e deixei acontecer naturalmente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183361426070604?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183361426070604/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183361426070604' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183361426070604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183361426070604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/grande-honra-com-cipass-tive-mais.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183350632832761</id><published>2006-10-25T20:29:00.000-07:00</published><updated>2006-10-25T20:31:46.330-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;MUDANÇAS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um mês depois, em novembro, houve uma grande reformulação na produtora e o meu trabalho mudou completamente. Em vez de cd-rom para crianças, começamos a produzir cd-rom sobre a história dos principais clubes de futebol do Brasil e eu fiquei encarregado de todo o conteúdo. Achei ótimo, primeiro porque não agüentava mais as historinhas infantis, segundo porque adoro futebol. E o curioso é que as minhas novas atividades iam ao encontro do que &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; me havia dito em Água Boa. O primeiro clube foi o Santos e, por várias vezes, desci até a cidade, visitei a Vila Belmiro, conversei com funcionários, ex-jogadores, historiadores, enfim, fiz o que ele disse que seria bom para mim. Isso me possibilitou respirar novos ares e ter uma nova perspectiva profissional. No primeiro semestre do ano seguinte, em 2002, continuei o trabalho, agora sobre o Corinthians, depois o Palmeiras e indo ao Rio de Janeiro para escrever sobre o Flamengo. Enquanto isso, na faculdade, iniciei o Trabalho de Conclusão de Curso, já que estava no último ano. Com tantas coisas, não consegui sequer pensar no livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final de maio as coisas mudaram ainda mais. Enfrentando problemas financeiros, a produtora dispensou quase todos os funcionários. Eu continuei com eles, só que na condição de &lt;em&gt;free-lance&lt;/em&gt;. Com muito mais tempo e menos carga de trabalho, resolvi que era a hora de fazer as coisas à minha maneira. A primeira atitude foi embarcar para Buenos Aires com um amigo, Xixo, e ficar uma semana vagabundeando na Argentina, em pleno auge da maior crise econômica da história dos nossos &lt;em&gt;hermanos&lt;/em&gt;. Quando voltei, executei um novo projeto para a produtora, também na área de futebol, que durou um mês. No início de julho, sem trabalho fixo, com o convite para escrever o livro e de férias da faculdade, não tive dúvida. Fiz o mesmo itinerário do ano anterior e, ao invés de descer em Água Boa, fiquei mais uma hora no ônibus e desci em Serra Dourada, onde minha mãe estava morando.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183350632832761?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183350632832761/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183350632832761' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183350632832761'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183350632832761'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/mudanas-um-ms-depois-em-novembro-houve.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183336841151868</id><published>2006-10-25T20:27:00.000-07:00</published><updated>2006-11-07T11:54:51.246-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Capítulo 6&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Segunda (e quase última) Viagem&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;SERRA DOURADA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Serra Dourada é um vilarejo à beira da br-158, 45 km depois de Água Boa - sentido Norte, que, até o final de 2003, ainda não havia se emancipado. Na época tinha apenas 400 habitantes, sendo que um deles era a minha mãe. Ela e Valéria compraram uma casinha bastante modesta, bem próxima à rodovia. Quando cheguei lá, Valéria havia se mudado e minha mãe estava sozinha. Ao contrário da casa de Água Boa, que era agradabilíssima, essa era muito sombria. Serra Dourada era uma espécie de vilarejo fantasma, com quase nenhum movimento de pessoas, apenas de caminhões e poucos carros. A casa era paupérrima, sem forro no teto e pintada de um azul claro, feio e velho. O que salvava era a sempre aconchegante decoração da minha mãe e algumas peculiaridades que destoavam do local, como o jogo de talheres de prata e a toalha de mesa de linho do enxoval da minha vó. Mas havia um motivo pelo qual minha mãe e Valéria haviam comprado aquela casa: a localização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/tereno.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Quem as ajudou a escolher o lugar foi &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;. Depois que encontraram a casa, ele foi até lá, olhou o lugar e deu o aval para o negócio ser fechado. Quando falo na localização não estou me referindo à beira da rodovia, mas à parte de trás do terreno. No fundo da casa havia um quintal com quatro mangueiras enormes no centro. Embaixo, uma mesa e alguns bancos. No final do terreno, iniciava-se a propriedade do vizinho e, a pouquíssimos metros, um gigantesco vale, muito extenso, que já fazia parte da aldeia xavante Água Branca. Nesse vale, bem na frente do quintal, havia um monte lindo, o Ararat, famoso na região por suas lendas e citações bíblicas, e do lado direito do terreno, uma serra igualmente grande e imponente. Acordar, abrir a janela do quarto e ver aquela paisagem, compensava a total falta de estrutura do vilarejo e a precariedade da casa.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/ararat%20novo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183336841151868?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183336841151868/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183336841151868' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183336841151868'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183336841151868'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-6-segunda-e-quase-ltima-viagem.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183321335942685</id><published>2006-10-25T20:23:00.000-07:00</published><updated>2006-10-25T20:26:53.363-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;LEISHMANIOSE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei em Serra Dourada numa terça-feira, 9 de julho de 2002. Até sexta-feira não fiz absolutamente nada. Fiquei só descansando, lendo e curtindo a vista. Nem mesmo uma cervejinha tive vontade de tomar. Com a possibilidade de ir a qualquer momento para a aldeia e a pouca empolgação que o local proporcionava, fiquei quieto. Mas algo estava me preocupando: minha mãe. Ela havia sido picada por um inseto na perna direita, entre a canela e o joelho, e a cada dia piorava. Na quinta-feira, Helena, amiga dela e enfermeira do único posto de saúde de Serra Dourada, foi em casa. Minha mãe a chamou para que desse uma olhada na perna. Eu estava no quarto quando ouvi o diagnóstico:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Xiiiiiiii, parece Bauru.&lt;br /&gt;- Bauru?&lt;br /&gt;- Isso, picada de Bauru.&lt;br /&gt;- Eu nunca ouvi falar nesse Bauru. É grave?&lt;br /&gt;- É complicadíssimo, ele entra na pele e vai comendo tudo por dentro.&lt;br /&gt;- Meu Deus! E tem algum remédio ou algo que eu possa fazer?&lt;br /&gt;- Tem. Além de alguns remédios, você precisa tomar uma injeção de antibiótico por dia durante cinqüenta dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por razões óbvias minha mãe ficou completamente transtornada. Ela tinha a esperança de que aquele diagnóstico pudesse estar errado ou um pouco exagerado, mas a enfermeira conhecia bem os insetos do lugar e o estrago que podiam causar. No dia seguinte, sexta-feira, Cipassé chegou acompanhado de seu pai, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, mais &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt; e Clarinha. Ele olhou a perna e também concluiu que era o Bauru, só que deu o nome da doença: leishmaniose.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A leishmaniose é uma doença causada por protozoários da espécie &lt;em&gt;Leishmânia&lt;/em&gt;, que pode atacar a pele (leishmaniose cutânea), as mucosas (leishmaniose muco-cutânea) e os órgãos internos (leishmaniose visceral). A doença existe no mundo todo e é transmitida pela picada de certos mosquitos (&lt;em&gt;Phlebotomus&lt;/em&gt;). Os hospedeiros desses protozoários são os macacos, os roedores, as preguiças e os canídeos, entre outros. O mosquito pica esses animais, adquire o protozoário e, ao picar o homem, transmite a enfermidade. No Brasil também existe a &lt;em&gt;Leishmania brasiliensis&lt;/em&gt;. Por aqui a doença é popularmente conhecida por alguns nomes como úlcera de Bauru e ferida brava. Atualmente o tratamento é feito com diversos quimioterápicos fornecidos pelo governo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer pessoa em sã consciência ficaria em casa fazendo o tratamento ou iria para uma cidade maior onde pudesse se cuidar com mais segurança. Porém, sã consciência não é uma palavra muito comum no dicionário da minha mãe e ela enfiou na cabeça que queria se curar com os índios. Se fosse há décadas atrás, quando, no caso do xavante, ainda não havia sido feito o contato com o branco e, portanto, eles ainda não tinham as nossas doenças, tudo bem. Mas agora eles contraem as mesmas doenças, se medicam com os nossos remédios e em nossos hospitais. Com isso, eles se enfraqueceram demais e perderam quase que por completo o maravilhoso dom que tinham de curar-se através das ervas, plantas e raízes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim, minha mãe bateu o pé e disse que se trataria na aldeia. Ela perguntou para &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; se poderiam curá-la e eles responderam que tentariam, apesar de a medicina não ser o forte da família. Minha mãe reforçou: "Eu acredito na medicina &lt;em&gt;a’uwê&lt;/em&gt;". &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, então, levantou-se e foi até a cerca lateral da casa, que fazia divisa com o Cerrado. Ele permaneceu de pé olhando para a vegetação por alguns minutos, até que decidiu entrar e sumiu de vista. Quando reapareceu, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; estava com algumas raízes na mão. Colocou-as numa sacola plástica, pediu um pouco de água e fez uma mistura. O resultado era uma pasta formada por um pozinho preto, levemente umedecido. Com cuidado, ele aplicou-a na ferida, fez um pequeno curativo e protegeu o local com uma faixa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183321335942685?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183321335942685/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183321335942685' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183321335942685'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183321335942685'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/leishmaniose-cheguei-em-serra-dourada.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183299928332063</id><published>2006-10-25T20:20:00.000-07:00</published><updated>2006-11-05T13:14:55.556-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;FOGUEIRA SAGRADA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde jantamos do lado de fora da casa e ficamos no quintal. &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; armou uma rede na árvore, levamos cobertor e era lá que ele dormiria mais tarde. Antes, resolvemos acender uma fogueira para conversarmos um pouco, já que o céu estava belíssimo e a noite, por conta da deslumbrante paisagem, ganhara ares especiais. Fui com &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; até a mata e ele falou que iríamos fazer uma fogueira sagrada, grande, bem ao estilo "xavante piromaníaco" (o xavante é incapaz de fazer fogueira com menos de 2 metros de altura). Clarinha ficou dormindo dentro da casa enquanto conversávamos em volta do "fogo sagrado". Com a rara oportunidade de estar com &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; num local, digamos, neutro, e sem muitas pessoas, aproveitei para fazer algumas perguntas um pouco mais ousadas do que o normal, como, por exemplo: Qual era o segredo da Serra do Roncador? Qual era o verdadeiro papel do xavante no Cerrado e no Roncador? Qual era a verdade sobre as histórias das luzes e sons que saíam de algumas serras do Roncador? Ele respondia alguma coisa em xavante, e o &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, naturalmente, nos enrolava na tradução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em determinado momento a fogueira começou a ficar estranha. Conforme o fogo queimava, os troncos e galhos ganhavam formas esquisitas, como de cobras, lagartos e outros seres. Sempre com feição má. Nas pontas surgiam pequenos furos, como se fossem olhos, e um pouco abaixo apareciam alguns cortes dando a impressão de que eram bocas. Eu não havia tomado nada de álcool, muito menos me drogado ou ingerido alguma substância alucinógena, mas que eu via vários seres esquisitos eu não tenho dúvida. Para piorar, quase todas as formas olhavam para mim. A coincidência passou a incomodar-me e comentei em voz alta. Minha mãe viu na hora e ficou impressionada. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; também notou, comentou com &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; e depois falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não disse? Fogueira sagrada é assim. Está queimando todas as energias negativas daqui.&lt;br /&gt;- Mas por que estão olhando para mim? - perguntei.&lt;br /&gt;- Não, isso é só coincidência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/fogueira%20figuras.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;A explicação me tranqüilizou mas, conforme a noite avançava e o fogo queimava, mais e mais seres apareciam nos troncos, sempre me olhando. De vez em quando um vento soprava na fogueira, fazendo um barulho agudo bastante assustador, ao mesmo tempo em que se levantava uma grande fumaça, veloz, muitas vezes saindo dos buracos que pareciam ser os olhos e as bocas. Para mim aquela história de fogueira sagrada começou a ficar sem graça, principalmente porque não adiantava nem mexer na madeira pois, independentemente da posição, sempre apareciam novos seres, quase todos me encarando. Ficou insuportável! Por volta da meia-noite todos estávamos com sono, especialmente &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, e resolvemos dormir, já que na manhã seguinte, bem cedo, seguiríamos para a aldeia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183299928332063?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183299928332063/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183299928332063' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183299928332063'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183299928332063'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/fogueira-sagrada-mais-tarde-jantamos.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183278705201214</id><published>2006-10-25T20:17:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T16:20:51.096-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;O QUASE ACIDENTE &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui para a cama bastante intrigado com o que tinha visto. Às oito e meia da manhã de sábado, dia 13 de julho, chegou o carro com três índios da aldeia Pimentel Barbosa. Não sei qual era o modelo do veículo, mas era uma espécie de caminhonete, com espaço para três pessoas na cabine e de seis a oito na parte de trás, que era fechada. Colocamos nossa bagagem e fomos para trás. A viagem foi normal até o momento em que entramos na reserva, quando o motorista começou a fazer algumas barbeiragens. Eu estava do lado da janela direita e, por várias vezes, ao passar rente à mata, alguns galhos entraram pelo vidro e quase me acertaram. Como a estrada era muito ruim, o carro pulava bastante. Eu, por ser o mais jovem, não estava bem posicionado e caía demais para os lados. Minha mãe começou a ficar nervosa, não sei se comigo ou com o motorista, mas ela gritou para eu sentar direito, segurar firme, coisas de mãe. Mas não dava. Eu estava fazendo o possível para me equilibrar. A viagem tornou-se absolutamente desagradável e estressante. Por várias vezes &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; bateu no vidro e falou para o motorista ir devagar e até se ofereceu para dirigir. Nós também pedimos para ele assumir o volante, mas o condutor não permitiu. Eu já estava ficando irritado, principalmente porque tudo acontecia comigo. Até que o motorista foi desviar de um buraco, acabou entrando em outro e, para sair, deu uma ré inconseqüente. Nesse momento, um grosso galho de árvore quase atravessou o vidro e acertou a minha cabeça, escapei por questão de milímetros. Para piorar, o carro quase caiu num pequeno declive à margem da estrada, também do meu lado. Para mim foi o limite. Perguntei se estávamos perto da aldeia, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; respondeu que faltavam uns 8 km.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ótimo! Vou a pé. - respondi e desci do carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/estrada.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, que não fala português, levantou-se imediatamente e também saiu. Todos os outros fizeram o mesmo: &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt;, Clarinha e minha mãe. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; avisou o motorista que não estávamos bem e que iríamos caminhando. O carro seguiu e fomos andando aliviados, levando conosco somente água e bolsas leves.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/caminho.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Após mais de uma hora de caminhada, bem próximo da aldeia, um movimento intenso de índios, principalmente jovens e crianças, chamou nossa atenção. Ao nos aproximarmos, vimos o carro parado no meio da estrada. Nem quisemos saber o que havia acontecido, seguimos até a aldeia Pimentel Barbosa para &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; providenciar carona, pois ainda tínhamos mais 12 km até a &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;. Depois de uns quinze minutos um outro índio apareceu com o mesmo carro e nos levou até a aldeia do &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;. Mais uma vez, fiquei no pior lugar, mas agora dei um jeito de me segurar. Fiquei na parte mais extrema do carro, de costas para todos e deitado na direção da janela traseira. Conforme o veículo avançava pela reserva, tive algumas sensações estranhas. Fiquei um pouco tonto e parecia que a minha vista estava um pouco desfocada. Eu não conseguia ver claramente a mata que ficava para trás, pois estava tudo levemente embaçado. Mas o importante é que chegamos e bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao entrarmos na aldeia &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt; fomos recebidos com grande festa, especialmente &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, que estava fora há alguns dias. Por ser minha segunda visita, cumprimentei todos com um pouco mais de intimidade. Ao observar a aldeia notei uma oca nova. Na verdade, apenas o esqueleto. Essa, depois de concluída, seria de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;. Enquanto isso, ele e sua família ficavam na casa de seu pai, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, e era lá que eu e minha mãe também dormiríamos. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183278705201214?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183278705201214/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183278705201214' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183278705201214'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183278705201214'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/o-quase-acidente-fui-para-cama.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183262909330387</id><published>2006-10-25T20:15:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T17:07:24.870-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;WA´RÃ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez, eles fizeram um grande &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; (aquela reunião diária do conselho tradicional) ao anoitecer. O fogo foi aceso no centro do pátio e, aos poucos, os homens chegaram trazendo esteiras, cadeiras e banquinhos. Sentados ou deitados em volta da fogueira, alguns aproveitaram para se aquecer, pois nessa época do ano a noite é muito fria. A sensação de participar de um &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; é muito forte. Começando pelos aspectos físicos, como a fogueira no centro, a total escuridão em volta (a não ser em noite de lua cheia), o céu deslumbrantemente estrelado e o silêncio, só interrompido pelas fortes e incisivas vozes xavantes e pelos sons vindos do Cerrado. Outro fator marcante é saber que naquele contexto, há séculos, são tomadas as principais decisões da história xavante. E eu estava ali, pela primeira vez, sentado numa esteira e ouvindo atentamente cada discurso, sem entender nenhuma palavra, exceto quando &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; fazia a tradução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/fogueira3.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; iniciou a sua oratória dando-nos as boas-vindas, falando sobre o livro e relatando o ocorrido nos dias em que esteve fora da aldeia. Outras pessoas também falaram e discutiram bastante. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, entre outros assuntos, abordou a viagem desagradável que tivemos e, num certo momento, parou de falar. Seu semblante mudou, ficou sério, e ele falou algo em xavante. Imediatamente, dois jovens levantaram-se da roda e dispararam a correr até a divisa do pátio com o Cerrado, posicionando a cabeça lateralmente, como se quisessem ouvir algo. Todos ficaram em silêncio, atentos ao som. Eles retornaram e comentaram com &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, em xavante. Por alguns minutos, os índios trocaram algumas palavras. Fiquei observando em silêncio sem nada entender. Quando terminaram, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; explicou em português que haviam escutado o uivo de um lobo-guará.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/fogueira.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183262909330387?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183262909330387/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183262909330387' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183262909330387'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183262909330387'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/war-desta-vez-eles-fizeram-um-grande.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183251497113152</id><published>2006-10-25T20:14:00.000-07:00</published><updated>2006-10-25T20:15:14.973-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;O SINAL DO LOBO-GUARÁ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cultura xavante, sempre que escutam o uivo do lobo, é sinal de que houve ou haverá alguma morte na aldeia ou na reserva. Como não poderia ser diferente, eles ficaram assustados. O &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; prosseguiu por mais cinco minutos, no máximo, e foi encerrado. Todos recolheram seus pertences, deixaram o fogo aceso e foram para as ocas. A pressa em dormir tem uma explicação. É através do sonho que eles podem receber mais informações dos espíritos. Eu fui para a rede e tentei pegar no sono, mas demorei, pois também estava preocupado. Um pouco antes, ao comentar o fato com a minha mãe, ficamos chateados com o que havia acontecido, pois na aldeia moravam algumas pessoas com idade bastante avançada e não gostaríamos que acontecesse nada com ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, acordei cedo e vi um movimento intenso na oca. Na cama de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, além dele, estavam &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; (tio de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; e irmão de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;). Eles não paravam de confabular. Segui até o rio para os meus afazeres matinais. No caminho, ao encontrar minha mãe, soube que o &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; e os tios queriam conversar com a gente. Fiquei um pouco preocupado e acelerei. Quando retornei à oca, juntei-me ao grupo e ouvi atentamente o que &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; tinha a dizer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183251497113152?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183251497113152/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183251497113152' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183251497113152'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183251497113152'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/o-sinal-do-lobo-guar-na-cultura.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183243450088392</id><published>2006-10-25T20:11:00.000-07:00</published><updated>2006-11-05T13:35:02.133-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;MORTE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabe o que é, Pablo e Ana Maria, ontem à noite, realmente ouvimos o som do lobo-guará, que não é bom. Sempre que a gente ouve, é certeza de que algo ruim vai acontecer. Essa noite &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; sonhou com o meu avô, o &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, e um irmão espiritual dele, o &lt;em&gt;Sereniwa&lt;/em&gt;, que é o espírito que habita o Monte Ararat, aquele na frente da casa de vocês, em Serra Dourada. E eles avisaram que ia acontecer com o Pablo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/ararat2.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Eu e minha mãe travamos, nos entreolhamos assustados, e continuamos a ouvir a explicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Segundo eles, aquilo que aconteceu à tarde, no carro, foi realmente um acidente. O Pablo veio essa vez para o Mato Grosso para ficar com a mãe e se despedir, pois ele veio para morrer.&lt;br /&gt;Confesso que não entendi o que ele estava falando. Como assim morrer? Despedir-me? Que história é essa? &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, com os olhos mareados, continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu pai conversou com esses espíritos e eles falaram que haveria um acidente grave com o nosso carro e o Pablo iria morrer na estrada. Ele veio para cá pra isso. Mas acontece que esse irmão espiritual do meu avô, o &lt;em&gt;Sereniwa&lt;/em&gt;, teve permissão para intervir e te salvou. Por enquanto o que sei é isso, vou continuar conversando com os velhos e depois eu conto mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não cheguei a ficar em estado de choque, mas estava atordoado. Aquela era a história mais absurda, assustadora e impressionante que eu já tinha ouvido. E pior, eu era o protagonista. Se estivesse em São Paulo, não acreditaria. Mas, estando lá, no meio da reserva xavante, dentro da aldeia, conhecendo o pouco que conhecia deles, não tive como não aceitar. Eles não teriam porque inventar, nem mesmo nenhum interesse em fazer algo de mau com a gente. E alguns sinais, pelo menos dentro da cultura deles, faziam sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e minha mãe saímos da oca e fomos dar uma volta para conversar. No começo, como não entendi o que realmente acontecia, fiquei revoltado, achando que queriam me matar por causa do livro. Desde que surgiu o convite, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; e os tios sempre falavam da importância de escrevê-lo, de registrar a história do &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, alguns de seus feitos, mas que isso não seria fácil. Ao mesmo tempo em que havia um grande interesse da família em fazê-lo, havia também as forças contrárias, principalmente espirituais. O &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; e seu pessoal de confiança tiveram muitos inimigos, e eles sempre se confrontaram fisicamente e através de feitiçaria. Assim, eu achava que eram essas forças que poderiam querer me matar. Eu falava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Poxa! Não pedi para escrever o livro, nem para estar aqui! Por que eles queriam me matar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ela tratou de explicar que não era bem assim. Pelo que havia entendido, morrer eu iria de qualquer jeito, na reserva, em São Paulo ou em qualquer lugar. Estava na minha hora. E não era por eu estar fazendo o livro. Ao contrário. Enquanto ela ajudava a clarear a minha cabeça confusa, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; aproximou-se e disse que, em meia hora, faria uma pequena reunião na escola da aldeia para explicar tudo. Ótimo! Vamos ver se desta vez eu entendo - pensei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183243450088392?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183243450088392/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183243450088392' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183243450088392'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183243450088392'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/morte-sabe-o-que-pablo-e-ana-maria.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183230658748851</id><published>2006-10-25T20:10:00.000-07:00</published><updated>2006-10-25T20:11:46.590-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;SERENIWA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase uma hora depois, fui com minha mãe para a escola. Lá estavam &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; e seu filho, Eurico. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; contou novamente a história, detalhou os sonhos e disse que na aldeia nunca havia acontecido algo parecido. Eles estavam tão surpresos quanto nós. Também falou que de fato aconteceria uma morte. Eu o questionei perguntando se não era tudo simbólico, uma morte metafórica, como um encerramento de ciclo, uma passagem ou um amadurecimento. Ele disse que não, que seria morte física mesmo. Depois prosseguiu, falando que o &lt;em&gt;Sereniwa&lt;/em&gt; pôde me salvar e proporcionar-me essa "segunda chance", por conta do caminho que eu havia (provavelmente de maneira inconsciente) escolhido para mim. Eu sei que é uma história absurda, de difícil compreensão, mas estou contando os fatos como aconteceram e com as interpretações feitas pelos xavantes, sob o ponto de vista da tradição deles. Pode parecer um grande devaneio, algo impensável para a nossa cultura, mas foi dessa forma que as coisas se desenrolaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; também explicou porque Eurico estava conosco na escola. Ele era o índio que ganhara a corrida que disputei, na primeira vez em que estive na aldeia (aquele que me deu o "presân"). Eurico, de vinte e poucos anos, havia concluído as etapas de sua formação e acabara de se tornar adulto para a sociedade xavante. Há alguns meses, ele passara por um desafio importante, quando deu apoio espiritual para uma índia de outra aldeia que estava enfrentando problemas com alguns espíritos "maus". Através de vários rituais de cura, ele conseguiu, com a ajuda do mesmo &lt;em&gt;Sereniwa&lt;/em&gt;, controlar a situação. Esse ato foi uma espécie de "batismo" para ele. Pois bem, na cultura xavante, o homem recebe alguns nomes no decorrer da vida, de acordo com cada fase. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, falando o que os espíritos haviam dito nos sonhos, disse para Eurico que chegara o momento de ele receber o novo nome. E disse que também eu, mesmo sendo &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;, receberia um nome xavante. A pedido do espírito que o auxiliou na pajelança e que interveio em meu favor, ambos, a partir daquele momento, receberíamos o nome &lt;em&gt;Sereniwa&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183230658748851?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183230658748851/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183230658748851' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183230658748851'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183230658748851'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/sereniwa-quase-uma-hora-depois-fui-com.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116183219326960609</id><published>2006-10-25T20:08:00.000-07:00</published><updated>2006-10-25T20:09:53.276-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;MEU AVÔ A´UWÊ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, não fora por acaso que nós corremos juntos naquela cerimônia em que o ex-Eurico estava se formando e eu, literalmente, dando os meus primeiros passos em terra xavante. O fato de recebermos o mesmo nome, e ao mesmo tempo, demonstra esse elo especial: o &lt;em&gt;Sereniwa&lt;/em&gt;. Deveríamos, portanto, nos sentir extremamente honrados e fazer jus, durante toda a vida, ao nosso novo nome, pois ele foi o nome de um grande guerreiro xavante. Muito emocionado, demonstrei minha eterna gratidão e prometi honrá-lo para sempre. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; continuou dizendo que, no sonho, o velho &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; mandou um recado importante, que daquele momento em diante, ele me adotara como neto. Seu neto &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. E que eu passara a fazer parte da família dele, tendo na aldeia &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt; mais do que um lugar para ficar, mas pessoas com as quais eu poderia contar e considerar como meus irmãos, irmãs, tios e tias. Só não fiquei mais emocionado do que minha mãe, que não conteve o choro. Aquela gente, que eu conhecera rapidamente havia um ano, agora estava me acolhendo, através de uma determinação do patriarca vinda do sonho. Era muito para mim. Eu estava no meu segundo dia na aldeia e já havia acontecido tanta coisa. E ainda ficaria mais dez dias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116183219326960609?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116183219326960609/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116183219326960609' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183219326960609'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116183219326960609'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/meu-av-auw-segundo-cipass-no-fora-por.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182399690263384</id><published>2006-10-25T17:51:00.000-07:00</published><updated>2006-10-25T17:53:16.903-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 7&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cotidiano na Aldeia&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VIDA CURTA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Naquela tarde minha cabeça continuou a mil. O que eu mais queria era ligar para o meu pai, em São Paulo, conversar com alguém da minha família. Mas não era possível. Telefone só a 80 km. O jeito era falar com a minha mãe, a pessoa mais próxima que poderia me ajudar. Chamei-a e fomos até à beira do rio. Recapitulamos toda aquela loucura, tentamos traçar um quadro mais claro e, no meio do papo, ela contou sobre um fato que ocorreu quando eu era muito pequeno. Ela disse que, certa vez, olhando a minha mão, notou que a linha da vida era curtíssima. Para as pessoas que acreditam nisso (e era o caso dela), motivo para pânico. Ainda mais ela que havia perdido, ainda na barriga, um filho antes de eu nascer. Durante toda a vida a preocupação dela foi grande e só diminuiu quando viu a mão de uma tia, cuja linha era igualmente pequena, e na época já beirava os 70 anos. Também comentamos sobre a preocupação excessiva que a minha irmã, Paloma, demonstrara quando nos despedimos em São Paulo, antes de eu ir para essa segunda viagem. &lt;em&gt;Você volta, né, Pa? Você jura?&lt;/em&gt; Minha mãe disse que, ao falar com a Paloma pelo telefone, nunca a tinha visto tão preocupada comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia que os próximos dias seriam diferentes na aldeia. Na segunda-feira, chegariam duas pessoas de fora, na terça mais quatro e na quinta outra. A maioria trabalhava ou estudava com assuntos ligados ao meio ambiente. Sabendo que &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; ficaria ocupado com os visitantes, aproveitei para conversar pela última vez sobre os recentes acontecimentos e saber qual seria a programação do livro. Ele explicou-me com mais detalhes os sonhos e contou algumas histórias de quando era jovem, que me ajudaram a ficar mais tranqüilo. Os trabalhos do livro, em função do movimento na aldeia, estavam sem previsão para começar. Principalmente porque &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt;, peça-chave, só chegaria na quarta-feira. Com isso, durante a semana tive tempo para digerir melhor a minha chegada e, principalmente, viver o cotidiano da aldeia, aprendendo como era o dia-a-dia deles. Antes de descrever, é importante ressaltar que fiquei em julho, época em que não chove, faz calor de dia, muito frio de madrugada, além de ser férias escolares, o que difere da rotina de outros períodos do ano.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182399690263384?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182399690263384/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182399690263384' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182399690263384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182399690263384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-7-cotidiano-na-aldeia-vida.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182385991580604</id><published>2006-10-25T17:50:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T16:28:05.096-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;BOM DIA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia começa cedo. As pessoas acordam por volta de seis horas da manhã, quando o sol está surgindo na parte de trás da aldeia. Muitas vezes, eles acendem fogueiras perto das ocas para se aquecer. Nós, &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;, acordamos mais tarde, pois normalmente somos os últimos a dormir, já que ficamos conversando do lado de fora enquanto observamos o céu. Eu acordo em torno de nove horas, pois a essa altura a oca já está esquentando e o falatório, tanto dentro quanto fora, é alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/Scan2.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182385991580604?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182385991580604/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182385991580604' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182385991580604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182385991580604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/bom-dia-o-dia-comea-cedo.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182380831831469</id><published>2006-10-25T17:49:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T16:37:29.806-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;CAFÉ DA MANHÃ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o assunto é alimentação, á mais fácil falar da nossa, já que eles não têm bem definida essa divisão de café da manhã, almoço e jantar. Eles só comem quando têm fome e, não sei por quais razões, não têm o hábito de comer à noite. A última refeição é sempre até o final da tarde. Com a gente é diferente. Acostumados a nos alimentar várias vezes por dia, procuramos fazer três refeições. De manhã, comemos pão de forma com manteiga, às vezes uma fruta, bolacha ou algo do tipo. Sempre comida fácil e que possa ser conservada por alguns dias sem geladeira. E, em razão da dificuldade que enfrentam e para não influenciar ainda mais na alimentação deles, evitamos comer no pátio (especialmente na frente das crianças).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/crian%3F%3Fa%20correndo.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182380831831469?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182380831831469/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182380831831469' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182380831831469'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182380831831469'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/caf-da-manh-quando-o-assunto-alimentao.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182372127743100</id><published>2006-10-25T17:46:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T16:34:45.993-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;ÁGUA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso organismo &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; é mais fraco do que o deles para determinadas coisas. Água é uma delas. Como estamos acostumados a beber água potável, é perigoso ingerir por vários dias seguidos a mesma água do rio onde se toma banho, se lava roupa, etc. Por isso, tivemos que encontrar uma solução alternativa. Todo dia, assim que acordávamos, eu e os visitantes mais jovens que estavam na aldeia andávamos para dentro do Cerrado com vários vasilhames e a carinhosamente apelidada "escolta mirim", formada por crianças xavantes. Seguíamos por mais de 1 km pela mata até um ponto próximo à nascente do rio. Lá, fazíamos um certo malabarismo para não mexer muito na água, evitando que a terra do fundo subisse à superfície e enchíamos todas as nossas garrafas térmicas e as cabaças, que eles próprios faziam. Com esse cuidado, tínhamos estoque suficiente de água limpa para um dia inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por só ter ido à aldeia durante as férias, não sei como é a manhã deles em tempos escolares. Mas em julho sei que é uma grande festa. Pelo menos para a criançada. Enquanto as mulheres cumprem suas tarefas diárias (preparam farinha, cuidam da roça, etc.) debaixo de um sol cruel, e os homens idem (caçam, pescam, ajudam na roça, etc.), as crianças não param um segundo. Elas brincam o tempo inteiro, correm pelo pátio, azucrinam os mais novos, depois, quando estão com muito calor, vão para o rio e ficam horas nadando, se dependuram nos cipós, saltam e até pescam. Mais tarde, voltam para o pátio e continuam se divertindo até a hora de comer, quando sossegam um pouco. Nesse horário, que normalmente é por volta do meio-dia, o pátio da aldeia se esvazia. As pessoas, incluindo as crianças, aproveitam para descansar nas poucas sombras que há próximo das ocas ou ficam dentro delas, que são mais frescas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/crian%3F%3Fas%20rio2.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182372127743100?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182372127743100/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182372127743100' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182372127743100'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182372127743100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/gua-nosso-organismo-warazu-mais-fraco.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182353646254124</id><published>2006-10-25T17:44:00.001-07:00</published><updated>2006-11-06T16:42:25.780-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;ALMOÇO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No almoço eles comem derivados de mandioca (que plantam aos montes) e arroz. Aliás, a transformação de mandioca em farinha é um processo bem interessante. É comum ver amarrados na beira do rio, por cerca de uma semana, vários sacos repletos de mandioca. Quando tiram, as mulheres descascam, prensam a mandioca com uma espécie de pilão feito de madeira e deixam durante três dias. Depois, peneiram, colocam num farinheiro de metal erguido sob uma grande fogueira e mexem por um bom tempo para torrar. É um contexto bastante social, já que elas aproveitam para jogar conversa fora e as crianças brincam em torno dos vários farinheiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/mulher%20fazendo%20farinha2.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Nós comemos o que levamos, quase sempre, arroz, feijão e alguma verdura ou o velho e prático macarrão. Desta vez, em relação à primeira viagem, havia uma grande diferença. A oca em que estávamos tinha um fogão. Desde que &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; voltou a morar na aldeia com &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt; e Clarinha, em janeiro daquele ano, ele levou o fogão e uma cama de casal para a oca. Parece estranho, mas para quem morou nos últimos quinze anos na cidade, tornara-se necessário. Assim, tanto o almoço quanto o jantar eram preparados nesse fogão. Mas só o nosso. Nas outras ocas as refeições eram preparadas na cozinha tradicional. Eu, particularmente, preferiria que lá não tivesse nada desses artigos da civilização. O ideal seria que a aldeia estivesse mais "pura" possível. Mas, vendo a realidade e muitas das influências que o contato provocou, fica fácil entender. Apesar de que, numa visão mais egoísta, para nós, &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;, acaba sendo melhor ter essa opção de comida feita no fogão, como estamos acostumados. Sobretudo quando permanecemos vários dias na aldeia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182353646254124?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182353646254124/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182353646254124' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182353646254124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182353646254124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/almoo-no-almoo-eles-comem-derivados-de.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182344322296541</id><published>2006-10-25T17:40:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T16:49:33.750-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;TARDE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O início da tarde é bastante complicado. O calor é tão forte que não dá vontade de fazer nada. Os mais velhos costumam encostar em alguma sombrinha, enquanto as mulheres vão para o rio lavar roupa. Aliás, essa foi a solução que alguns dos visitantes e eu também encontramos para amenizar o calor. Após o almoço, seguíamos para um ponto do rio que não tinha muita gente e lavávamos toda a louça do almoço, sem a menor pressa. Só deixávamos o local quando o calor dava uma trégua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/sombra.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Essa parte do rio que passa na aldeia não é funda, varia de poucos centímetros a um metro, aproximadamente. Parece muito raso, mas depois que se acostuma é perfeito, principalmente para um refrescante e purificador banho. O banho, aliás, é umas das atividades mais prazerosas. Com a baixa temperatura da água e podendo ficar nu ao ar livre, sem ninguém para bisbilhotar ou recriminar, é uma sensação ímpar. Pelo menos era o que eu sentia. Sei que as índias não ficam nuas nem as visitantes. Importante é evitar tomar banho à noite, pois a falta de visão pode ser decisiva num eventual encontro com algum animal. Apesar de que, em todas as vezes que precisei tomar banho mais tarde, não tive problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O final de tarde é o horário de que eu mais gosto. Independentemente de estar na minha casa, em São Paulo; num happy hour com os amigos, em Rio Preto; no Lontra com a Raquel, em Florianópolis; ou na aldeia. Lá, eu aproveitava a ótima luz e o maravilhoso pôr-do-sol para tirar umas fotos, ou então, jogava futebol. Essa segunda opção era uma delícia. Riscávamos na areia, com os pés, uma grande área no centro do pátio delimitando o campo, colocávamos dois chinelos de cada lado para fazer os gols e rolávamos a bola. Fiquei surpreso ao vê-los jogar. Além de correrem muito, eles tinham ótima noção de passe e posicionamento. Só a habilidade para driblar é que deixou um pouco a desejar. Meses depois, lendo um livro sobre futebol brasileiro, descobri que o xavante, futebolisticamente, era uma espécie de Brasil entre as nações tradicionais, já que fora três vezes campeão da modalidade nos Jogos Indígenas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/tarde.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182344322296541?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182344322296541/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182344322296541' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182344322296541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182344322296541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/tarde-o-incio-da-tarde-bastante.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182321059191166</id><published>2006-10-25T17:39:00.000-07:00</published><updated>2006-11-08T03:18:24.756-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;NOITE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que escurecia, jantávamos, sempre dentro daquele cardápio básico, e participávamos do &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt;. Depois, quando todos se recolhiam, permanecíamos do lado de fora, bem agasalhados. Às vezes, esquentávamos um pouco de capuccino em pó para embalar a conversa, já que bebidas alcoólicas, nem pensar. Na hora de dormir, era fundamental cobrir a rede com alguma coberta ou &lt;em&gt;sleep bag&lt;/em&gt; para proteger as costas do frio. E, por cima, pelo menos uma coberta. Não havia nada pior durante a madrugada do que ter vontade de fazer xixi. Deixar a oca para enfrentar o frio era terrível. Quando a necessidade não era tanta, valia mais a pena tentar dormir do que encarar o gelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da segunda-feira, pós-chegada, até a quinta, esse foi o cotidiano que vivi na aldeia &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;. Claro que havia diferenças entre um dia e outro, atividades distintas, mas de maneira geral, essa era a rotina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/Untitled-1.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182321059191166?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182321059191166/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182321059191166' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182321059191166'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182321059191166'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/noite-assim-que-escurecia-jantvamos.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182314182269435</id><published>2006-10-25T17:38:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T16:54:02.923-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;COMUNICAÇÃO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma pergunta freqüente que me fazem é sobre a minha comunicação com eles. De fato, não era fácil. Pouquíssimas pessoas falavam português. Dos aproximadamente cinqüenta moradores da aldeia, apenas com seis, no máximo, era possível trocar algumas palavras no meu idioma. E desses, três com dificuldade. Só com &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt; e Clarinha a comunicação verbal era perfeita. Com o restante, quando não havia tradução, eu usava gestos, apontava para os lados, para os objetos e usava as pouquíssimas expressões em xavante que conhecia. Os nomes, então, eu penava para guardar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/400/Untitled-25.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182314182269435?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182314182269435/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182314182269435' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182314182269435'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182314182269435'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/comunicao-uma-pergunta-freqente-que-me.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182309272984026</id><published>2006-10-25T17:36:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T16:56:19.290-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;NOMES&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A semelhança física entre eles era notável, principalmente porque havia grande quantidade de primos e irmãos. As crianças eram as mais difíceis de identificar. Para falar a verdade, nos primeiros dias eu só sabia com total certeza os nomes dos velhos e de um ou outro adulto, pois eram com os quais eu tinha mais contato. O que ajudava um pouco a memorizar os nomes era a natureza deles. Certa vez, entrei na escola e li alguns num quadro feito em cartolina: Scarpelli, Rolf, Brígida, Rita, Sávio, Leandro... Achei muito estranho (para índios, claro).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/400/Untitled-26.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que acontece é que atualmente o xavante possui dois nomes, o original, na língua deles, e o &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. Esse segundo homenageia alguém de grande estima e é usado para facilitar a interação quando o interlocutor é um não-índio. A preocupação em relação à comunicação com o mundo externo atingiu outras áreas, entre elas a educação. De alguns anos para cá, na &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, e sei que em outras comunidades xavantes, eles aprendem português como uma espécie de segunda língua e a contar os números através do nosso sistema, o decimal. Até pouco tempo, o xavante só usava o sistema binário, aquele em que se conta de duas em duas unidades até o número seis e, de sete em diante, não há mais números, apenas uma quantidade superior ao seis. Nesse sistema, para se referirem a um número um pouco acima de seis, eles usam o termo &lt;em&gt;duré&lt;/em&gt;, que significa "mais", e quando é bem mais do que seis, eles usam a palavra &lt;em&gt;ahädi&lt;/em&gt;, que significa "muito", "grande quantidade".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182309272984026?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182309272984026/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182309272984026' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182309272984026'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182309272984026'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/nomes-semelhana-fsica-entre-eles-era.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182296970178684</id><published>2006-10-25T17:34:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T16:58:31.260-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;ESCOLA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O modelo atual de escola que conheci em &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt; difere das outras escolas xavantes. Pelo que &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt; me contou, ela funciona da seguinte maneira: a escola que há dentro da aldeia é municipal e pertence à estrutura da Secretaria Municipal de Educação de Canarana. É através desse órgão que os professores (todos indígenas) recebem o pagamento, material didático, além de assessoria pedagógica. Até 2001, a escola de &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt; seguia os moldes do MEC, dividindo os alunos por séries, do infantil em diante, e as matérias eram português, xavante, matemática, estudos sociais e ciências. Mas havia dois sérios problemas: a divisão etária xavante é diferente e o material para ensino era de &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. A partir de 2002, houve uma reformulação no ensino e foi mudado totalmente o foco e a maneira de aplicá-lo. Assim, dividiram os alunos pela faixa etária xavante e, ao invés de matérias específicas, passaram a ensinar um conteúdo interdisciplinar, abrangendo todas as matérias curriculares de uma maneira mais compreensível para eles. Desse modo, falando sobre caça, por exemplo, é possível abordar conceitos de estudos sociais, matemática e ciências ao mesmo tempo. Isso, aliado ao ensinamento que recebem sobre o mundo exterior, procura cumprir um objetivo social de formar cidadãos &lt;em&gt;a'uwê up’tabi&lt;/em&gt;, com visão de futuro, pensando na autonomia do povo xavante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/400/crian%3F%3Fas%20roda.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182296970178684?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182296970178684/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182296970178684' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182296970178684'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182296970178684'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/escola-o-modelo-atual-de-escola-que.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182286332764548</id><published>2006-10-25T17:32:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T17:01:14.196-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;BICHO-DE-PÉ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das poucas palavras em xavante que eu conhecia, a que eu mais gostava era &lt;em&gt;wasté&lt;/em&gt;, utilizada para espantar os cachorros. Eu tinha uma certa aflição dos cães e, ao se aproximarem, eu já proferia um &lt;em&gt;wasté&lt;/em&gt; para eles. Mas, ao contrário do que parece, não era frescura minha. Como bons hospedeiros de bicho-de-pé (&lt;em&gt;Tunga penetrans&lt;/em&gt;), um tipo de pulga, os cachorros viviam passeando pela aldeia distribuindo os malditos &lt;em&gt;Tunga penetrans&lt;/em&gt;. Eu, é claro, colecionei alguns. A primeira vez foi até engraçada. Sentindo uma coceira estranha no dedo indicador direito, perto da unha, olhei e vi um pequeno inchaço vermelho com um milimétrico pontinho escuro no meio. Tinha a certeza de que não era pernilongo nem mutuca, comuns na aldeia. Quando mostrei para o &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, ele falou o que era e pediu para uma criança que estava perto chamar uma tal de Rita. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; disse que ela cuidaria e foi embora. Pensei: "Ótimo, tá vindo a especialista da aldeia". De repente, a criança que foi chamá-la apareceu com mais duas, sendo que uma, de seis anos (no máximo), estava com uma agulha imunda na mão. Quando se aproximou, era o que eu temia - ela era Rita. Com a calma de uma enfermeira com 6 anos de experiência (e não de vida), Ritinha, sem desinfetar a agulha, perfurou lentamente o meu dedo e foi raspando-o até cercar por completo o "bichinho". Depois de alguns segundos, ela o retirou e exibiu na ponta da agulha, com a maior naturalidade do mundo. Em seguida, matou o &lt;em&gt;Tunga penetrans&lt;/em&gt; quebrando-o ao meio com a unha, enquanto eu limpava um pouquinho de sangue na minha bermuda. Foi incrível. Na aldeia, quase todas as mulheres mais velhas e a maioria das crianças são peritas no assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/Untitled-23.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Mas o número de pessoas, especialmente crianças, que sofriam diariamente com o bicho-de-pé era grande. Às vezes, eu ouvia choros desesperados de crianças. No começo achava que tinham se ferido gravemente, mas depois me acostumei aos berros e já sabia que era mais uma sessão de agulha. Como os cachorros eram os principais hospedeiros e a maioria era subnutrida, foi feito um trabalho para apurar quantos cachorros viviam na &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt; e a condição física de cada um, para avaliar quais ainda eram úteis (como os que ajudavam nas caças). O restante foi sacrificado. Com a medida, o índice de bicho-de-pé caiu consideravelmente nos meses seguintes e eu sou prova disso: o meu placar foi seis bichos-de-pé nessa segunda viagem contra apenas um na terceira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182286332764548?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182286332764548/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182286332764548' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182286332764548'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182286332764548'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/bicho-de-p-das-poucas-palavras-em.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182272842050498</id><published>2006-10-25T17:31:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T17:04:22.496-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;NOME XAVANTE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa semana, também aconteceu outro fato curioso. Enquanto tentava comunicar-me através de gestos e brincadeiras, notei que algumas pessoas, ainda em número reduzido, chamavam-me de &lt;em&gt;Sereniwa&lt;/em&gt;. Achei estranho, pensava que ninguém soubesse do ocorrido, além dos que estiveram naquela reunião na escola. Mas descobri que a mulher xavante tem um papel muito mais ativo e importante do que parecia. Além de todo o trabalho diário que vemos elas fazerem, as &lt;em&gt;piõ&lt;/em&gt;, como são chamadas em xavante, também são importantes confidentes e conselheiras dos maridos, além de mantenedoras de segredos seculares. Por isso, já no dia seguinte e mais acentuadamente nos posteriores, as mulheres passaram a chamar-me pelo meu nome xavante e, por tabela, as crianças também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/crian%3F%3Fas3.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182272842050498?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182272842050498/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182272842050498' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182272842050498'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182272842050498'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/nome-xavante-nessa-semana-tambm.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182266995372156</id><published>2006-10-25T17:27:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T17:10:22.736-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 8&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ao Trabalho&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LEISHMANIOSE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de a semana ter sido boa, pelo menos sem grandes questões filosóficas e espirituais para compreender, um problema nos acompanhou durante todos os dias: a leishmaniose da minha mãe. Quando deixamos Serra Dourada, no sábado anterior, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; havia pego as raízes e estava aplicando na perna dela. Na aldeia, ele extraiu mais raízes e continuou o tratamento. Acontece que a minha mãe não colaborou como deveria e, ao invés de repousar, continuou fazendo as atividades diárias debaixo de um sol insano. Com isso, as feridas multiplicaram-se pela perna direita causando-lhe um quadro febril seguido de ameaça de desmaio. A essa altura os visitantes já haviam chegado e estavam preocupados, a ponto de se oferecerem para levá-la até o hospital em Água Boa. Ela recusou, o máximo que aceitou foi uma carona até o posto médico da aldeia Pimentel Barbosa, onde recebeu uma injeção de antibiótico. Esse posto, mantido pela Funasa (Fundação Nacional da Saúde), tem remédios e equipamentos comuns a uma enfermaria &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;, e há sempre um enfermeiro de plantão, que dorme numa casa vizinha, pertencente à Funai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/leish.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;A aventura de se curar na aldeia começou a me preocupar. Na verdade, preocupava a todos. Ainda mais porque algumas pessoas já haviam contraído a leishmaniose e sabiam da gravidade do problema. Uma delas foi Narazé, filha de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; e irmã de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;. Ela havia adoecido um ano antes e foi curada pela irmã de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, Débora, a anciã que possuía grande parte dos segredos medicinais da família. Mas, infelizmente, Débora falecera há pouquíssimo tempo e nada poderia fazer (pelo menos não neste plano). Vendo a angústia da minha mãe e com a forte lembrança da tia, Narazé intuiu que deveria assumir o tratamento como forma de honrar o que Débora havia feito por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cultura xavante, a conexão com os espíritos dos ancestrais e outros mestres, como eles chamam, é muito forte, tanto através dos sonhos, como por intuição ou formas das quais não faço idéia. No caso da cura, a pessoa que assume o compromisso conta com essas forças que aconselham, indicam como deve proceder, quais são as ervas e raízes necessárias, onde estão, etc. Por isso, eles consideram a cura um ato sagrado e de extrema responsabilidade. A entrega chega a tal ponto que, se necessário, a pessoa responsável deixa de lado a própria família, além de ficar proibida de manter relações sexuais durante os dias em que está envolvida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso, Narazé assumiu o tratamento. Primeiro ela pegou uma lâmina de barbear e, sem desinfetar, raspou todas as feridas, cortando-as a fundo. A dor era tanta que minha mãe nem conseguia chorar, só lacrimejava. Depois, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; ferveu as raízes que acabara de pegar e Narazé aplicou-as diretamente na perna. No final, ela amarrou uma bandana como se fosse curativo, para proteger as feridas. Narazé fazia isso três vezes ao dia, todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As feridas pararam de se multiplicar, mas não cederam. Na quarta-feira, contra a vontade da maioria mas com a permissão dos velhos, minha mãe acompanhou o grupo que foi buscar &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; na aldeia Caçula. Eles passaram o dia inteiro fora. Durante a viagem, &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; examinou a perna dela e fez uma reza especial seguida por uma bênção. No final da tarde, ao chegarem na &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, os velhos reuniram-se para discutir, entre outros assuntos, os rumos do tratamento. Assim que terminaram, &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; entrou no Cerrado e trouxe novas raízes. O procedimento foi o mesmo. Narazé fazia a limpeza e a aplicação, enquanto eles preparavam e ferviam as raízes, que, desta vez, se transformavam em algo parecido com carvão em pó, bem escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois dias depois, na sexta-feira, as feridas, que haviam parado de crescer, pela primeira vez regrediram. As dores diminuíram consideravelmente. Os cuidados, aplicações de raízes e trocas de curativos continuaram até o último dia em que estivemos na aldeia, na quarta-feira seguinte. Mas todo aquele contexto da leishmaniose tinha um outro significado que eles só nos revelariam mais tarde.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182266995372156?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182266995372156/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182266995372156' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182266995372156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182266995372156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-8-ao-trabalho-leishmaniose.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182227651126932</id><published>2006-10-25T17:23:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T17:12:10.746-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;WA´RÃ DE SIBUPÁ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num dos &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; que fizemos, provavelmente o de quinta-feira, vimos algo fantástico. A roda estava grande, com vários visitantes e muitos índios, em função da presença de &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt;. Alguns falavam, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; traduzia, até que &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; iniciou um de seus discursos. Ele estava no meio da roda, falando junto ao fogo. Num certo momento, ele se afastou do centro, saiu alguns poucos metros e virou-se para o Cerrado. Como eu não entendia o que ele estava falando, achei que estivesse referindo-se ao Cerrado. De repente, ele aumentou a entonação e passou a gesticular bravamente com os braços. Ao mesmo tempo, uma ensurdecedora barulheira começou a vir de dentro da mata, como se os animais estivessem emitindo seus sons e se mexendo. Um dos visitantes e eu nos entreolhamos espantados, sem entender absolutamente nada. No final, &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; parou de falar, virou-se para o &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; e voltou para o centro da roda, concluindo o seu discurso. Quando terminou, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; traduziu o que ele havia dito e, sobre o ocorrido, comentou rapidamente, como se fosse algo bastante corriqueiro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/fogueira2.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, aquela hora que Tio &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; saiu da roda e a gente ouviu aqueles barulhos, é que ele estava conversando com alguns espíritos do Cerrado. Eles falaram que estão muito contentes com a presença de todos...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182227651126932?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182227651126932/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182227651126932' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182227651126932'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182227651126932'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/war-de-sibup-num-dos-war-que-fizemos.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182218560174296</id><published>2006-10-25T17:19:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T17:14:46.570-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;ABERTURA DOS TRABALHOS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando para a sexta-feira, ela estava perfeita. Além da leishmaniose sob controle, começaríamos os trabalhos do livro. Encontrei &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; na porta da oca e ele disse que iria me pintar para a reunião. Com uma mistura avermelhada de massa de urucum na mão, ele molhou os dedos com um pouco de saliva, passou sobre o urucum e esfregou na minha testa, até ficar inteira vermelha. Depois, amarrou no meu pescoço a gravatinha xavante e seguimos para a escola. Aos poucos foram chegando alguns velhos, que estavam do mesmo jeito, com a testa e um pouco do cabelo pintados e a gravata. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; explicou-me que era uma caracterização formal para aquele tipo de trabalho, que nos daria proteção e inspiração. Minha mãe e dois visitantes puderam ficar na escola e acompanhar as conversas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/trabalho.jpg" border="0" /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;Cipassé&lt;/em&gt; apontou para uma esteira que estava isolada na parte oposta à entrada da oca. Sentei nela e aguardei. Na minha frente não havia ninguém, mas nas diagonais, virados na minha direção, estavam &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Wamarinhamre&lt;/em&gt; (Maurício), filhos de &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; com a índia &lt;em&gt;Rewa'iõ&lt;/em&gt;, e &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt;, filho dele com outra índia, &lt;em&gt;Rots'tsamra&lt;/em&gt;. Dos quatro, apenas &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt;, o mais velho dos filhos vivos, não morava na &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;. E dos outros três, Maurício era o caçula e &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; o mais velho. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; também estava junto, era ele quem coordenaria todo o trabalho e faria as traduções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De maneira extremamente ritualística, eles abriram a reunião fazendo as considerações iniciais. Quem começou foi &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt;. Ele levantou-se de sua esteira, pegou uma borduna (espécie de bastão de madeira, pesado, usado para caçar e guerrear) que estava com &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; e posicionou-se na minha frente. Falando diretamente para mim, ele fez um longo discurso de aproximadamente trinta minutos. Eu não entendi uma palavra, mas estava hipnotizado. A maneira como ele falava e gesticulava era muito intensa. De um modo geral, isso é característico do xavante, que possui uma entonação forte e a acompanha com gestos. Quando acabou, &lt;em&gt;Sibupá &lt;/em&gt;passou a borduna para &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, que levantou e fez a tradução. Em seguida, ele entregou a borduna para &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, que repetiu os passos do irmão. &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; e Maurício fizeram o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos mais de três horas na oca. Eles não falaram especificamente sobre o conteúdo do livro, mas abordaram alguns assuntos que balizariam o trabalho. De uma maneira bem resumida, foi dito que o &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; havia sido uma das pessoas mais importantes da história xavante, assim como é a família deles, a mais antiga e tradicional desse povo. Também falaram do momento atual, como o xavante está enfraquecido, atravessando uma crise de identidade e, mais do que nunca, que é hora de resgatar as tradições e culturas para que ele volte a viver como &lt;em&gt;a'uwê uptabi&lt;/em&gt; - o povo verdadeiro - como eles se autodenominam. Sobre a minha mãe, citaram o fato de ela ter optado por se curar na aldeia como muito importante, pois ajudou a devolver um pouco da confiança que eles tinham na medicina xavante. E, especificamente para mim, disseram que não seria fácil fazer o livro, que muitos problemas poderiam surgir, mas que o mais importante era eu não ter medo, pois o &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; estaria sempre me protegendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao final da reunião, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; avisou que na manhã seguinte, bem cedo, iríamos nos reunir novamente na escola para começar a colher o material sobre o &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;. Até então, eu não sabia como seria o processo. Se eu faria entrevistas individuais, coletivas, se, ao contrário de entrevistas, eles falariam e eu anotaria o que queriam dizer. Eu não sabia de nada. Mas, pela primeira vez, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; deixou claro que nos reuniríamos na escola e eu faria as perguntas que achasse necessárias para os velhos. Ele traduziria, ouviria as respostas e depois traduziria de volta para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu saí da escola em estado de graça. Além da seriedade que eles demonstraram em relação ao trabalho, percebi que estavam muito animados e ansiosos para começar a falar sobre o pai. Seria uma experiência fantástica não só para mim, mas também para eles, pois jamais fizeram um exercício desse tipo, de levantarem a história através das recordações. Vendo essa oportunidade única, me dei conta da responsabilidade que eu teria nesse processo, pois, como eu faria as perguntas, precisaria conduzir os assuntos da melhor maneira possível.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182218560174296?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182218560174296/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182218560174296' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182218560174296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182218560174296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/abertura-dos-trabalhos-voltando-para.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182196389043968</id><published>2006-10-25T17:18:00.000-07:00</published><updated>2006-10-25T17:26:36.070-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;PAUTA 70&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, após mais um &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt;, fiquei do lado de fora, como de costume. Todos foram dormir e aproveitei para fazer minha pequena pauta para o dia seguinte. Esquentei um capuccino, levei meu caderninho de anotações para o pátio e acendi uma vela para iluminar o papel. Sentado numa esteira, comecei a pensar em qual seria a melhor maneira de conduzir as entrevistas. Eu sabia de algumas passagens marcantes da vida do &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, achava ter uma idéia de como seria o livro, mas não tinha nada claro. Imaginei, então, que deveria elaborar perguntas de forma cronológica, desde o dia em que ele nasceu, norteando-me pelas passagens que eu já conhecia. Comecei a escrever nessa seqüência e, após uns quarenta minutos, vi que tinha exatamente setenta perguntas. Achei um número razoável, especialmente porque teríamos a manhã e a tarde inteiras do dia seguinte, sábado e o mesmo no domingo. Depois, se fosse necessário, usaríamos mais alguns dias. Recolhi a esteira e fui dormir tranqüilo, com a certeza de que tudo estava muito bem encaminhado e que no dia seguinte seria apenas o famoso "mãos à obra". Ledo engano!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182196389043968?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182196389043968/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182196389043968' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182196389043968'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182196389043968'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/pauta-70-noite-aps-mais-um-war-fiquei.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182189796351909</id><published>2006-10-25T17:12:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T17:25:34.420-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;SONHO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio da noite, tive um sonho ruim. Sonhei que muitos seres em forma de silhuetas escuras estavam cercando a nossa oca, pelo alto, querendo nos pegar. Eles tentavam entrar, mas não conseguiam. Era desesperador. Eu acordei assustado e com uma forte dor na barriga. Olhei para os lados, vi que estava tudo bem, mas a minha barriga incomodava. Fiz o possível para voltar a dormir e consegui. Pouco tempo depois, novamente tive o mesmo pesadelo, só que desta vez ouvindo barulhos que vinham da mata. Tudo no sonho. Mas as dores na barriga eram reais e acordei de novo. Na oca, todos dormiam normalmente e eu tentei fazer o mesmo, apesar da forte dor. Voltei a dormir e não tive mais pesadelo até o dia seguinte, mas quando acordei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/invas%3F%3Fo.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;A minha cabeça, especialmente a nuca, doía muito. Parecia que pesava uns 100 quilos. A dor na barriga também estava muito forte e eu não tinha forças nem para levantar da rede. Parecia a pior de todas as ressacas da minha vida. Mal conseguindo falar, pedi para chamarem minha mãe, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt;, alguém que falasse português. Minha mãe e &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; estavam na porta da oca, ouviram e entraram. Falei como me sentia, que não tinha força para sair da rede e que havia tido pesadelo. Ela me trouxe um copo d´água e pôs a mão na minha testa para ver se eu estava com febre. Não estava. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, vendo o meu estado, ajudou-me a levantar da rede e ir até a cama dele, a alguns metros, para eu deitar. Como era cama de casal e fazia vários dias que eu dormia na rede, seria bom repousar o corpo sobre um colchão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei um tempo deitado, enquanto minha mãe e &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt; faziam uma harmonização. Quando consegui contar o sonho para eles, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; ouviu e saiu apressado da oca. Depois de um tempo, tive uma pequena melhora e consegui caminhar alguns passos, mas foi o máximo. Voltei para a cama bastante fraco e dormi aproximadamente uma hora. Ao acordar, vi que havia um certo reboliço dentro da oca. Na cama de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, do meu lado direito, ele conversava com &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que acordei, relatei para &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; como eu estava e ele traduziu para os velhos. &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; aproximou-se de mim, pediu para eu ficar sentado na cama, colocou a mão na minha cabeça e fez uma espécie de oração, falando bem baixinho. Em seguida, tomei um pouco de água e foi a vez de &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; se aproximar. Ele pediu para eu deitar de barriga para cima e começou a mexer nela, fazendo uma espécie de massagem. A dor era insuportável. Ao terminar, disse que ia buscar alguns "remédios" para eu tomar. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, que estava conversando com seu pai, sentou-se próximo da cama e contou uma pequena historinha sobre a última noite:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pablo, Tio &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; teve um sonho muito parecido com o seu. Ele sonhou que uns espíritos maus estavam tentando atacar a aldeia. Mas eles não chegaram tão perto, como você sonhou, porque &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; assim que os viu fez uma grande proteção em volta da aldeia, e eles não conseguiram entrar. Mas é curioso você ter sonhado praticamente a mesma coisa. Os velhos falaram que é normal você ficar assim, mas não é para se preocupar, porque eles vão cuidar de você. Fique tranqüilo e descanse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto! Mais uma vez eu me via num enredo cinematográfico. Surreal. Os sonhos e suas interpretações estavam de volta e eu me sentia péssimo. Perguntei se tinha alguma coisa a ver com o livro ou com a história da morte, mas &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; desconversou. Ele preferiu atribuir à friagem que faz de madrugada, que é mais intensa em quem dorme suspenso na rede. Gostei da explicação e evitei fazer associações transcendentais. Enquanto a gente conversava, &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; apareceu na oca com algumas ervas e as ferveu. Ele preparou uma espécie de chá para eu beber. O gosto até que não era ruim. Mas qualquer líquido que descia para o meu organismo parecia uma bomba. Quando terminei, &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; voltou a mexer na minha barriga. Ele, através de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, disse que eu estava com a barriga bastante congestionada e que o chá ajudaria a limpar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante todo o dia, entre idas e vindas ao "banheiro", fiquei deitado recebendo "visitas" de &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt;, que me ajudavam. A situação me lembrou a primeira vez que estive em Água Boa, quando fui vítima de uma disenteria também surgida durante a noite, decorrente de um sonho estranho. No final da tarde me senti um pouco melhor, minha pele já não estava tão pálida e as dores, tanto de cabeça quanto de barriga, diminuíram. Um pouco mais disposto, fui até o rio. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; foi junto e falou que &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; havia preparado uma mistura com ervas para eu tomar banho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois apareceram com uma panela. De dentro, &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; tirou algumas plantas verdes, bastante cheirosas, e começou a esfregar com muita força nas minhas costas. Ele fez isso no meu corpo inteiro. Às vezes doía muito, pois chegava a irritar a pele, mas não tinha problema. Eu confiava neles. Depois do banho de ervas, fiquei um tempinho deitado no rio, embaixo d’água, para ver se melhorava a disposição. Deu certo. Coloquei calça comprida e casaco para não tomar friagem e consegui sentar no pátio. Pela primeira vez no dia tive vontade de comer algo e tomei uma sopa, acompanhada de mais chá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando voltei para a oca, &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; amarrou uma cordinha branca com alguns pozinhos "mágicos" - como eles dizem - em cada pulso e em cada tornozelo, para proteger-me. Ele também amarrou outra cordinha fina no meu pescoço, como se fosse um colar, para eu não ter mais "sonho ruim".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/g4.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;À noite, mais cedo do que de costume, falei que ia dormir e fui em direção à rede. Mas eles disseram que eu dormiria em outro lugar, na cama de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, pois era mais seguro. Fernanda, sua mulher, estava na aldeia Pimentel Barbosa, e era no lugar dela que &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; dormia. A cama era grande, pois, além dos dois, dormiam nela dois netos pequenos de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;. Felizmente, não houve problema de espaço. Como eu havia dito num dos capítulos iniciais, ela era muito confortável. Um pouco sem graça, agradeci e deitei num dos extremos. Sabendo que eu me mexo bastante durante a noite, puxei minhas cobertas e procurei ficar o mais quieto possível, pois não queria em hipótese alguma atrapalhar o sono deles. Fiquei no canto, fechei os olhos e só acordei no dia seguinte, totalmente recuperado, como se nada tivesse acontecido no dia anterior.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182189796351909?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182189796351909/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182189796351909' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182189796351909'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182189796351909'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/sonho-no-meio-da-noite-tive-um-sonho.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116182145017541837</id><published>2006-10-25T17:05:00.000-07:00</published><updated>2006-10-25T17:10:50.206-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;AS DUAS FATÍDICAS PRIMEIRAS PERGUNTAS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após ter perdido o sábado inteiro, domingo acordei ótimo, pronto para retomar o livro. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; havia dito que se eu acordasse bem, iríamos trabalhar logo cedo. E foi o que aconteceu. Com a testa pintada, gravatinha xavante no pescoço, bloco de anotações e gravador na mão, fui para a escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora a distribuição no ambiente estava diferente. Eles esticaram três esteiras na parte oposta à entrada da oca e lá sentaram os quatro irmãos: &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; e Maurício. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; estava numa esteira ao lado e eu me sentei de frente para eles. Ao ver os quatro velhos juntos e sabendo da força espiritual que tinham e o que eles me contariam nos próximos dias, apelidei-os carinhosamente de G4 - o poderoso Grupo dos 4. Minha mãe e Clarinha puderam entrar e acompanharam a reunião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu fiz as duas primeiras perguntas, foi absolutamente desesperador. Por alguns segundos achei que seria impossível e que tudo iria por água abaixo. Seguindo a minha pauta, fiz as perguntas 1 e 2, que eram, respectivamente, quando e onde o &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; nasceu? &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; formulou a questão em xavante e sentou-se. Os quatro começaram a conversar entre eles e, simplesmente, não paravam. Eles ficaram aproximadamente meia-hora discutindo em xavante, e eu, sem entender nada, fiquei atônito ao ver o que duas simples perguntinhas haviam causado. Quando terminaram, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; levantou-se e perguntou para mim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual foi a pergunta mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Profundamente desanimado, repeti. E ele respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, ele nasceu em outubro, acho que foi outubro. Deixa eu confirmar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após confirmar com o G4, falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi em outubro, com certeza, mas quando ninguém sabe. Antigamente não se contava o ano e são poucos os velhos que sabem exatamente o ano em que nasceram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendo que seria uma tarefa muito mais difícil do que imaginava, pedi um minutinho para mim. Olhei para as setenta questões, vi o tempo que demorou, sabia que eles não tinham a menor idéia de data e tive de fazer uma rápida reformulação nos planos. Ao invés de pergunta a pergunta, a solução seria aglutinar as questões por períodos, temas ou algo do tipo, construir um raciocínio bastante simples para amarrá-las e colocar para eles se lembrarem, penarem e discutirem em cima. Depois, era torcer para que viesse o maior número de informações possível. Elaborei a próxima "pergunta-raciocínio" e saí da oca para conversar com a minha mãe enquanto eles discutiam. Ela também estava preocupada, mas disse que essa seria a melhor forma. Na volta, vi que aquele esquema deu certo. Apesar do longo tempo para a resposta, eles puderam divagar bastante sobre os temas e passar as informações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim foi durante todos os dias das entrevistas. O que pude perceber observando e conversando, principalmente com a &lt;em&gt;Severiá&lt;/em&gt;, que é professora, é que a maneira deles raciocinarem é diferente da nossa. O pensamento xavante não é linear como o nosso, objetivo, mas cíclico. A sensação é que eles dão diversas voltas em torno do assunto, por isso que falam demais. E o engraçado é que isso acabou ajudando muito, pois eles abordavam um assunto e sem querer caíam em outro, não concluindo nenhum. Mas depois, na medida em que novas questões eram elaboradas, eles retomavam os assuntos anteriores, fechando-os. E essa foi uma dinâmica muito interessante. Tiveram alguns momentos de muita emoção, quando chegaram a chorar. Num deles, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; não conseguiu traduzir pois ficara com a voz embargada. Houve também momentos de tensão, quando ficaram nervosos. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; até chegou a sair da oca e foi tomar ar, de tão revoltado que estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A trajetória e os principais fatos da vida do &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, o meu avô &lt;em&gt;a’uwê&lt;/em&gt;, que conto a seguir, são fundamentados nessas entrevistas e complementados com pesquisas feitas em livros e conversas, pois como toda a transmissão da informação foi feita oralmente, através da memória e das intermináveis discussões entre os quatro filhos e o neto, seria impossível precisar datas e locais com total exatidão. Também é importante ressaltar que essa é uma versão da história a partir do ponto de vista da família deles. Outro detalhe: muitas frases estão entre aspas ou em forma de diálogo como se fossem as próprias pessoas falando. Isso foi possível porque na oratória xavante o discurso direto é muito utilizado e &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; traduziu várias passagens dessa forma. Assim, procurei mantê-las e reproduzi-las, entendendo que o depoimento ficaria mais rico.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116182145017541837?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116182145017541837/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116182145017541837' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182145017541837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116182145017541837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/as-duas-fatdicas-primeiras-perguntas.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174687061772170</id><published>2006-10-24T20:22:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T17:33:16.420-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Capítulo 9&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A História do Meu Avô A’uwê&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INTRODUÇÃO XAVANTE&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Desde quando o xavante está em terras brasileiras, por enquanto, é uma pergunta sem resposta. Mas acredita-se que seja há muitos séculos antes da chegada dos portugueses. A origem deles no Brasil também é incerta. Alguns livros contam que vieram do litoral, mas não precisam exatamente de onde. Nas conversas com os xavantes, eles dizem que seus ancestrais eram da costa maranhense. Com base na tradição oral e na documentação histórica, o provável caminho que percorreram foi no sentido nordeste-sudoeste. Eles teriam deixado o Maranhão, passado pelo atual estado do Tocantins, depois por Goiás, até se estabelecerem definitivamente no Mato Grosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dois primeiros séculos após o descobrimento (1500), houve grande redução da população indígena por conta das guerras e doenças trazidas pelos europeus. O avanço da colonização a partir da costa brasileira deve ter sido o motivo pelo qual o xavante deixou o litoral maranhense e caminhou para a região central do país. O xavante é originalmente um povo nômade, guerreiro, caçador e coletor, e, especialmente essas duas primeiras características (nômade e guerreiro) foram fundamentais para determinar os rumos que ele seguiu nos séculos posteriores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro registro oficial sobre o xavante data de 1751 e o localiza ao leste da Ilha do Bananal e a oeste do rio Tocantins. Mas antes disso, já havia notícias de perseguições aos índios por dois tipos de expedições: as de missionários, que precisavam povoar suas missões, e as de garimpeiros e colonizadores, que os capturavam como mão-de-obra. Com os confrontos, houve muita matança de ambas as partes, e o xavante ficou com uma péssima reputação perante a população e os órgãos oficiais. Tanto que eram comuns expedições "punitivas" financiadas por moradores e outras destacadas pelo governo. Ainda no século XVIII, diversas bandeiras se espalharam por Goiás em busca de ouro. De quebra, aproveitavam para reduzir o número de índios e "pacificá-los". Décadas depois, com o declínio da exploração aurífera, a solução foi partir para novas atividades, como agricultura e pecuária, e a necessidade de adquirir novas terras fez com que aumentassem os conflitos entre &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; e xavante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O período entre, aproximadamente, 1770 e 1840, foi de grande humilhação para o xavante. Junto com outros povos, eles foram aprisionados nos chamados aldeamentos, onde viviam confinados, eram maltratados e obrigados a realizar trabalhos forçados, em troca de sua subsistência. O pior momento foi em 1788, quando se aglomerou a maior população xavante - cerca de 2 mil - no aldeamento Pedro III, conhecido como Carretão. Lá, houve uma epidemia de sarampo que matou mais de cem índios. Porém, nem todos os xavantes estavam presos. Muitos haviam resistido e formaram grupos que, aos poucos, receberam os refugiados dos aldeamentos. Com o tempo, eles se fortaleceram e realizaram diversos ataques ao longo do século, obtendo ainda mais ódio dos brancos, que os viam como "arredios" e "selvagens".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para fugir dos aldeamentos e do contato com o &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;, que sempre resultava em sangue, o povo xavante decidiu cruzar o rio Araguaia em direção ao Rio das Mortes. Reza a tradição que nessa travessia eles foram surpreendidos por um boto. Grande parte dos índios ficou com medo e recuou. Os que seguiram em frente, irritados e envergonhados com os que se assustaram, disseram que a partir daquele momento os que ficaram não seriam mais xavante, e passaram a chamá-los de xerente. Daí a origem da divisão desses dois povos que, segundo essa narrativa, antes eram um só. Mas, há também a hipótese de os dois, apesar de muito parecidos, serem povos distintos que andavam juntos e se separaram naturalmente, por volta de 1844, quando o xerente foi para leste do rio Tocantins e o xavante seguiu para oeste do Araguaia. Independentemente das versões, a certeza é que ambos pertencem ao mesmo tronco familiar - o Macro-Jê - e falam a mesma língua - o &lt;em&gt;akwen&lt;/em&gt; - só que com dialetos diferentes, xavante e xerente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/rio%20das%20mortes.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez na margem esquerda do Araguaia, já no Mato Grosso, o xavante continuou sua peregrinação para o oeste em busca de terras isoladas. Tudo o que ele queria era distância dos &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; (pelo menos era esse o pensamento da maioria dos clãs xavantes). Mas isso não bastava. As guerras contra outras etnias, especialmente Karajá, Kaiapó, Bororo, Apinagé e Tapirapé, motivadas por rixas antigas e pela ocupação de novos territórios eram constantes, assim como os conflitos internos entre membros de linhagens e clãs diferentes, grupos políticos e aldeias rivais. Para piorar, além de grandes guerreiros e caçadores, eles eram feiticeiros e abusavam desse poder. O resultado foi muita luta, morte e rancor, culminando na subdivisão do povo xavante em diversos núcleos que se espalharam ao longo da faixa leste do Mato Grosso, paralela ao rio Araguaia, estendendo-se até a parte central, onde estão alguns afluentes do rio Xingu, como o Culuene, Batovi e Suiá-Missu. O fato de ser um povo orgulhoso e com grande inclinação política contribuiu para agravar o problema, transformando cada aldeia num complexo universo de ideais, interesses e conchavos. Mesmo assim, havia uma dinâmica de relações entre as aldeias que se uniam quando necessário, para guerrear ou por outros motivos, e depois se dividiam. Tudo muito rápido, questão de semanas, meses ou pouquíssimos anos. Em todo esse processo, houve pelo menos um fator positivo: o xavante ter se espalhado e ocupado grande área territorial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de tudo, o xavante ainda viveu um último período de paz antes do contato oficial com o &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. Entre 1895 e 1930, aproximadamente, os não-índios deram uma trégua em suas investidas, já que estavam envolvidos em outras atividades de exploração, e os conflitos internos e as guerras com os outros povos diminuíram. Foi nessa época que nasceu &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, o cacique que, após muita resistência, fez o contato oficial com a "civilização", em 1946, tornando-se um dos xavantes mais influentes entre o seu povo e mais conhecido no meio warazu. E, particularmente para mim, nasceu o índio que cem anos depois, mesmo não mais estando entre os vivos, me adotaria como seu neto e mudaria para sempre a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174687061772170?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174687061772170/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174687061772170' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174687061772170'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174687061772170'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-9-histria-do-meu-av-auw.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174651644467046</id><published>2006-10-24T20:19:00.000-07:00</published><updated>2006-10-25T20:38:42.720-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A´I UTÉPRÉ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era final de tarde na pequena aldeia &lt;em&gt;Abputunhoro&lt;/em&gt; e a índia &lt;em&gt;Retsitsarã&lt;/em&gt;, grávida de seu quinto filho, colhia alguns &lt;em&gt;wedetú&lt;/em&gt; (cará) na mata próxima à aldeia. Acompanhada de outras mulheres, ela sentiu algumas dores e pensou que poderia estar em trabalho de parto. &lt;em&gt;Retsitsarã&lt;/em&gt; parou o que estava fazendo, voltou para a oca e as dores passaram. Horas depois, por volta de meia-noite e meia da madrugada do dia 15 de outubro de 1888, quando todos estavam dormindo, os sintomas voltaram e ela deu à luz ao novo descendente da linhagem mais antiga e tradicional do xavante, a do clã &lt;em&gt;Poredza'ono&lt;/em&gt;. O pai, &lt;em&gt;Tsere'ute&lt;/em&gt;, quando viu seu pequeno &lt;em&gt;a'i utépré&lt;/em&gt; (designação para recém-nascido) o observou fixamente para analisar seu físico. É costume xavante ver a estrutura óssea do filho, se é forte, se não tem nenhum problema, pois o desejo do pai é que seu herdeiro seja, no mínimo, um grande guerreiro. Mas nesse caso ele viu mais. &lt;em&gt;Tsere'ute &lt;/em&gt;sabia que estava diante de alguém especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um dom, o pai xavante sabe, ao olhar o recém-nascido, algumas características futuras do filho. E estas podem ser confirmadas pelos mais velhos da aldeia ou através do sonho pelos mestres e ancestrais. &lt;em&gt;Tsere'ute&lt;/em&gt;, ao perceber que seu filho nascera para ser alguém importante, soube que isso lhe acarretaria grande responsabilidade e que precisava prepará-lo. Por isso, desde muito cedo ele o criou com alguns cuidados extras, dando-lhe banhos de ervas e fazendo-o beber líquidos à base de ervas. O nome escolhido para o filho foi &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; (pássaro semeador, em xavante), que duraria até ele concluir o &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt; - o rito de passagem para a vida adulta, quando &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; receberia um novo nome.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174651644467046?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174651644467046/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174651644467046' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174651644467046'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174651644467046'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/ai-utpr-era-final-de-tarde-na-pequena.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174634857317307</id><published>2006-10-24T20:15:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T20:19:08.576-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;SORIPRÉ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela época o xavante ainda estava se deslocando com alguma freqüência, e os moradores de &lt;em&gt;Abputunhoro&lt;/em&gt; acharam que deveriam seguir o fluxo migratório. Eles deixaram a aldeia e foram para uma nova, ali perto, grande, que não parava de crescer. Com mais de uma centena de ocas, ela localizava-se onde é hoje a cidade de Ribeirão de Cascalheiras, na Serra do Roncador, e chamava-se &lt;em&gt;Soripré&lt;/em&gt; - Serra Vermelha, que é o modo como eles chamam o Roncador. Essa aldeia recebeu populações xavantes de várias partes, incluindo clãs inimigos. Foi um período muito próspero, que durou de 25 a 35 anos. No seu ápice, &lt;em&gt;Soripré&lt;/em&gt; contava com algo em torno de 3 a 4 mil índios. Não por acaso até hoje é conhecida como a "grande aldeia mãe".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em &lt;em&gt;Soripré&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; teve uma infância quase igual a das outras crianças. Ele brincava o dia inteiro, participava das festas, mas era cercado por alguns cuidados especiais. Era comum ouvir sua mãe lhe dar alguns avisos não muito usuais entre as mães xavantes: "Não vá muito longe. Brinque aqui perto. Se for longe, avise, se for para o rio, avise, vá com os tios, com os primos...". E ele sempre obedecia. Conforme foi crescendo, seu pai continuou a preparar ervas para &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; beber e se banhar. Mas agora ele também o ensinava. Claro que &lt;em&gt;Tsere'ute&lt;/em&gt; não passava todos os segredos, mas já o introduzia no assunto. Com 6, 7 anos, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; começara a fazer algo que nenhuma outra criança fazia. Ele acompanhava seu pai nas idas para o Cerrado e lá caçavam e pescavam juntos. &lt;em&gt;Tsere'ute&lt;/em&gt; ensinava-lhe as artimanhas da mata, a maneira certa de procurar um animal, de abatê-lo, quais eram os frutos bons, onde era perigoso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ligação dos dois era forte. &lt;em&gt;Tsere'ute&lt;/em&gt; falava muito com &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, aconselhava e, na medida do possível, revelava quem o filho era: "Olha, não é à toa que nos preocupamos tanto com você, que eu o levo para caçar e pescar. Você vai ter um papel importante quando crescer e com o tempo entenderá." Quando &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; completou 10 anos e estava prestes a entrar no &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;, a Casa dos Solteiros, seu pai não estava bem. Ele sentia fortes dores pelo corpo, havia reduzido os passeios com o filho, até que um dia ele o chamou para conversar. Os dois caminharam até a mata, sentaram-se debaixo de uma árvore e &lt;em&gt;Tsere'ute&lt;/em&gt; falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu filho, um dia todo mundo morre e em breve eu poderei morrer. Caso isso ocorra, eu quero que você continue a ser com o seu padrinho, o &lt;em&gt;Imeuanhõ'Ranaté&lt;/em&gt;, como é comigo. É ele quem cuidará de você. Ele que assumirá o meu lugar. Eu estou ensinando tudo o que posso para você. Sobre as ervas, os remédios, já ensinei a base. Não posso avançar mais. Quem guarda os segredos é a sua mãe e a sua irmã. Quando você se formar no &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt; e se tornar adulto, é com elas que terá de aprender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O meu sonho é vê-lo se tornar &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt;. Se os mestres permitirem, ótimo. Senão, também ficarei feliz, pois sei que terei cumprido o meu papel e tenho certeza de quem você será. Caberá a você resgatar a essência da família e dar seqüência à nossa linhagem. Caso eu não esteja mais aqui quando você entrar no &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;, ouça o seu padrinho, obedeça aos mais velhos, especialmente a ele, e procure fazer a coisa certa, sempre dentro da nossa tradição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tsere'ute&lt;/em&gt; comentou sobre as dores que estava sentindo, mas não falou o que verdadeiramente era. No final, os dois se abraçaram e retornaram para a aldeia. Pouco tempo depois, &lt;em&gt;Tsere'ute&lt;/em&gt; não resistiu à enfermidade e morreu. Muitos, na aldeia, entristeceram-se e os parentes mais próximos, como fazem quando estão de luto, rasparam o cabelo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174634857317307?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174634857317307/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174634857317307' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174634857317307'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174634857317307'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/soripr-naquela-poca-o-xavante-ainda.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174613026549020</id><published>2006-10-24T20:12:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T20:15:30.266-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;HÖ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os 9 e 17 anos, aproximadamente, o menino xavante é chamado de &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt;. Nessa fase, ele entra na Casa dos Solteiros, o &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;, onde permanece por cerca de cinco anos. O &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt; é uma oca que fica dentro da aldeia, mas isolada das demais. Os meninos, quando entram, são separados em grupos por idade. Eles ficam isolados de suas casas e famílias. Raras são as vezes em que podem visitar seus pais. Normalmente, isso só ocorre à noite, em determinados dias, para vê-los e pegar comida. Depois voltam para o &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;. Quem assume a responsabilidade sobre a formação dos meninos são os padrinhos. A vida lá dentro é propositadamente muito dura e sofrida, para que eles se fortaleçam espiritual e fisicamente e saiam preparados para assumir as responsabilidades da vida adulta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; entrou no grupo &lt;em&gt;Sada'ro&lt;/em&gt; e era um dos mais velhos. Por sorte, &lt;em&gt;Ranaté&lt;/em&gt;, que era seu padrinho particular, desde que seu pai falecera, também era o padrinho do seu grupo, e isso o ajudou bastante. Na tradição xavante, sempre que o pai morre, algum padrinho assume essa função, pois essa continuidade familiar e a necessidade do aprendizado com os mais velhos são fundamentais tanto para a formação da pessoa quanto para a manutenção da cultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É comum ler e ouvir que os &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt; ficam reclusos no &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;. Até certo ponto isso é verdade, pois, por mais que saiam para caçar, pescar e fazer outras atividades, eles deixam de freqüentar o pátio da aldeia, se distanciam dos pais, irmãos, amigos e acabam não sabendo o que está acontecendo a pouquíssimos metros. Isso é importante para os &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt; manterem o foco apenas na sua formação e não se dispersarem com outros assuntos. Mas com &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; era diferente. Seu padrinho, que toda noite participava das longas conversas no &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt;, lhe contava o que havia sido discutido e quais eram as opiniões de cada participante. O propósito disso, além de deixá-lo bem informado sobre o que acontecia na aldeia, era mostrar quem eram as pessoas e como elas pensavam, com quem ele poderia contar futuramente e quais seriam seus opositores, quais eram os padrinhos confiáveis e com quais ele deveria ficar atento. &lt;em&gt;Ranaté&lt;/em&gt; também lhe falava sobre assuntos particulares. Certo dia, numa das conversas, ele revelou a &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; a verdade sobre a morte de seu pai. O padrinho disse que a doença não fora obra do acaso, mas resultado de feitiçaria, por isso ele já sabia que morreria cedo e nada pôde fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; foi amadurecendo e assumiu uma postura diferente dentro do &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;. Por ter mais idade e contato direto com o padrinho, ele passou a aconselhar os demais &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt;, servindo como uma espécie de ponte entre eles e os mais velhos. A turma gostava do que ele falava e o respeitava: "Não durmam sono muito profundo nem por muitas horas, é à noite que os outros fazem feitiçaria, que aparece espírito ruim... Não tomem banho no rio no horário das mulheres nem fiquem de olho nelas, a gente ainda não pode... Evitem usar tanto remédio (ervas) e chega de brigas... Aprendam mais quando estiverem com seus pais. Perdi o meu cedo e sei o quanto é importante... Ouçam mais os padrinhos... Vamos dividir a comida igualmente, entre a gente e com os padrinhos...". Era esse o tipo de conselho que ele dava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; conquistou a confiança de boa parte dos &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt;, conseguindo, inclusive, montar um grupo particular. Mas, ao mesmo tempo, ele despertava o descontentamento de outras pessoas, que não se alinhavam com suas idéias. A atuação dele chegou no &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt;, através dos padrinhos, e o mesmo aconteceu com os membros do conselho tradicional. Uns ficaram contentes em saber que havia um jovem com tais características na aldeia, já outros torceram o nariz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174613026549020?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174613026549020/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174613026549020' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174613026549020'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174613026549020'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/h-entre-os-9-e-17-anos-aproximadamente.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174592648996149</id><published>2006-10-24T20:08:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T20:12:06.493-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;DAÑONO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Após cinco anos de muito sofrimento e sacrifício no &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;, chega o momento mais esperado. Como se fosse a formatura em um colégio &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;, quando se termina o terceiro colegial, eles fazem a deles, que é a cerimônia de furação da orelha, o &lt;em&gt;Dañono&lt;/em&gt;. Aquele típico brinco que os homens usam passa a fazer parte da vida do xavante nessa época, quando deixam de ser &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt; e se tornam &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt;. Por cerca de um mês, todos os dias, eles permanecem o dia inteiro dentro da água, desde o horário mais frio, fazendo esse ritual. Com o corpo submerso até a cintura e as duas mãos posicionadas em forma de concha embaixo d’água, eles as jogam com as palmas voltadas para cima, uma vez sobre o ombro direito, depois sobre o esquerdo, enquanto acompanham o movimento dos braços com as pernas, agachando e levantando. Eles repetem essa "coreografia" durante todo o tempo, enquanto entoam alguns cantos. No último dia, com o lóbulo bastante amolecido, os padrinhos fazem a furação da orelha com osso de onça-parda. O material do brinco de cada xavante varia de acordo com a família, e eles, normalmente, não revelam do que é feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, chegada a hora da grande formatura, o conselho tradicional decidiu no &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; que não haveria a cerimônia de furação de orelha. Eles descobriram que os membros de um dos grupos haviam se engraçado com algumas cunhadas e fizeram sexo escondido, o que é terminantemente proibido. Quando &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; soube, ele ficou muito irritado e foi para cima dos envolvidos. Para o &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt;, não há nada mais vergonhoso do que não poder fazer o &lt;em&gt;Dañono&lt;/em&gt; após cinco anos de intensa luta. É muita desonra não só para ele, mas também para a família, para os padrinhos e toda a comunidade. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; deu uma grande bronca, por pouco não chegaram às vias de fato, mas no final se entenderam. Na seqüência, os padrinhos também apareceram furiosos, mas, ao invés de incentivá-los, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; partiu em defesa do grupo. Falou que já havia conversado com eles, que o pessoal se desculpou, e ainda apresentou alguns argumentos para os padrinhos usarem na reunião que teriam com o conselho, pois cabe aos padrinhos fazer a defesa do grupo nesse tipo de situação. E deu certo. Com os argumentos de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, eles fizeram uma boa defesa no &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; e conseguiram convencer o conselho a realizar a cerimônia. A partir daí, &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; não só ganhou o respeito da aldeia, mas também passou a ser visto de forma diferente, como alguém importante que estava surgindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A festa de formatura, como todas dos xavantes, é extremamente ritualística. Os participantes pintam o corpo, usam ornamentos, cada um sabe exatamente o que fazer, como se comportar e, caso se percam, há sempre os mais velhos para orientá-los. Geralmente as festas são longas e exigem muito esforço. No caso dessa, um dos principais momentos é quando os &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt; demonstram as suas habilidades. Durante os anos no &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;, além dos ensinamentos coletivos, cada um é especializado em um determinado ofício, de acordo com a aptidão. Assim, o menino que leva jeito para caçar, certamente será formado para se tornar um grande caçador. As mães, orgulhosas e emocionadas, fazem uma espécie de "sinfonia do choro". Eu pude presenciar na minha última visita em outro ritual e fiquei impressionado. Elas, espalhadas por toda a aldeia, choram muito alto, aos berros, fazendo um som extremante forte e ensurdecedor. Ao término da cerimônia, os jovens, oficialmente, deixam de ser &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt; e tornam-se &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174592648996149?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174592648996149/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174592648996149' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174592648996149'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174592648996149'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/daono-aps-cinco-anos-de-muito.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174572249290529</id><published>2006-10-24T20:05:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T20:08:42.496-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;RITÉIWA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando deixam a Casa dos Solteiros, os novos &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt; voltam a morar com seus pais, na aldeia. Nesse período eles já são considerados adultos, fazem reuniões particulares, participam do &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt;, podem se casar, mas ainda não são membros do conselho. O tempo de &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt; dura mais alguns anos, é a fase final do amadurecimento antes de se tornar um adulto completo, apto a ter filhos e assumir um lugar no conselho tradicional. Além disso, eles também passam pela primeira mudança de nome. No caso de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, ele passou a se chamar &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa época, na segunda década do século xx, &lt;em&gt;Soripré&lt;/em&gt; continuava sendo a principal aldeia xavante, mas já não tinha a tranqüilidade de outrora. Os índios abusavam da feitiçaria, matavam-se e os clãs iniciaram algumas disputas que resultariam em novas guerras. Era o começo de mais um período de retrocesso para os xavantes, que culminou na divisão de diversos grupos, que deixaram &lt;em&gt;Soripré&lt;/em&gt; para fundar novas aldeias. &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;, agora &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt;, continuou fazendo o mesmo trabalho que fazia no &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;, conversando, aconselhando e, mais importante, cercando-se de pessoas que confiavam nele. Sua participação no cotidiano da aldeia aumentava, assim como o número de seus aliados. A essa altura já era visto como uma nova força política e passou a incomodar os grupos inimigos, que se sentiam ameaçados. O estopim de todo esse processo aconteceu durante a cerimônia de formatura dos &lt;em&gt;Sada’ro&lt;/em&gt;, quando estourou uma grande guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na véspera do último ritual, quando os &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt; participariam de uma corrida de cerca de 5 a 10 km, um tio de &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;, irmão de seu pai, o procurou. Eles passaram na oca de um primo e os três conversaram. O tio havia sido informado de que um dos grupos que participariam da corrida estava planejando matá-los. Por isso, pediu para eles se encontrarem mais cedo antes da corrida, pois ele prepararia algumas ervas para protegê-los. No dia seguinte, &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; e o primo levantaram antes de o sol nascer e foram para a oca do tio, onde ele os aguardava. Quando o tio passou as ervas em &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;, ele se emocionou profundamente, pois se lembrou da época em que seu pai lhe fazia isso. A conexão familiar que sentiu foi tão intensa que, por alguns momentos, &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; achou que fosse o próprio pai que estivesse aplicando. No final, enquanto eles se preparavam para deixar a oca e seguir para o pátio, que já estava enchendo, o tio falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que eles fizeram aqui foi bravo. Foi feitiçaria das fortes e muitas pessoas vão morrer hoje. Não se preocupem em chegar até o final da corrida, o importante é vocês dois não se cansarem demais. Se chegarem até a metade, já estará ótimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não deu outra. Debaixo de um calor fortíssimo, os &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt; do &lt;em&gt;Sada’ro&lt;/em&gt; foram morrendo pelo caminho com os mais diversos sintomas. Somente os dois sobreviveram. Os inimigos que haviam feito o feitiço se irritaram por não terem conseguido pegá-lo e perceberam que seria difícil acabar com ele. Quando &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; voltou para a aldeia, após a corrida, sua mãe o esperava acompanhada de &lt;em&gt;Ranaté&lt;/em&gt;, o padrinho, com uma cabaça cheia d’água. Apesar de toda a confusão, &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; havia conseguido se formar e tornara-se &lt;em&gt;ipredu&lt;/em&gt; (adulto). Muito emocionado, &lt;em&gt;Ranaté&lt;/em&gt; o abraçou e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;, você acabou de se formar e eu estou muito orgulhoso. A partir de agora você terá que seguir o seu caminho. O meu trabalho acaba aqui. Jamais esqueça quem você é e lembre sempre de seu pai e da sua família. Também não se esqueça de falar com a sua mãe e a sua irmã sobre as ervas. Tenho certeza de que você saberá o que fazer daqui para frente. Você vai conseguir. Mas prepare-se que as coisas vão mudar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após algum tempo começou uma grande guerra na aldeia. Mais pessoas morreram, a feitiçaria tomou conta e, aos poucos, várias famílias preferiram deixar a "grande aldeia mãe", partindo para outras ou mesmo criando novas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174572249290529?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174572249290529/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174572249290529' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174572249290529'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174572249290529'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/ritiwa-quando-deixam-casa-dos.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174548770352964</id><published>2006-10-24T20:01:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T20:04:47.706-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 10&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Bom Trabalho&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;ETERÃ´URÃ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo em tempos de guerra, ainda acontecia o &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; em &lt;em&gt;Soripré&lt;/em&gt;. Uma noite, &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; pediu a palavra, discursou sobre a grave situação que estavam vivendo e avisou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nos próximos dias deixarei a aldeia. Vou andar pelo Cerrado e farei a minha aldeia aqui mesmo na Serra do Roncador. Quem quiser vir comigo será bem-vindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de tudo o que havia acontecido entre ele e o grupo adversário, a decisão não foi surpresa para ninguém. &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;, que se casara no final de sua fase &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt;, iria com a mulher, os familiares e os amigos mais próximos. Pouca gente. E, como havia deixado claro, quem quisesse poderia ir. Seu padrinho, &lt;em&gt;Ranaté&lt;/em&gt;, foi convidado mas preferiu seguir com a família para uma aldeia nova, &lt;em&gt;Huri&lt;/em&gt;, próxima do rio Suiá-Missu (cujos remanescentes estão, atualmente, na aldeia Água Branca, perto de Serra Dourada).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros grupos também deixaram &lt;em&gt;Soripré&lt;/em&gt; naquela época e ao longo das duas décadas seguintes (1920 e 1930). O resultado foi uma sucessão de migrações, motivadas por guerras, conflitos, necessidades ou por mera opção, que espalhou os xavantes pelo território, compondo um quadro geopolítico extremamente complexo. Dos grupos que saíram naquele primeiro momento, três tiveram papel importante na distribuição geográfica que se seguiu: um deles, o que foi para o rio Couto de Magalhães, fundou a aldeia &lt;em&gt;Wabzerewapré&lt;/em&gt;. Esse originou diversas outras aldeias e algumas das atuais reservas, como &lt;em&gt;Parabubure&lt;/em&gt;, São Marcos, Sangradouro e Marechal Rondon; outro grupo foi na direção do rio Suiá-Missu e fundou &lt;em&gt;Maraiwasede&lt;/em&gt;. Esse foi o mais resistente ao contato com os não-índios. Até a década de 1960, quando praticamente sumiram em virtude de doenças e contaminações, os poucos encontros que tiveram com os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; foram apenas para guerrear; e o outro grupo era o de &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;, que seguiu para noroeste de &lt;em&gt;Soripré&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A opção de &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; de fundar a sua própria aldeia e o lugar escolhido não foram decisões meramente conscientes, mas instruções que ele recebeu nos sonhos. Nos tempos da Casa dos Solteiros, a comunicação com os espíritos começou a se tornar freqüente e, nas últimas semanas em &lt;em&gt;Soripré&lt;/em&gt;, foram eles que o guiaram até o local. A nova aldeia foi batizada &lt;em&gt;Eterã'urã&lt;/em&gt; e sua população inicial tinha entre 40 e 50 índios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Soripré&lt;/em&gt; continuava em pé de guerra e as novas aldeias passavam por dificuldades. Em &lt;em&gt;Eterã'urã&lt;/em&gt; não foi diferente. &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;, pela primeira vez na condição de cacique, enfrentou muitos problemas. A começar pela desconfiança em torno dele, já que saía de um processo de feitiçaria por conta da corrida de formatura. No início, as ervas tiveram importância fundamental para encerrar o que havia sido feito e se proteger de novos feitiços. &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; aproveitou o convívio com a mãe e a irmã e intensificou o aprendizado. Freqüentemente, ele deixava a oca durante a noite para colher alguma erva ou raiz. Principalmente quando era avisado através do sonho. Como é costume na cultura xavante, ele dividia essas e muitas outras informações com sua mulher, e isso quase lhe custou caro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174548770352964?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174548770352964/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174548770352964' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174548770352964'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174548770352964'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-10-bom-trabalho-eterur-mesmo.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174528617710095</id><published>2006-10-24T19:57:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T20:01:26.183-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;MULHERES&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher (que os índios durante as conversas não quiseram fornecer o nome), em vez de guardar para si o que conversava com o companheiro na intimidade, comentava com outras pessoas da aldeia. Inclusive assuntos mais delicados como segredos familiares e decisões que seriam tomadas. Isso fez com que a credibilidade de &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; fosse colocada em dúvida. Ele ficou com tanta vergonha que se recolheu por alguns dias para pensar no problema. Depois de conversar com as pessoas mais próximas, decidiu deixá-la, o que não é muito comum entre os xavantes. &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; anunciou oficialmente que estava largando a mulher e que ela estaria à disposição de quem a quisesse. Um primo de quarto grau se interessou e aceitou ficar com a moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cacique levou um tempo para se recuperar do episódio. Mesmo assim, conseguiu, aos poucos, colocar em prática a sua filosofia, seguida desde os tempos do &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;, como a necessidade de parar com as guerras e a feitiçaria. E agora mais ainda por causa da ameaça &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;: "Vamos parar de brigar, eles estão chegando e nós mesmos estamos nos matando", ele dizia. Mas as mudanças não se limitavam ao discurso. Ele adotou algumas medidas que proporcionaram à &lt;em&gt;Eterã'urã&lt;/em&gt; viver um período de crescimento e relativa prosperidade em relação às outras aldeias. Sobretudo à &lt;em&gt;Soripré&lt;/em&gt;, que não parava de se fragmentar. Seredazé distribuiu as funções internas da aldeia, de modo que todos tivessem algum trabalho, sempre segundo a capacidade de cada um. Assim, não havia espaço para o ócio e a falta de auto-estima, já que todos eram úteis à comunidade e ninguém se sentia superior ou inferior. Pelo contrário, eles passaram a se respeitar e reconhecer o valor dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até hoje, a maioria dos xavantes adultos, tanto homens quanto mulheres, é "dono" dos animais. Cada um é responsável por um ou mais animais e "cuida" para que estejam bem, não só no plano físico mas, principalmente, no espiritual. &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; dividiu de maneira justa, acabando com o problema de um índio ter inveja do outro. Isso se refletiu numa melhor interação com o Cerrado, que tornou a caça mais proveitosa e, conseqüentemente, melhorou a alimentação e aumentou a fartura nas festas. De fato, foram anos em que aconteceram muitas cerimônias, vários grupos se formaram e os xavantes daquela aldeia voltaram a viver como &lt;em&gt;a’uwê uptabi&lt;/em&gt; - o povo verdadeiro. Para os membros da linhagem de &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;, ser &lt;em&gt;a’uwê uptabi&lt;/em&gt; é viver do modo mais tradicional possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro fator importante que deu suporte para &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; administrar a aldeia foram suas novas mulheres. Depois que deixou a primeira, ele se casou com três (na cultura xavante o homem pode ter várias mulheres, desde que possa sustentá-las e aos respectivos filhos). Cada uma, além dos afazeres usuais da mulher xavante, também exercia funções especiais dentro da estrutura que &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; montou. &lt;em&gt;Rewaiõ&lt;/em&gt;, mãe de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Cidaneri&lt;/em&gt; e Maurício, entre outros, era sua informante. Era ela quem descobria nas conversas informais do dia-dia as pessoas que poderiam estar conspirando, quem não estava satisfeito na aldeia e assim por diante. &lt;em&gt;Wautomotsitsare&lt;/em&gt; era a especialista nos frutos do Cerrado. Ela sabia a época certa de colher cada fruto, as propriedades medicinais de cada um e o modo correto de prepará-los para servir de remédio. A outra mulher, &lt;em&gt;Rotsitsamra&lt;/em&gt;, que tinha &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; como primogênito, era uma espécie de diplomata. Ela exercia função política na comunidade através da diplomacia, costurando alianças e articulando acordos. E &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; ainda contava com uma rede de informantes externos, que lhe avisava sobre o que se passava nas outras aldeias e quais poderiam atacá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com uma maneira diferente de conduzir a aldeia, ele conseguiu que ela crescesse, mesmo vivendo numa época conturbada, de lutas e separações. As pessoas passaram a confiar ainda mais nele e sua fama se espalhou para outras aldeias, fazendo com que muitos índios insatisfeitos fugissem para &lt;em&gt;Eterã'urã&lt;/em&gt; onde eram bem recebidos por ele. Por outro lado, alguns rivais ficaram descontentes e os confrontos se tornaram freqüentes: "Como é que pode? Nem pai ele tem, só mãe, com quem ele aprendeu essas coisas?". &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;, apesar de insistir na diminuição das brigas, não hesitava em convocar seus homens para batalhas sangrentas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174528617710095?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174528617710095/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174528617710095' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174528617710095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174528617710095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/mulheres-mulher-que-os-ndios-durante.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174503758419709</id><published>2006-10-24T19:55:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:57:17.586-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;EMBOSCADA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, um mensageiro da aldeia &lt;em&gt;Wabzerehu&lt;/em&gt;, localizada onde é hoje a cidade de Campinápolis, foi até &lt;em&gt;Eterã'urã&lt;/em&gt; conversar com &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;. Ele falou que o cacique de sua aldeia estava muito impressionado com o trabalho que estava fazendo e gostaria de conhecê-lo pessoalmente para trocar algumas experiências. Como os seus informantes não fizeram nenhuma ressalva sobre o encontro, &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; aceitou o convite. Ele reuniu as pessoas num &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; e comunicou que se ausentaria por algum tempo - cerca de um mês. &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; chamou três companheiros para ir com ele e pediu para todos continuarem os trabalhos na aldeia. Antes de encerrar, deixou um recado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se não voltarmos nesse tempo, vão atrás de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E seguiram no dia seguinte com muita proteção (leia-se, aquelas cordinhas que eles amarram no corpo, ervas, arcos, flechas e bordunas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após alguns dias de caminhada, não muito próximo da aldeia de destino, os quatro foram surpreendidos na estrada. O grupo que os havia convidado preparou uma emboscada e os recebeu a flechadas e bordunadas. A luta foi terrível. Eles queriam matar &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt;, mas não conseguiram por dois motivos: ele vinha sonhando, nas noites durante a viagem, sobre algo ruim que poderia acontecer e andava sempre preparado para o pior. Além disso, alguns índios que armaram a emboscada estavam lá só para se certificar de que o plano não daria certo. Liderados pelo avô do índio &lt;em&gt;Serité&lt;/em&gt; (aquele que esteve conosco na gruta sagrada), eles reconheciam a importância de &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; e, sabendo que não poderiam impedir que a armadilha fosse feita, acompanharam o grupo até a estrada e se rebelaram. Assim, mesmo muito feridos, os quatro foram salvos pelos dissidentes, que os levaram de volta até um local próximo à &lt;em&gt;Eterã'urã&lt;/em&gt;. Após alguns dias, eles se recuperaram e retornaram à aldeia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174503758419709?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174503758419709/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174503758419709' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174503758419709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174503758419709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/emboscada-certa-vez-um-mensageiro-da.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174491187811576</id><published>2006-10-24T19:53:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:55:11.880-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;PRIMEIRA PAJELANÇA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na chegada, todos estranharam a rapidez da volta. &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; estava enfurecido. Ele se reuniu com o seu conselho particular e depois com o conselho tradicional, no &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt;, quando, ao relatar a viagem, deu uma severa bronca em todos. Isso porque descobriu que havia sido traído por pessoas da própria &lt;em&gt;Eterã'urã&lt;/em&gt;. Elas teriam ajudado os inimigos de &lt;em&gt;Wabzerehu&lt;/em&gt; na preparação da emboscada ao omitir informações. Como forma de puni-los e, principalmente, de impor respeito, &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; decidiu fazer sua primeira grande pajelança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através dos sonhos e em contato com os espíritos da terra, ele preparou tudo. No dia em que aconteceria, &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; inventou uma desculpa e saiu com seus familiares e amigos mais próximos. À noite, &lt;em&gt;Eterã'urã&lt;/em&gt; foi invadida por 5 a 10 espíritos de &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; que chegaram atirando. Os índios fugiram e ninguém se feriu, com exceção de uma mulher, que morreu. Antes de irem embora, os espíritos ainda incendiaram toda a aldeia. Dias depois, &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; voltou, disse que o local estava perigoso e que iria se mudar. Alguns sabiam que havia sido ele o responsável pela pajelança, outros não. Mas ele conseguiu que os seus traidores fugissem. A partir da &lt;em&gt;Eterã'urã&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; fundou a aldeia &lt;em&gt;Dahonené&lt;/em&gt;, ali perto, onde construíram rapidamente novas casas. Eles permaneceram pouco tempo em &lt;em&gt;Dahonené&lt;/em&gt;, mas foi um período importante para &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; aprofundar a sua relação com o, digamos, "outro lado".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas ocas de &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; sempre havia os quatro &lt;em&gt;wamãri&lt;/em&gt; amarrados no poste principal (aqueles pequenos pedaços de madeira que servem para proteger a oca e aguçar a mente para sonhar). A partir dessa primeira pajelança, &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; passou a intensificar a sua relação com o sonho. Através da sintonia com os dois &lt;em&gt;wamãri&lt;/em&gt;, ele consultava seus mestres espirituais sobre todos os assuntos importantes que precisava pensar ou resolver, antes de se reunir com o conselho tradicional. A comunicação funcionava mais ou menos assim: quando acordado, ele se concentrava e perguntava mentalmente. Depois, ouvia ou sentia a resposta. No sonho era parecido, mas ele dialogava diretamente com os espíritos, vendo-os, como se fosse no plano físico. &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; se utilizou dessa prática até os últimos dias de sua vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174491187811576?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174491187811576/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174491187811576' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174491187811576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174491187811576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/primeira-pajelana-na-chegada-todos.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174466243537946</id><published>2006-10-24T19:48:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:51:02.436-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Capítulo 11&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Contato&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;ASSERERÊ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iniciava-se a década de 1920 quando &lt;em&gt;Seredazé&lt;/em&gt; trocou de nome pela última vez, passando a se chamar &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;. Nessa época, ele deixou &lt;em&gt;Dahonené&lt;/em&gt; e seguiu para o Rio das Mortes, perto de onde hoje se localiza a reserva Pimentel Barbosa, e fundou a aldeia &lt;em&gt;Assererê&lt;/em&gt;. Na nova aldeia ele manteve o bom trabalho que vinha fazendo. Novamente, foram alguns anos de relativa prosperidade, com a população crescendo e vários grupos se formando. As coisas começaram a mudar na década seguinte, os anos 30, quando se iniciou todo o processo que ocasionaria o contato oficial com o governo brasileiro. Através do sonho, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; foi informado de que &lt;em&gt;"estava chegando a hora. Não teria mais como fugir. O governo já estava com plano elaborado e a aproximação das expedições era questão de tempo. Os warazu estariam armados e a solução seria tentar conduzir tudo da maneira mais pacífica possível, senão eles seriam mortos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde os séculos passados, o contato foi um tema polêmico entre os xavantes. Muitas das divisões políticas resultaram dessa discussão. Historicamente, a família de &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; sempre foi contra. Por ser a mais tradicional, eles defendiam a autonomia do povo e por isso mantiveram-se em eterna migração para longe da civilização. Mas os tempos mudaram. Quando &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; levantou a questão na sua aldeia, o assunto imediatamente provocou discórdia. Ainda mais por partir dele, defensor ferrenho do isolamento. Porém, orientado pelos sonhos, ele iniciou um trabalho de conscientização, pois era uma questão de sobrevivência para o seu povo. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; percebeu que em pouco tempo não teriam mais para onde fugir, já que o "progresso" estava avançando, e se ficassem para enfrentar os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; não teriam chances.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174466243537946?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174466243537946/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174466243537946' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174466243537946'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174466243537946'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-11-contato-asserer-iniciava-se.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174450115413401</id><published>2006-10-24T19:45:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:48:21.156-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;MASSACRE DE PIMENTEL BARBOSA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa noite de outubro de 1941, enquanto sonhava, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; ficou sabendo que uma caravana de forasteiros estava bem próxima e que ele precisava preparar as pessoas da aldeia. Não seria o contato oficial, mas tinha &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; acampado a poucos quilômetros. Estavam a caminho e traziam presentes. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; reuniu a sua comunidade e falou sobre o sonho, deixando claro que não era para ter confronto. Houve muita discussão, algumas pessoas não gostaram da idéia de recebê-los, mas acabaram concordando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns dias depois, no início de novembro, uma "frente de atração" - como era chamada - do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) chegou à aldeia nas primeiras horas da manhã. Eles se aproximaram pelo Rio das Mortes, de barco, a cavalo e de jipe. Liderados por Genésio Pimentel Barbosa, o grupo contava com um sertanista da região e dois intérpretes xerentes. Ao entrarem na aldeia, foram conduzidos até a oca de &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, onde o cacique os aguardava. Ele havia feito uma esteira grande, bonita, especialmente para a ocasião, e a estendeu para colocarem os presentes. Eles deram espelhos, facas e outras "utilidades", trocaram algumas palavras e foram embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de ter sido um encontro tranqüilo, alguns índios não gostaram. Queriam ir atrás dos warazu para matá-los. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; e outros mais velhos não deixaram. À noite, o &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; foi palco de grande discussão. O cacique falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não dá mais para fugir. O tempo de vivermos sozinhos está acabando. Vamos ter que aprender a viver com outras pessoas, os não-índios. O contato é inevitável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E alguns retrucavam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como a gente vai fazer contato, se esses brancos vão tomar nossas terras, trazer várias doenças?&lt;br /&gt;- Mas não tem jeito, temos que fazer. Depois a gente vai ver se vai viver numa terra grande ou não. Mas chegou o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim prosseguiu o &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; por horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, um pouco antes de amanhecer, alguns índios descontentes deixaram a aldeia e seguiram o rastro dos visitantes. Quando os encontraram, assassinaram todos a golpes de borduna, destroçando os corpos em diversos pedaços. O fato entrou para a história como "o massacre de Pimentel Barbosa" e contribuiu para aumentar a fama de "selvagens" e "arredios" que tinham os xavantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando souberam do ocorrido, as pessoas que eram a favor do contato não se conformaram. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, particularmente, que tentava prepará-los para os novos tempos, ficou desolado. Viu que o seu trabalho de conscientização não dera o resultado esperado. Os habitantes de &lt;em&gt;Assererê&lt;/em&gt; ficaram apavorados com a hipótese de uma retaliação. Conversando com os mestres espirituais, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; decidiu que deveria levar seu pessoal um pouco mais para o fundo do Cerrado, e criou uma pequena aldeia chamada &lt;em&gt;Öá&lt;/em&gt;. Eles ficaram pouco tempo nesse lugar e depois seguiram para um espaço maior, estratégico, onde fundou a aldeia &lt;em&gt;Arobonipopá&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174450115413401?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174450115413401/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174450115413401' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174450115413401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174450115413401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/massacre-de-pimentel-barbosa-numa.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174429212876483</id><published>2006-10-24T19:42:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:44:52.130-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;OS WARAZU ESTÃO CHEGANDO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde a década de 1930, expedições e missões religiosas tentavam se aproximar e "amansar" o xavante. Os salesianos talvez tenham sido a cultura externa que obteve maior êxito na comunidade. Não entrarei no mérito de estabelecer se a ação deles é benéfica ou maléfica para o xavante, nem na intenção, mas o certo é que ainda nos anos 30 eles conseguiram se fixar na região e desde então vivem em algumas aldeias influenciando a cultura local, apesar de nem todos os índios aceitarem sua presença. Em 1934, por exemplo, dois padres salesianos, Pedro Sacilotti e João Baptista Fuchs, foram assassinados pelos xavantes do rio Suiá-Missu, numa tentativa de aproximação. O grupo de &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; também não se relacionava bem com os salesianos. Sangradouro e São Marcos, localizadas ao sul, são as reservas que contam com a maior presença desses missionários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir da década de 1940, a situação complicou-se para o xavante. Na região central do país, entre a Serra do Roncador e o Alto Xingu, existia, pelo menos para o governo, um grande vazio demográfico, já que não havia cidades, apenas comunidades indígenas. A Segunda Guerra Mundial estava destruindo a Europa e certos rumores de que essa região do Brasil poderia ser utilizada para abrigar excedentes populacionais preocupavam o governo. Também havia o declarado interesse internacional pela Amazônia. Diante dessa conjuntura externa e em plena campanha populista, o presidente Getúlio Vargas incentivou a ocupação da região com o movimento "Marcha Para o Oeste". Para isso, foram criadas a Fundação Brasil Central e a Expedição Roncador-Xingu. O objetivo era entrar na região para conhecê-la e, posteriormente, promover a colonização dos territórios mais apropriados, incentivando a ida de pessoas e a fundação de novas cidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A investida do governo deu certo. Apesar de alguns fracassos no início, as expedições conseguiram desbravar a área e encurralar os índios, que não tiveram para onde fugir. Principalmente após o confronto com o grupo de Pimentel Barbosa, quando o governo montou uma grande operação com instalação de um posto de atração na região, em 1944, e se equipou com moderno aparato tecnológico. Com o avanço das expedições e a aproximação do contato com um dos últimos povos indígenas ainda não "civilizados", o assunto tornou-se de interesse da imprensa e do grande público. Uma imagem marcante dessa época são os xavantes, assustados, atirando flechas nos aviões que sobrevoavam as suas aldeias, bem perto do solo. O fato foi amplamente documentado pela revista &lt;em&gt;O Cruzeiro&lt;/em&gt;, uma das principais publicações daquele tempo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174429212876483?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174429212876483/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174429212876483' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174429212876483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174429212876483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/os-warazu-esto-chegando-desde-dcada-de.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174411062496028</id><published>2006-10-24T19:38:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:42:35.363-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;AROBONIPOPÁ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anos em &lt;em&gt;Arobonipopá&lt;/em&gt; foram difíceis. Com a aproximação das frentes de atração e o massacre de Pimentel Barbosa, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; se viu num beco sem saída. Era preciso fazer o contato. Porém, ele mesmo não estava preparado. Foram dias muito difíceis para o cacique, que se isolou e travou longos diálogos por semanas com seus mestres espirituais. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; pedia e perguntava: "Como fazer o contato? Me dêem uma luz. Qual a melhor forma? O que vai ser depois? Eu sei que vai ser ruim, por isso, qual a melhor maneira? Como eu informo e preparo as pessoas para aceitarem o contato? Coloquem na cabeça deles, no coração deles, porque é difícil eles entenderem".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os espíritos respondiam: &lt;em&gt;"Chegou o tempo, tem que fazer o contato agora. Eles já estão aqui perto para isso. Vocês não têm mais para onde fugir. Está tudo loteado. Vocês precisam fazer o contato e tentar se adaptar aqui, viver aqui. Alguns já estão acampados na beira do rio. Prepare seu espírito e o do seu povo porque eles vão chegar".&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;E assim &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; fez. Passado algum tempo, ele chamou um de seus irmãos, &lt;em&gt;Waiwêmra&lt;/em&gt;, e dois primos, &lt;em&gt;Uparapsé&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Seruarã&lt;/em&gt;, e comunicou: "Estou falando com vocês antes do pessoal saber. Conversei bastante com os mestres e chegou o momento de fazermos o contato. Não temos mais como fugir. Tem um acampamento de &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; aqui perto, no Rio das Mortes. Eu quero que vocês vão até lá para marcar um encontro com o chefe deles. Mas não contem pra ninguém. Inventem que vocês vão caçar por alguns dias e façam isso. Será muito importante".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles ficaram com um pouco de medo mas seguiram. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; lhes deu algumas ervas e falou que daria tudo certo. Os três também sonhavam com os espíritos e foram guiados por eles até o local onde deveriam ficar. Chegando no Rio das Mortes, montaram um pequeno acampamento e aguardaram. Após alguns dias, eles ouviram o som de algumas canoas se aproximando. Eram os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. Os índios fizeram sinal de que estavam em paz e os brancos retribuíram. Mas o encontro aconteceu sob tensão de ambas as partes. Euvaldo Gomes da Silva, que havia convivido um tempo com os xerentes, serviu de intérprete. Após as apresentações, ele traduziu, a pedido de um dos &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nós estamos aqui para fazer contato.&lt;br /&gt;- E nós viemos até aqui para preparar o contato - respondeu um dos índios.&lt;br /&gt;- Onde está o cacique?&lt;br /&gt;- O cacique não veio. Ele está na aldeia e mandou a gente como mensageiro, para preparar o encontro. E o chefe de vocês?&lt;br /&gt;- Também não está, ficou no acampamento. Mas vamos marcar um dia para os dois se encontrarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem problemas, combinaram a data e o local para fazer o encontro dos dois chefes. Os xavantes, carregando alguns presentes que ganharam, deixaram o rio e retornaram para a aldeia, onde &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; os aguardava para uma reunião. Eles contaram como foi, que havia corrido tudo bem e que o desejo dos &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; era fazer o contato de maneira pacífica. À noite, no &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; pediu para relatarem a viagem e depois fez um longo discurso. Ele avisou que iria se encontrar com o chefe dos brancos, que faria o contato e que, em hipótese alguma, poderia se repetir o episódio de Pimentel Barbosa. No final, falou: "E quem quiser vir junto pode vir".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174411062496028?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174411062496028/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174411062496028' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174411062496028'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174411062496028'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/arobonipop-os-anos-em-arobonipop-foram.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174385365211091</id><published>2006-10-24T19:34:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:37:33.656-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;O CONTATO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de deixar a aldeia, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; deu as últimas instruções para os seus três homens de confiança: "Fiquem de olho. Alguém me acompanha e os outros dois dispersem. Um de vocês fica com o grupo que vem atrás e outro vai separado colhendo informações. Qualquer sinal de perigo dos &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; ou de revolta contra eles, por parte dos nossos, me avisem. Não pode haver mais mortes". E assim foram pelo Cerrado, na direção do Rio das Mortes. No primeiro encontro os dois grupos não chegaram a definir um local exato para o segundo. Eles apenas combinaram que seria próximo do rio, na altura de um lugar conhecido como São Domingos (perto de onde é hoje Pimentel Barbosa, só que na margem oposta). No caminho, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; sonhou que seria um contato pacífico e o lugar para onde deveria seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia 6 de junho de 1946 os índios já estavam no local. Enquanto descansavam da longa caminhada, ouviram o barulho de algumas canoas se aproximando. Nelas estavam vários &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; e muitos presentes. As canoas pararam na beira do rio, eles desceram e, quando apareceu o chefe da expedição, Francisco Meireles, todos se afastaram. O mesmo fizeram os índios, que deixaram &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; sozinho. Meireles dirigiu-se até o cacique seguido pelo intérprete. Os dois se cumprimentaram e conversaram por algum tempo. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse é o momento em que não podemos mais brigar com vocês. Por isso saí de tão longe para fazer o contato aqui, em lugar neutro, longe da aldeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meireles também falou que não queria mais ter problemas com o xavante e que viera em paz. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse é um momento importante. Por isso, quero que vocês registrem no seu diário que foi um contato pacífico. Passe isso para o seu chefe e para o governo. Nós não queremos mais guerra. Só queremos que daqui para frente a gente seja respeitado como povo, como gente e, principalmente, que vocês respeitem e garantam o nosso território. Isso é fundamental para nós. Precisamos do nosso território.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Meireles ouviu atentamente a tradução do intérprete e garantiu que falaria pessoalmente quando fosse entregar o relatório para o seu chefe, Marechal Cândido Rondon. E depois, faria o mesmo na audiência que teria com o presidente da república, Getúlio Vargas. Os dois ainda conversaram por algum tempo e no final, antes de se despedirem, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; chamou todos que estavam em volta, estendeu a mão direita e pediu para Meireles colocar a dele por cima da sua. Depois, um índio repetiu o gesto, colocando a mão sobre a de Meireles. Outro &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; fez o mesmo e assim sucessivamente, simbolizando que naquele momento estava nascendo paz, que não haveria mais diferenças entre índio e não-índio. Apesar de meramente simbólico, foi um belo encerramento para o momento que mudaria para sempre a história do povo xavante. Para pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao voltar para a aldeia, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; reuniu-se com todos, fez um grande &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt; e discursou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O contato com o governo já está feito. Daqui pra frente nossa vida vai mudar. Precisamos ter consciência disso. Não viveremos mais isolados. Teremos que lidar com os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. Nosso espaço vai diminuir, os bichos, os frutos, o Cerrado e nós mesmos. Agora, cabe aos mais velhos estarem conscientes disso e repassar para os mais novos. No &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;, além da nossa tradição, vamos também falar do &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. No &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt; e no conselho tradicional também. A partir de agora, quem quiser fundar novas aldeias vá em frente. Precisamos garantir território. Vamos distribuir nosso povo e garantir nosso espaço, antes que eles cheguem e peguem tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabendo das dificuldades que enfrentaria, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; incentivou uma nova divisão na aldeia que, juntamente com todas as outras cisões naturais decorrentes das guerras entre os xavantes, mais uma vez fez com que o povo se espalhasse e ocupasse mais espaço. Os principais deslocamentos aconteceram da região do Rio das Mortes para o sudoeste. Um grupo se juntou aos índios do rio Batovi e outro seguiu para as aldeias das regiões dos rios Couto de Magalhães e Kuluene.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174385365211091?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174385365211091/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174385365211091' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174385365211091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174385365211091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/o-contato-antes-de-deixar-aldeia-apowe.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174361767269795</id><published>2006-10-24T19:31:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:52:49.530-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Capítulo 12&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Pós-Contato&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;WEDEZÊ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de feito o contato, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; permaneceu por mais cinco anos em &lt;em&gt;Arobonipopá&lt;/em&gt;. Em 1951, após um período de lutas internas com um grupo rival, a aldeia foi queimada. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; seguiu para o posto do SPI, batizado de Pimentel Barbosa, que ficava ao sul, às margens do Rio das Mortes, próximo de onde é hoje a reserva Areões. E, a poucos metros do posto, seguiu para a aldeia São Domingos, também conhecida como &lt;em&gt;Wedezê&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A relação com os funcionários do posto era boa. Como foi o grupo de &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; que fez o contato oficial com o governo, não tiveram maiores problemas para se estabelecer por lá. Pelo contrário, na base do paternalismo, eles se acostumaram a receber presentes dos funcionários que passavam ou se fixavam na área. Freqüentemente, aviões da FAB (Força Aérea Brasileira) aterrissavam na pista de pouso que abriram nas proximidades para levar suprimentos e remédios para os moradores do posto. O curioso é que antes de iniciar o processo do contato, ainda em &lt;em&gt;Assererê&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; esbanjava os "presentes" deixados pelos brancos. Muitas vezes seus homens enterravam ou destruíam os objetos. Agora, era uma ofensa alguém chegar de mãos vazias. Facões, linhas para pesca, anzóis e até armas de fogo eram os artigos preferidos pelos índios. Aliás, até hoje. Pode-se dizer que eles ficaram mal-acostumados com esse paternalismo e isso foi prejudicial.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174361767269795?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174361767269795/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174361767269795' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174361767269795'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174361767269795'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-12-ps-contato-wedez-depois-de.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174348894467968</id><published>2006-10-24T19:28:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:31:28.950-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;CONTATO OFICIAL&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se fala que &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; fez o "contato oficial" é porque o encontro de 1946 foi com membros de uma expedição do governo e em nome do presidente da república. Além disso, pela própria operação que foi montada, houve grande repercussão na imprensa. Mas vários outros contatos aconteceram entre o xavante e os não-índios em tempos e lugares distintos, já que este povo sempre esteve espalhado. Os xavantes mais ao sul, por exemplo, mantinham relações com os padres das missões salesianas desde o final dos anos 30, enquanto alguns grupos só aceitaram se encontrar pacificamente com funcionários do spi nos anos 50. E por pura necessidade. Aliás, essa foi uma das características dominantes dos contatos nos anos 50.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em São Domingos, até que as conseqüências do contato não vieram tão bruscamente. O que mais os perturbava era sair para caçar e se deparar com estradas em construção. Mas outras comunidades tiveram grandes problemas. Em &lt;em&gt;Parawadza’radzé&lt;/em&gt;, por exemplo, na região do rio Couto de Magalhães, boa parte da população adoeceu por causa da roupa contaminada recebida dos moradores de Xavantina. Já habitantes da região do rio Kuluene enfrentaram grave e fatal epidemia de gripe, pois, como o vírus chegara até os índios pelos brancos, o organismo deles não produzia anticorpos para combatê-lo. Além desses casos, massacres e expedições punitivas também eram comuns na época. Não por acaso, a população xavante foi reduzida pela metade na década de 1950. Por isso, tornou-se comum nesse período os próprios índios saírem à procura dos postos de atração e das missões religiosas, ao contrário do que ocorria anteriormente. O grupo do rio Couto de Magalhães, por exemplo, que foi contaminado pela roupa, após algumas migrações se estabeleceu junto às missões salesianas. Para eles, era um local seguro onde tinham atendimento médico, alimentação e educação. Em troca, eram catequisados pelos padres e tornavam-se xavantes católicos. No caso dos índios que sobreviveram à epidemia de gripe, eles procuraram apoio no posto do spi Simão Lopes, na região do rio Batovi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, em São Domingos, vendo as estradas se aproximarem, estava preocupado. Ele sabia que em poucos anos os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; chegariam com maior freqüência, as áreas seriam loteadas, fazendas surgiriam e, inevitavelmente, cidades seriam construídas. Isso significava destruição do Cerrado e diminuição do território. Tradicionalmente, o xavante sempre foi um povo nômade, raramente fixando-se num local por muito tempo. Mesmo quando isso acontecia, ele regularmente saía para caçar e acampar nos arredores, ficando semanas ou meses fora. Em determinadas situações, como em épocas de chuvas torrenciais, o xavante transferia a aldeia inteira para outro terreno e depois retornava. Porém, como o próprio &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; dizia, "os tempos são outros". Não havia mais para onde correr. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; atravessou a década de 1950 inteira em São Domingos e permaneceu até o final dos anos 60, mas ele sabia que não era o seu lugar definitivo. Na hora certa, ele teria de partir, e os mestres o avisariam quando ela chegasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; teve 16 filhos com as três mulheres. Desses, um morreu precocemente, recém-nascido. Ele criou os filhos segundo a educação tradicional xavante. Mas, como seu pai e, mais tarde, seu padrinho fizeram com ele, preparando-o de maneira especial, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; fez o mesmo com o seu primogênito, &lt;em&gt;Warodi&lt;/em&gt;. Reconhecendo, ao pegá-lo no colo pela primeira vez, as qualidades do filho, ele o criou para ser o seu sucessor natural, protegendo-o com as ervas e transmitindo todo o seu conhecimento, além dos segredos da família. Assim, com o passar dos anos, a idade avançando (estava com cerca de 65 anos), os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; mais próximos e o constante conflito com grupos rivais, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; fez com que &lt;em&gt;Warodi&lt;/em&gt; assumisse a liderança em São Domingos. Claro que ele, enquanto estivesse vivo e em condições, sempre seria o chefe absoluto da aldeia. Mas &lt;em&gt;Warodi&lt;/em&gt; já se portava como futuro cacique.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante os anos em São Domingos a aldeia não sofreu sérias interferências externas. Com base nas descrições do cotidiano do antropólogo inglês David Maybury-Lewis, que viveu entre 1958 e 1964 na aldeia, relatadas no livro &lt;em&gt;O Selvagem e o Inocente&lt;/em&gt;, os índios de &lt;em&gt;Wedezê&lt;/em&gt; ainda dispunham de grande quantidade de caça e frutos no Cerrado, faziam regularmente as festas e cerimônias, continuavam nus, ou seja, ao contrário da situação do xavante de outras regiões, eles ainda estavam bem preservados. O elo maior que tinham com o mundo exterior era feito por meio dos funcionários do posto. Mas, ao contrário do que possa parecer, isso não significava que o cacique estivesse tranqüilo e despreocupado com o que ocorria do lado de fora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174348894467968?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174348894467968/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174348894467968' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174348894467968'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174348894467968'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/contato-oficial-quando-se-fala-que.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174327438741991</id><published>2006-10-24T19:25:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:27:54.386-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;PARIDZOROPRÉ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; sabia que os arredores da aldeia estavam sendo loteados, mas não achava que viveria para ver. Ele pensara ser uma questão para os filhos e os netos resolverem. Enganou-se. No final dos anos 60 as estradas se aproximavam da aldeia e pequenas vilas e conglomerados de migrantes surgiam na vizinhança. Através das conversas com os mestres, ele decidiu deixar São Domingos e partir para um novo local, também no Rio das Mortes e mais perto da Serra do Roncador. O lugar escolhido foi batizado de &lt;em&gt;Paridzoropré&lt;/em&gt; e era conhecido como Barreira Amarela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi na Barreira Amarela que nasceu &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, o atual cacique de &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, em 1968. Lá, não permaneceram por muito tempo. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, percebendo que os warazu estavam cada vez mais próximos, concluiu que precisava se fixar num local definitivo. Não era mais possível viver como nômades ou seminômades. Nos anos 70 o povoamento do Mato Grosso estava acelerado e, se eles não garantissem logo um bom local, depois não conseguiriam mais. Foi então que, em 1974, guiado pelos sonhos, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; decidiu sair com seus filhos pela Serra do Roncador à procura do lugar ideal. Por cerca de um mês andaram na direção norte. Até que um dia, durante uma caminhada, os mestres lhe mostraram o terreno onde deveria se estabelecer para sempre. Era à beira de um rio, perto de uma imponente cadeia de serras. Quando retornou para Barreira Amarela, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; anunciou no &lt;em&gt;wa’rã&lt;/em&gt; que encontrara o lugar e que partiriam em breve. Dias depois ele fundou sua última aldeia, &lt;em&gt;Etenhiritipá&lt;/em&gt; (Serra do Roncador, em xavante), também conhecida como Pimentel Barbosa, que sobrevive até hoje.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174327438741991?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174327438741991/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174327438741991' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174327438741991'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174327438741991'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/paridzoropr-apowe-sabia-que-os.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174313513945869</id><published>2006-10-24T19:24:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:25:35.140-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;ETENHIRITIPÁ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na década de 70, cidades como Água Boa e Canarana foram emancipadas. O desenvolvimento agropecuário do Mato Grosso era financiado pelo governo e a aldeia já estava totalmente cercada por fazendas. Com o território seriamente ameaçado, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; juntou os filhos e resolveu agir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estão vendo o que eu falei? Tá tudo loteado! Achei que isso só fosse acontecer depois que eu morresse, mas está aí. Foi rápido demais. Precisamos fazer alguma coisa. Vamos andar por aí alguns dias, conhecer melhor o território e ver como a gente vai expulsar esses &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; e seus filhos caminharam pela região e viram que estavam completamente cercados por fazendas. Percebendo a gravidade da situação, o chefe sentenciou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá na hora de tirar esses &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. Vamos brigar para garantir o nosso espaço. Eu já estou velho para isso, vocês é que vão retomar o território. Vão lá, expulsem os fazendeiros e recuperem o que é nosso. Vou protegê-los com as ervas, esse será o meu trabalho. O resto é com vocês.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174313513945869?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174313513945869/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174313513945869' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174313513945869'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174313513945869'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/etenhiritip-na-dcada-de-70-cidades.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174305500897501</id><published>2006-10-24T19:21:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:24:15.010-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;DEMARCAÇÃO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, após o contato, sempre foi contrário ao conflito com os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. Mas, naquele momento, não teve como escapar. Por alguns anos, xavantes e fazendeiros estiveram em pé de guerra. As brigas foram amplamente divulgadas pela imprensa e chamaram a atenção das autoridades e da opinião pública, o que foi ótimo para os índios. Eles expulsaram boa parte dos fazendeiros e conseguiram que o governo federal reconhecesse oficialmente suas terras. Ao todo foram demarcadas seis reservas xavantes, que se mantêm até hoje. É importante ressaltar que outras aldeias também lutaram pelos seus territórios e, portanto, essa não foi uma vitória conquistada apenas pelos índios de Pimentel Barbosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes, cada grupo de xavante concentrava toda a população numa só aldeia. Agora, com a necessidade de garantir e vigiar o território, cada aldeia passa a ser dividida em várias outras, espalhando-se ao longo das terras demarcadas. Desavenças políticas também contribuíam para essa divisão, mas o fato é que os xavantes ficaram com aldeias mais coesas e bem distribuídas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa época surgiram seis reservas. Pimentel Barbosa, da família de &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, que sempre esteve na Serra do Roncador. Sangradouro e São Marcos, as duas reservas localizadas ao sul, que recebem influência dos padres salesianos (não são todas as aldeais). Grande parte da população das duas reservas é proveniente da antiga aldeia &lt;em&gt;Wabzerewapré&lt;/em&gt;, localizada na região dos rios Kuluene e Couto de Magalhães. De lá, alguns grupos partiram para a aldeia &lt;em&gt;Parawadzarapré&lt;/em&gt; e, posteriormente, fundaram São Marcos. Outro deixou &lt;em&gt;Wabzerewapré&lt;/em&gt; e seguiu direto para fundar Sangradouro. A reserva &lt;em&gt;Parabubure&lt;/em&gt; foi formada pelos xavantes que permaneceram em &lt;em&gt;Wabzerewapré&lt;/em&gt;. Os índios de Marechal Rondon descendem dos xavantes que deixaram &lt;em&gt;Wabzerewapré&lt;/em&gt; e foram para o rio Batovi e para o posto indígena de Simão Lopes, em terras Bakairi. Também faz parte a população proveniente da aldeia Paraíso. A reserva Areões formou-se por grupos dissidentes de &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, quando ele estava em &lt;em&gt;Arobonipopá&lt;/em&gt; e São Domingos, e fica na região do rio de mesmo nome, próximo de Água Boa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174305500897501?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174305500897501/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174305500897501' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174305500897501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174305500897501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/demarcao-apowe-aps-o-contato-sempre.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174287962334525</id><published>2006-10-24T19:20:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:21:19.626-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;NOVAS ARMAS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O confronto com os fazendeiros deu certo, mas &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; sabia que nem sempre seria assim. Vendo que a única maneira de se relacionar com o mundo exterior era através da diplomacia, e aconselhado pelos espíritos, decidiu enviar algumas crianças para estudar na cidade. O objetivo era que elas aprendessem a língua portuguesa e descobrissem não só como era a vida do &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;, mas também a sociedade brasileira. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; falou num dos &lt;em&gt;wa'rã&lt;/em&gt;: "A melhor arma para lidar com os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; é aprender a ler e escrever. O tempo da guerra, do arco e flecha e da borduna acabou". Num primeiro momento ele enviou para Ribeirão Preto, interior de São Paulo, seis crianças. Mais tarde, mandou mais duas, agora seus netos de sangue. Ele procurou seus dois filhos, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; e Maurício, para conversar e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É questão de vida ou morte para dar continuidade ao trabalho. Eu preciso que os seus filhos vão estudar na cidade. Não pensem na dor que vocês e as mães sentirão, mas no futuro, no povo xavante. Eu preciso mandar um neto meu, legítimo, de sangue. Eu os levarei pessoalmente até a cidade e os acompanharei e protegerei daqui. Falem com suas mulheres, depois, se precisar, eu falo com elas, mas é necessário que vão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; e seu primo, Jurandir (na época &lt;em&gt;Sereoiwe&lt;/em&gt;), filhos de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; e Maurício, respectivamente, foram chamados pelo avô e embarcaram para Ribeirão Preto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174287962334525?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174287962334525/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174287962334525' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174287962334525'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174287962334525'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/novas-armas-o-confronto-com-os.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174268078787748</id><published>2006-10-24T19:13:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T19:19:06.836-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;MORTE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; raramente teve problemas de saúde. Ele sempre foi um índio forte, tanto física quanto espiritualmente. Mas a sua sorte estava para mudar. Um dia, uma índia da própria aldeia lhe ofereceu um peixe, uma albacora-cachorra (&lt;em&gt;Parathunnus obesus&lt;/em&gt;), para comer. Ele aceitou mas não lhe caiu bem. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; ficou enjoado e foi levado para o posto médico da aldeia. Os enfermeiros, &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;, diagnosticaram febre e o medicaram com remédio &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. Desde o início da década de 1970, com a entrada de novas doenças na aldeia decorrentes do convívio com os brancos, os índios não puderam mais se tratar exclusivamente com a medicina deles. Num caso de gripe, por exemplo, necessitavam de remédios de fora, já que a enfermidade também vinha de fora. Isso resultou na perda gradativa do conhecimento medicinal, além da dependência do mundo externo no que dizia respeito à saúde. E &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, ironicamente, foi mais uma das vítimas desse processo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os medicamentos fornecidos no posto da aldeia não surtiram efeito e a febre aumentou. Preocupados, os enfermeiros acharam melhor levá-lo para um hospital na cidade. Naquela época, as cidades vizinhas ainda eram muito pequenas e os centros médicos mais próximos eram em Brasília e Goiânia. Em função de um projeto bizonho denominado Plano de Desenvolvimento da Nação Xavante, do governo federal, que introduzia a cultura de arroz nas terras xavantes, a aldeia estava equipada com veículos de transporte, como tratores e caminhões. Como fazem até hoje em caso de doença, os índios subiram no caminhão e foram para Brasília. A maioria dos filhos de &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; estava viajando, apenas &lt;em&gt;Pahiriwa&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; encontravam-se na aldeia. E foi &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt; quem o acompanhou na viagem, mais o motorista e &lt;em&gt;Pahiriwa&lt;/em&gt;, que tinha algumas noções de português e tentaria ser o intérprete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; deu entrada no Hospital de Base, em Brasília. Não foi diagnosticada nenhuma doença, mas ele continuava com febre. E não regredia. Até que numa noite ele sonhou com alguns espíritos, que lhe disseram:&lt;br /&gt;- Você não está doente, isso foi feitiçaria. Volta logo para a aldeia que lá você se cura.&lt;br /&gt;Nos dias seguintes no hospital, &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; tentou falar para os médicos que estava bem e precisava voltar para a aldeia, mas eles não entendiam. &lt;em&gt;Pahiriwa&lt;/em&gt; tentou traduzir, mas não foi compreendido. &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, percebendo que seria difícil a comunicação, irritou-se. Muito bravo, ele chamou o filho e falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pelo jeito eu vou morrer aqui. Não estou doente e não é remédio de &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; que vai me curar. É coisa espiritual. Não sei porque fui comer aquele peixe, mas eu me distraí e fui enfeitiçado. Eu queria voltar para a aldeia para me tratar pela nossa cura. Eu ainda estou forte, consciente e quero viver. Não estou velho, estou lúcido. E, mesmo que tenha que morrer, quero morrer no meio de vocês, junto dos meus netos e dos meus filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Pahiriwa&lt;/em&gt;, desolado, ouviu atentamente &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; fazer seu último pedido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fale para os seus irmãos que o que vocês mais precisam agora é de união. Vocês não estão preparados para enfrentar esse processo sozinhos, é preciso união. Eu preparei o &lt;em&gt;Warodi&lt;/em&gt; para continuar o trabalho e cabe a vocês darem força e apoio pra ele. Senão, vai desviar do caminho. Se ele morrer, também vai desviar do caminho. Eu confio nele, ensinei tudo o que podia, as ervas, os segredos, tudo. Por isso a única coisa que peço é união, entre vocês e entre o grupo. E para os mais novos, não falem que eu fui um grande homem, era outra época, outros tempos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; faleceu no Hospital de Base no dia 21 de abril de 1978, com 90 anos. Segundo o relato do g4, a maior dor que eles sentiram foi não poder ter feito nada para ajudá-lo a voltar quando estava em Brasília e não ter visto o corpo do pai. Quando o caixão chegou em Pimentel Barbosa, estranhamente, estava lacrado. Os filhos até hoje não sabem se foi a pedido do pai ou se aconteceu algo que não ficaram sabendo, mas, como &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; não morreu por nenhuma doença contagiosa e nem em algum terrível acidente que o mutilasse, isso é algo que os incomoda. Eles até cogitam a hipótese de o caixão estar vazio, mas somente uma exumação poderia esclarecer. O fato é que &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; não estava mais entre eles, pelo menos fisicamente, e a vida na aldeia tinha de continuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Warodi&lt;/em&gt;, como o pai havia planejado, assumiu o posto de cacique em Pimentel Barbosa. Ele esteve à frente da aldeia até o final dos anos 80. Nesse período, alguns fatos marcaram a história xavante. A começar pelo bizonho projeto a que me referi antes, o Plano de Desenvolvimento da Nação Xavante, o popular Projeto Xavante. Elaborado pela Fundação Nacional do Índio (funai), o projeto previa alto investimento financeiro para o desenvolvimento da cultura de arroz utilizando as terras e a mão-de-obra xavante. Com o argumento de que seria rentável para os índios, a funai teria uma fonte econômica através da exploração do xavante e ainda utilizaria o projeto para controlá-los politicamente. Para um povo de origem nômade, que nunca teve a agricultura como característica, ter de trabalhar e viver disso, ainda por cima numa monocultura, era um absurdo. Não é preciso dizer que o projeto não deu certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A interação xavante/&lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; teve a maior repercussão durante a década de 1980, quando Mário &lt;em&gt;Dzuru’rã&lt;/em&gt;, de São Marcos, gravou algumas promessas e discursos de autoridades com um gravador. Mário Juruna, como ficou conhecido, passou a denunciá-los e foi uma das principais lideranças junto à sociedade brasileira na luta pela causa indígena. Juruna foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro, em 1982, e conseguiu chamar a atenção da sociedade para alguns problemas dos índios, mas não sobreviveu na política. Ele faleceu em julho de 2002, de diabetes, em Brasília. Seu corpo está enterrado na reserva de São Marcos, na aldeia &lt;em&gt;Namakurá&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 20 de agosto de 1986, a reserva Pimentel Barbosa foi homologada oficialmente. Nesse ano também foi fundada uma nova aldeia, Tanguro. Junto com Pimentel Barbosa e com Caçula e Água Branca, fundadas nos anos 70, essas eram as quatro aldeias que pertenciam à reserva.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Warodi&lt;/em&gt; faleceu em 1987, com 66 anos, de câncer no fígado. Costuma-se dizer que com ele morreu grande parte dos segredos e do conhecimento da família. &lt;em&gt;Warodi&lt;/em&gt; era o principal herdeiro de seu pai e não teve tempo de dividir o que sabia com seus irmãos, filhos e netos. Milton &lt;em&gt;Serewapé&lt;/em&gt; tornou-se cacique de Pimentel Barbosa. Dos jovens que &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; enviara para São Paulo, alguns já haviam voltado para a aldeia e outros moravam em cidades. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; era um dos que continuavam a morar com os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. Além de estudar, ele viajava pelo Brasil e o exterior divulgando a cultura xavante e participando de projetos e movimentos ligados às questões indígenas e ambientais. Essa passagem entre as décadas de 1980 e 1990 foi um período de mobilização importante para o xavante, que criou algumas associações nas diversas reservas para viabilizar projetos para a comunidade com o apoio do governo ou da iniciativa privada. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, junto com sua família, criou a Associação de Pimentel Barbosa mas, por problemas com outros membros, acabou deixando-a. Esse fato, aliado a outras questões e à perspectiva de fundar uma nova aldeia, menor, com os membros de sua família e quem mais o quisesse seguir, fez com que ele saísse e fundasse, em 1996, a aldeia &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;. E é para essa aldeia que eu ainda voltaria pela terceira vez, em julho de 2003, para fechar esta minha primeira história com esse povo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174268078787748?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174268078787748/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174268078787748' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174268078787748'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174268078787748'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/morte-apowe-raramente-teve-problemas.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174234010573799</id><published>2006-10-24T19:09:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T18:11:11.683-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 13&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fechando a Trilogia&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;TERCEIRA VIAGEM&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando retornei a São Paulo, após a segunda viagem, eu tinha certeza de que voltaria para a aldeia em julho do ano seguinte. Pelo menos para recarregar as energias. Com o passar dos meses, percebi que o retorno era realmente necessário em função do livro. Eu havia acabado de me formar na faculdade, continuava como &lt;em&gt;free-lance&lt;/em&gt; e poderia ficar o tempo que fosse preciso no Mato Grosso para terminá-lo. E &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, quando esteve em São Paulo no início do ano, reforçou um convite que foi a confirmação de que eu realmente voltaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em julho de 2003, a aldeia Pimentel Barbosa seria palco da festa mais importante para o xavante, o &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt;, que só acontece num período que varia entre 10 a 15 anos. A última edição havia sido em 1988. Nesse ritual, exclusivo para os homens, os mais velhos passam grande parte do conhecimento para os mais novos. Com o convite do cacique para eu assistir e, talvez, participar, embarquei rumo ao Mato Grosso para finalizar a minha trilogia xavante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí de São Paulo no dia 5 de julho e fiz o mesmo trajeto das outras vezes. Após a tradicionalíssima seqüência de chopes e pastéis no "shopping/rodoviária" de Goiânia e as longas horas de br-158 (bastante esburacada por sinal), desembarquei em Água Boa, como na primeira vez, pois minha mãe voltara a morar na cidade. Fiquei um total de 25 dias no Mato Grosso (10 na reserva e 15 em Água Boa).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eu redigia alguns capítulos deste livro, tive a oportunidade de novamente conviver com o xavante, estar com os filhos, netos, sobrinhos e bisnetos do &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, além de participar da cerimônia mais importante daquele povo. Foram dias inesquecíveis, como cada um dos dias em que lá estive.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/ocas.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez não fiquei exatamente na aldeia &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, mas a 800 metros de lá, num acampamento pertencente à aldeia em parceria com a Pró-Fauna, num projeto ambiental. Não havia ninguém em &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, parecia um vilarejo fantasma. Todos os moradores estavam em Pimentel Barbosa hospedados nas casas de seus parentes e amigos para celebrar o &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt;. Essa cerimônia durou o mês de julho inteiro e se estendeu até o começo de agosto. Eu fui três vezes para Pimentel, em duas pude assistir alguns momentos da festa e na última tive a honra de participar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aldeia fica diferente na época do &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt;. As pessoas vivem em função da festa e o cotidiano adquire outra dinâmica. Somando todos os ritos que fazem ao longo do dia, não é exagero afirmar que eles ficam pelo menos 16 horas por dia dançando, correndo, cantando e desenvolvendo outras atividades. Os índios iniciam os rituais logo cedo, antes de o sol nascer, e prosseguem até o final da manhã. Perto do meio-dia, se alimentam, descansam, voltam no meio da tarde e avançam pela noite até a madrugada. Às vezes, dependendo do ritual, emendam até as primeiras horas do dia seguinte. É como toda celebração xavante, extremamente dura e cansativa. Um detalhe curioso é que, durante o período da festa, todos os homens raspam um pequeno círculo de cabelo entre a parte de cima e a de trás da cabeça, simbolizando que estão no &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/017.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174234010573799?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174234010573799/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174234010573799' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174234010573799'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174234010573799'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/captulo-13-fechando-trilogia-terceira.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174212819836883</id><published>2006-10-24T19:06:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T18:16:37.680-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;MULHERES NO WAI´A&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Já as mulheres somem durante as celebrações. Elas ficam confinadas dentro das ocas com as portas fechadas. Só aparecem nas raras vezes permitidas ou nos intervalos, quando deixam as casas e se juntam aos filhos, pais e maridos. Pelos comentários que ouvi, elas têm grande curiosidade em assistir aos rituais mas, em respeito à tradição e até por temerem as conseqüências de ver o "proibido", não se atrevem. No máximo, dão uma espiadinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/014.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Nos dias em que presenciei, vi a participação das mulheres em dois momentos. No primeiro, enquanto seus filhos, os &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt; (aqueles da Casa dos Solteiros), eram iniciados no &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt;, nas portas das ocas elas começaram a chorar e a gritar muito alto, fazendo aquela "sinfonia do choro" a que já me referi. Foi de arrepiar! No outro dia as mulheres tiveram uma participação mais direta. Há semanas os meninos estavam passando por uma intensa maratona de resistência. Além de muito esforço físico, à noite eles dormiam fora das ocas, ao relento, em pequenos cercados feitos de taboca sem cobertura. Cada cercado, que ficava entre as casas e o pátio, abrigava entre 5 e 10 índios, que dormiam sobre esteiras, protegidos do frio apenas por cobertores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia ser um dos últimos dias da iniciação dos meninos e eles estavam visivelmente esgotados. Após um ritual que durou horas, muitos estavam prestes a entrar numa espécie de transe. As mães, já sabendo o que poderia acontecer, esperavam os filhos com cabaças d´água. No momento em que terminou a cerimônia, elas correram e despejaram litros de água na cabeça deles, para não deixá-los entrar no transe. Em alguns casos, quando não funcionava, os meninos deitavam no chão, as mães agachavam junto, jogavam mais água e falavam algumas coisas para tentar tirá-los daquele estado. Era tudo muito forte e intenso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os rituais que vi, havia uma simulação de ataque de espíritos maus. Os "espíritos" ficavam escondidos na mata e lançavam flechas para o centro da aldeia. Quando os índios avistavam alguma flecha, começava uma grande gritaria e eles corriam para o mato atrás deles. Ao capturarem, faziam uma espécie de limpeza, afastando simbolicamente os maus fluidos. Numa dessas corridas um índio fez algo impressionante. Ele correu tão rápido na direção de uma oca que, ao saltar com os pés na parede, conseguiu dar dois passos na parte lateral da casa e subir no telhado. Parecia um "xavante ninja". A força física deles é algo descomunal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/015.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174212819836883?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174212819836883/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174212819836883' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174212819836883'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174212819836883'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/mulheres-no-waia-j-as-mulheres-somem.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174198465027658</id><published>2006-10-24T18:57:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T18:08:25.296-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;EU NO WAI´A&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/011.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;A minha participação no &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt; aconteceu na terceira vez em que estive em Pimentel Barbosa. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; me convidou e mais dois garotos de aproximadamente 12 anos, Lucas Bezerra e Filipe Bessa, que estavam conosco no acampamento. Apesar de o &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt; ser uma cerimônia fechada e sagrada para eles, posso contar um pouco da experiência que tive justamente pela minha ignorância em entender o que estava sendo feito e transmitido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos na aldeia por volta das 15 horas e estava um calor insuportável. Ficamos esperando no posto da funai até que &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; nos chamou. Ele apareceu e nos levou até uma área onde eu nunca tinha ido. Caminhando no pátio principal da aldeia na direção oposta às casas, há a oca do &lt;em&gt;Hö&lt;/em&gt;, no final do pátio à direita, e um pequeno terreno aberto no meio da mata, à esquerda. Fomos para esse lugar, onde ocorrem alguns rituais importantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/013.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Nós três estávamos bastante apreensivos com o que iria acontecer. Logo que chegamos, vimos vários índios, de todas as idades, se pintando. A área estava lotada. O que mais me chamou a atenção foi o cuidado que eles demonstraram ao se preparar. Num primeiro momento, a sensação é de que são extremamente vaidosos, pois muitos se pintavam se olhando em espelhos, arrumavam as penas do colar... Mas o sentimento verdadeiro era um orgulho profundo de ser xavante e de participar do &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt;. Toda aquela preocupação, aparentemente estética, era uma atitude de zelo consigo próprio e, por conseqüência, com toda a comunidade e a tradição. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Após cumprimentarmos alguns conhecidos, colocamos nossas mochilas e garrafas d´água debaixo de uma árvore. Dois índios se aproximaram dos garotos para prepará-los e eu fui chamado por &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt;, pai de &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;. Ele, de maneira ritualística, começou a me pintar. Segurando a tradicional massa redonda de semente de urucum numa mão, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; cuspia na outra, misturava com o urucum e passava em mim. Fiquei inteiro pintado de vermelho, somente o rosto e a canela continuaram sem pintura. Eu vestia um short vermelho que &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; havia me emprestado, pois fazia parte da cerimônia, e uma sandália. No pescoço, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; amarrou a gravata xavante, na cintura, uma cordinha branca parecida com aquela que eu havia usado na corrida da primeira viagem, e nos pulsos mais cordinhas brancas. Já nos tornozelos, ele amarrou um outro "apetrecho", feito com uma fibra, que é específico para o &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt;. Eu prendi o meu cabelo com um elástico na testa, mas &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; não gostou. Ele pediu para eu tirar, pegou um pente na sua bolsa de palha de buriti e penteou o meu cabelo. Fiquei emocionado, pois independentemente de ser forasteiro, ele me preparou com o mesmo cuidado que tinha com os índios. Depois, com a unha, fez alguns riscos na pintura, da altura do peito até a cintura, nas costas e nos braços, que indicavam que eu estava sendo iniciado no &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt;. Para finalizar, meu amigo &lt;em&gt;Sereniwa&lt;/em&gt; se aproximou e pintou a minha canela e a panturrilha com uma mistura à base de carvão, deixando-as pretas.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/007.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;A cerimônia começou por volta das 16 horas, debaixo de um sol forte. Tudo é minuciosamente bem-feito. Parece que eles treinaram cada ato e todos sabem exatamente o que fazer. Abrimos uma grande roda que se iniciava com os pequenos, crianças de 3, 4 anos, e seguia pela faixa etária. Lá estavam &lt;em&gt;watebremi&lt;/em&gt; (crianças na faixa de 1 a 8 anos), &lt;em&gt;ai’repudu&lt;/em&gt; (entre 9 e 11 anos) e &lt;em&gt;wapté&lt;/em&gt;. No centro havia mais duas gerações, os anciões (acima de 60 anos) - chamados de &lt;em&gt;ihi&lt;/em&gt; - e os &lt;em&gt;dañohui’wa&lt;/em&gt; (adultos entre aproximadamente 20 e 30 anos). Nessa edição do &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt; assisti ao &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; participar da cerimônia de entrega do maracá, que é a passagem de &lt;em&gt;dañohui’wa&lt;/em&gt; para &lt;em&gt;iprédu&lt;/em&gt; (a última faixa etária antes de se tornar um ancião).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/008.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto os mais velhos ficavam sentados no meio da roda observando a movimentação, grupos de índios &lt;em&gt;ritéiwa&lt;/em&gt; (aqueles recém-saídos da Casa dos Solteiros) surgiam da mata e entravam na roda. Fazendo movimentos bruscos, absolutamente sincronizados, eles se dirigiam para cada participante da roda e pisavam na terra com muita força, a pouquíssimos centímetros dos pés. Quando vi isso, tive certeza de que eu e os meninos do acampamento teríamos problemas. Se fossem apenas os índios da aldeia &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, que conhecemos bem, seria mais tranqüilo, mas a maioria das pessoas de Pimentel não sabia quem éramos e, conhecendo o xavante, não era difícil imaginar o que eles iriam aprontar com os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; intrometidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/006.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Quando se aproximaram, achei melhor não olhar diretamente para eles, pois poderiam pensar que eu os estava encarando. Mas também não poderia demonstrar fraqueza, senão seria como pedir para ser intimidado. Assim, fiquei olhando para frente, na direção em que eles vinham, sem cruzar os olhos. No princípio funcionou, ninguém me acertou. Depois que passaram por mim, eu os observei até chegarem nos garotos. Eles também se safaram. Na seqüência, novos grupos entraram na roda. Num deles, observei um índio bastante agressivo. Com a cara fechada, ele vinha intimidando todos. Quando chegou a minha vez, ele não pensou duas vezes: deu um pisão muito forte no meu pé. Disfarcei, como se não estivesse sentindo nada, mas doeu. Ao chegar nos meninos ele pisou ainda mais forte. Era só o começo. &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Numa das vezes, quem se aproximou foi o &lt;em&gt;Sereniwa&lt;/em&gt;. Ele veio na minha direção, me encarou nos olhos, fez todo o movimento ritualístico e pisou firme no chão - com muita força, do lado do meu pé, mas sem encostar. Após fazer isso três vezes, olhou nos meus olhos novamente antes de sair, sinalizou com a cabeça e seguiu em frente. O gesto só fez a minha admiração e respeito por ele aumentar. A cerimônia durou mais de uma hora. Ao todo foram quatro pisões, três suportáveis e um que quase destroçou o meu dedinho. Já os meninos tomaram em média oito cada. No final, agachamos e ficamos de joelhos na terra quente e repleta de pedrinhas, enquanto alguns velhos discursavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/005.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;De lá subimos para o pátio principal da aldeia. No caminho, pegamos lenha e colocamos num local onde o pessoal estava se reunindo. Nesse intervalo, aproveitamos para beber água e descansar um pouco. A cerimônia seguinte iniciou-se com outra roda. Ficávamos em pé e às vezes de joelho ouvindo os anciões falarem. De vez em quando, dançávamos de um jeito característico que eles haviam acabado de nos ensinar. Como tudo exigia esforço físico, os meninos não agüentaram e deixaram a cerimônia. Para quem estava pela primeira vez em terras indígenas, com 12, 13 anos, até que eles agüentaram demais. Apesar da estafa, tenho certeza de que foi um dos momentos mais felizes da vida deles.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/002.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Eu continuei na roda. Ao terminar essa cerimônia, iniciamos outra que foi incrível. A gente seguia os mais velhos pela aldeia até um determinado ponto. Quando parávamos, eles faziam alguns movimentos, chocalhavam os maracás e começavam a cantar. Era uma canção linda, extremamente forte, que alternava trechos em que cantavam muito alto e forte, com um tom bastante grave, e trechos em que cantavam baixinho, quase que sussurrando, sempre dançando de maneira sincronizada. Foi fantástico! Durante esse ritual, caminhamos para vários lugares da aldeia. Bem no finalzinho da tarde, quando estávamos dançando e cantando de frente para a Serra do Roncador, vi o sol se pôr. Rapidamente o céu escureceu, as estrelas apareceram e a sensação térmica mudou bruscamente. Até uma hora atrás estávamos fritando com o calor, agora era o frio que começava a incomodar. No centro do pátio, os velhos acenderam uma grande fogueira com a nossa lenha e, quando terminamos, seguimos para lá. Eles iam comer uma espécie de bolo, fazendo alguns ritos, mas eu imaginei que não era mais para eu participar. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; logo apareceu e confirmou a minha suspeita. Era por volta das 8 horas da noite quando ele falou que deveríamos voltar para &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; nos deixou no acampamento e retornou para Pimentel, onde participou do &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt; até a manhã seguinte.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/001.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174198465027658?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174198465027658/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174198465027658' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174198465027658'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174198465027658'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/eu-no-waia-minha-participao-no-waia.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174130819219878</id><published>2006-10-24T18:54:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T18:57:16.386-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;DANÇA DA CURA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos dias da festa as pessoas de &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt; começaram a voltar para a aldeia. Primeiro retornaram as mulheres e as crianças, depois os velhos e os adultos. Quando todos já estavam de volta, eles realizaram um importante ritual para nós que estávamos no acampamento, o &lt;em&gt;Datsi&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Wawere&lt;/em&gt;, conhecido também como dança da cura. Essa dança, como o próprio nome diz, é realizada quando alguém está muito doente. Felizmente não era o caso, e eles dançaram apenas como demonstração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No &lt;em&gt;Datsi Wawere&lt;/em&gt;, os participantes fazem uma grande roda. No centro, um ancião senta sobre uma esteira. Como ele é o canal entre a energia dos espíritos e as pessoas para quem a dança é feita, é necessário fazer uma preparação especial, ficando em jejum, evitando beber água em excesso e fazer sexo. Antes de começar, os índios nos pintaram, amarraram a gravata xavante e as cordinhas. No meu caso, quando &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; foi amarrar a gravata que eu havia usado no &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt;, ela estava um pouco apertada e, como era importante estar com a gravata, &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; desamarrou a dele e a colocou no meu pescoço. Foi uma grande honra. Depois &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; explicou como era a dança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens e mulheres faziam movimentos diferentes. Enquanto dançávamos, cada pessoa da roda era chamada para entrar no centro e se sentar na esteira. No caminho, um índio seguia essa pessoa fazendo uma coreografia própria até que ela se acomodasse na esteira, ao lado do velho, que colocava as mãos sobre ela e dizia algumas palavras, enquanto mexia as mãos sobre a cabeça e o corpo da pessoa. Quando terminava, retornava para o seu lugar, e quem estava do lado seguia para o centro. Assim continuou sucessivamente até o último participante. A cerimônia não durou a madrugada inteira, como de costume, pois os índios estavam bastante cansados em virtude do &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt; e nós iríamos embora na manhã seguinte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174130819219878?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174130819219878/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174130819219878' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174130819219878'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174130819219878'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/dana-da-cura-nos-ltimos-dias-da-festa.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116174123356485897</id><published>2006-10-24T18:51:00.000-07:00</published><updated>2006-10-25T20:37:31.173-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;DE NOVO NÃO!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto não chegava a minha vez de ir para o centro, eu ficava no meu lugar tentando acompanhar o ritmo. Àquela altura, completamente entregue ao ritual, conforme meus pés pisavam e mexiam na terra fofa, começaram a se formar algumas figuras esquisitas no chão. Não tão assustadoras como as da outra vez, na fogueira, mas a impressão é que se formavam alguns rostos na terra. Eu passava o pé em cima mas não adiantava, pois novas formas surgiam. Por causa da experiência da fogueira, fiquei assustado, principalmente porque eu pegaria estrada na manhã seguinte e a idéia de um possível novo acidente ou algo semelhante não me agradava. Quando chegou a minha vez de ir para o centro da roda, fui tranqüilo, com a confiança de que quando o velho fizesse o ato de cura em mim aquilo acabaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao voltar para a roda, as formas continuaram a aparecer no chão. Por sorte, eu era um dos últimos e o ritual estava terminando. Quando acabou, tudo o que eu queria era falar com &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; para contar o que havia acontecido e voltar para o acampamento. Minha esperança era de que aquilo fosse algo comum durante o &lt;em&gt;Datsi Wawere&lt;/em&gt;. Ao procurar &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt;, vi que ele estava bastante ocupado e cansado, e que seria melhor retornar ao acampamento e tentar falar mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caminho entre a aldeia e o acampamento é muito escuro, exceto quando há lua cheia. Como eu havia esquecido minha lanterna, fui atrás de um pessoal que estava equipado. No caminho, ao olhar para os lados, comecei a ver coisas estranhas. Eu não sabia se era alucinação, sono, cansaço, mas eu via umas silhuetas claras, como se fossem fantasmas, todas à beira da estrada. Elas não pareciam más nem olhavam diretamente para mim, mas era arrepiante. Eu apertei o passo, aproximei-me do grupo da frente e segui com eles. Porém, conforme eu olhava para os lados, eu via mais e mais dessas figuras. Algumas estavam em grupos de quatro, cinco, sentadas no chão, outras estavam em pé, com alguém do lado. Era aterrorizante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu cheguei ao acampamento com muito medo. Como havíamos deixado uma fogueira acesa, sentei em frente e fiquei por ali, bastante atordoado. Procurei não olhar para os lados e mantive os olhos fechados, quando abria, mirava o fogo, que estava normal. Passados uns 10 minutos, minha mãe chegou e, ao ver que eu não estava bem, veio conversar. Contei o que havia acontecido na dança, o que eu tinha visto no caminho e ela se preocupou. A lembrança da última vez ainda era muito forte. Ao procurar entender o que acontecia, cogitamos que aquelas "visões" pudessem ocorrer por eu estar com a gravata de &lt;em&gt;Wazaé&lt;/em&gt; no pescoço, pois, como é sagrada e era ele quem a usaria no centro da dança da cura, a gravata poderia ter sido confeccionada para ele se comunicar com os espíritos. Parece irreal e exagero, mas naquele contexto indígena, é o tipo de coisa que vem à cabeça. Ao perceber que seria difícil conversar com &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; tão cedo, minha mãe, por via das dúvidas, falou para eu rezar um Pai-Nosso e tomar um banho para tirar toda aquela pintura do corpo. Foi o que fiz. Antes, deixei a gravata com ela. Após o banho, não sei por quais motivos, mas, graças a Deus, aquele tormento passou. Não vi mais nada atípico naquela noite e pude me juntar ao grupo para jantar e dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116174123356485897?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116174123356485897/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116174123356485897' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174123356485897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116174123356485897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/de-novo-no-enquanto-no-chegava-minha.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116173941308762299</id><published>2006-10-24T18:19:00.000-07:00</published><updated>2006-10-25T20:36:37.226-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;VOLTANDO PARA ÁGUA BOA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucas horas depois, 4h30 da manhã, acordei, pois o pessoal do acampamento deixaria a reserva às 5h30 e eu iria de carona com eles. Minha mãe ainda ficaria alguns dias por lá e eu seguiria para Água Boa. Um pouco antes de sairmos, por volta das 5 horas, ainda escuro, lembrei que precisava pegar uma sacola que havia deixado na aldeia e fui antes que o caminhão fosse embora. Como o caminho era o mesmo que eu havia percorrido na noite anterior, eu estava apreensivo. Não só pelo que ocorrera, mas também, porque nesses dias em que permanecemos por lá, toda noite ouvíamos o som de uma onça que circulava pelas proximidades e, nas manhãs, víamos suas pegadas e de seus dois filhotes, sempre próximos do acampamento e da aldeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com uma lanterna na mão e os passos bem apressados, entrei no caminho e segui para a aldeia. Após uns 200 metros ouvi um barulho de vozes, como se várias pessoas estivessem cantando. Como era época do &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt;, imaginei que fossem os índios ainda celebrando ou ensaiando. O que me incomodava era que o som vinha um pouco à esquerda da direção do acampamento, e ali era só mata, não havia porque ter índios cantando. Quando olhei para trás, vi bem afastada uma grande fogueira e uns índios em volta, sendo que alguns estavam dançando. Devido à distância, não vi claramente, ainda mais porque estava muito escuro e eu acabara de acordar. Continuei sem pensar muito no que poderia ser e segui para a aldeia. Na volta, fiquei atento para ouvir novamente o som e tentar descobrir o que exatamente estava acontecendo, mas não vi nem ouvi absolutamente nada. Foi muito estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na caçamba do caminhão, voltando para a cidade, aconteceu o mais incrível. O dia amanhecia e a temperatura ainda estava muito baixa. Eu viajava todo enrolado num cobertor, só com o rosto de fora, recebendo um ar gelado e deliciosamente cheiroso. Quando começou a clarear, minha intenção era apreciar pela última vez a maravilhosa paisagem da reserva, mas não consegui. Eu olhava para as árvores, para as plantas e o mato, mas não os via como estamos acostumados, eu os via diferente. Ao olhar para uma árvore, eu não distinguia o tronco, os galhos e a copa nem conseguia ver a árvore em si. O que eu via era a forma dela por inteiro, que parecia um ser muito mais profundo e vivo do que aquela simples árvore. Um ser radiante, que se movimentava com a brisa, mexendo-se e interagindo com todos os demais que ali estavam. Para onde eu olhava, era isso o que eu via, cada árvore, cada planta, cada mato era um ser diferente, com uma forma própria, uma misteriosa essência por trás de sua aparência, que parecia integrada com tudo e conectada com algo absolutamente maior. Era como se a natureza fosse muito além do que o nosso olho enxerga e a nossa mente percebe. A natureza parecia uma grande festa, com seres vibrantes e felizes. Eu fiquei preocupado, pois achei que estivesse delirando e dali a pouco eu chegaria à cidade e não sabia o que poderia acontecer. Mas o sentimento era sensacional. (É importante deixar bem claro que em nenhum momento ingeri nenhuma substância entorpecente com os índios, uma vez que não é costume deles. E, em toda minha vida, nunca experimentei ácido, chá de cogumelo ou qualquer outro alucinógeno que pudesse originar essas visões.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao sair da reserva, um ônibus estava nos esperando na beira da estrada. Nessa troca de veículos, felizmente, notei que voltara a enxergar normalmente. Foi um grande alívio. Entramos no ônibus e, em pouco menos de duas horas, o motorista me deixou na rodovia br-158, na entrada de Água Boa. Com a bagagem nas costas, peguei a avenida principal e segui pela cidade a pé. Por sorte, Laranjinha estava passando e me deu carona de carro. No caminho para a casa da minha mãe, conversamos rapidamente sobre os dias na aldeia e ele ficou de passar mais tarde, para conversarmos com mais detalhes. À noite ele apareceu e pudemos falar bastante. Contei as novidades da aldeia, falei sobre o &lt;em&gt;Wai'a&lt;/em&gt;, o pessoal do acampamento, enfim, fiz uma geral, mas o que eu queria mesmo era contar sobre os últimos acontecimentos. Pelo teor do assunto, fiquei com um pouco de receio, pois não sabia se ele acreditaria. Preferi esperar o momento certo, que veio quando ele falou sobre uns fenômenos diferentes que aconteceram com ele numa tal montanha. Nessa hora, senti confiança e recapitulei desde a dança da cura até a saída da reserva. O ocorrido da fogueira, da morte, isso tudo Laranjinha havia acompanhado, então ficara mais fácil para eu contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme eu falava, ele foi ficando sorridente e fez questão de não me interromper em nenhum momento. À vontade e vendo o interesse dele, contei tudo detalhadamente. No final, meu amigo sentenciou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pablo, tudo o que você está me contando eu já passei. Não exatamente desse jeito, mas foi quase igual. Deixa eu te contar uma coisa: a natureza funciona mais ou menos como a casa da gente. Vamos supor que você receba uma visita. A primeira vez que ela vai à sua casa, ela se senta na sala e depois vai embora. Na segunda, com um pouco mais de intimidade, você pode levá-la até a cozinha e voltar pra sala. Na terceira, você já mostra a varanda e talvez um dos quartos. Na quarta, você mostra o quintal. E assim por diante. Com a natureza é a mesma coisa. Você vai a primeira vez num lugar, é aquilo que você vai ver. De repente, você começa a voltar lá, ser educado, respeitar o lugar, e ela vai te mostrando mais e mais coisas, e quanto mais você volta, mais ela mostra. O que você teve, provavelmente, foi uma experiência de expansão da consciência que permitiu que você visse um pouco além do que normalmente vemos. É a natureza te apresentando um pouco mais da "casa" dela. Quem sabe, na próxima vez que voltar, ela não te mostre mais alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebendo o sorriso em meu rosto, ele continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pode ficar feliz, porque o que você viveu é algo raríssimo e fantástico. Pelo jeito, os "homem" aqui em cima gostam muito de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí ele me contou duas histórias que ocorreram com ele, uma durante um passeio em uma montanha e outra na própria reserva, na aldeia Caçula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na aldeia, minha mãe vinha sentindo que o trabalho dela junto aos índios estava chegando ao fim e, nos últimos meses, amadureceu a idéia de voltar a morar em São Paulo. Ela conversou bastante com &lt;em&gt;Cipassé&lt;/em&gt; e decidiu que embarcaria comigo para recomeçar a vida na capital paulista. O cacique ficou muito triste, tentou convencê-la a ficar, mas acabou compreendendo os motivos pelos quais ela havia se decidido. Quando minha mãe retornou para Água Boa, ela me contou que a despedida na aldeia fora muito dolorosa, que passou em todas as ocas, ganhou diversos presentes e muitos conselhos. Não preciso dizer que chorou bastante. Também me explicou os motivos da volta, o que pretendia fazer dali para frente e pediu para eu comprar uma passagem para ela, no mesmo dia que a minha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116173941308762299?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116173941308762299/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116173941308762299' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116173941308762299'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116173941308762299'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/voltando-para-gua-boa-poucas-horas.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116173910889999820</id><published>2006-10-24T18:17:00.000-07:00</published><updated>2006-10-24T18:19:13.173-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;VOLTANDO PARA SÃO PAULO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, no dia 30 de julho de 2003, quinta-feira, após dois anos e meio morando no Mato Grosso, nas proximidades da terra indígena de Pimentel Barbosa, ela embarcou comigo na rodoviária de Água Boa. Viajamos até Goiânia, onde pegamos um vôo na manhã seguinte para casa, pisando em solo paulistano por volta das 10 horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a viagem, pudemos conversar bastante sobre os anos no Mato Grosso, a experiência com o xavante e qual era o sentido de tudo aquilo (sobre esse último item, evidentemente, não chegamos a nenhuma conclusão). Mas, pelo menos, algo que eu falei deixou o coração dela um pouco mais leve. Até hoje não tenho opinião formada sobre aquela história da minha morte e imagino que ela também não tenha. Respeito demais as crenças xavantes, sei que sou um mero mortal, mas não sei se realmente morreria fisicamente ou se aquela foi mais uma bela metáfora indígena. Porém, supondo que eu realmente fosse morrer e que fui salvo por estar lá, minha mãe me salvou indiretamente, pois só estive naquela região para visitá-la. Esse motivo, por si só, para qualquer mãe do mundo, já seria suficiente para justificar ou explicar qualquer empreitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, independentemente do que realmente aconteceu, pelo fato de ela ter me proporcionado conhecer um mundo completamente diferente, viver experiências incríveis e ver a minha vida ganhar uma nova perspectiva, serei, nesse sentido, eternamente grato a ela e a toda a família do meu avô &lt;em&gt;a’uwê&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116173910889999820?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116173910889999820/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116173910889999820' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116173910889999820'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116173910889999820'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/voltando-para-so-paulo-assim-no-dia-30.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116173887998704656</id><published>2006-10-24T18:10:00.000-07:00</published><updated>2006-11-06T18:32:49.093-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;PARA FECHAR&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além das conversas, também aproveitei as intermináveis horas de estrada para pensar em tudo o que havia acontecido. E uma coisa que não saía da minha cabeça era a lembrança de ter participado do &lt;em&gt;Wai’a&lt;/em&gt;. Eu sabia que a minha experiência tinha sido muito mais física, pois apenas dancei e segui os movimentos deles, sem saber o que significava. Mas também percebia que espiritualmente algo em mim se fortalecia. Não só no &lt;em&gt;Wai’a&lt;/em&gt;, mas em vários momentos eu tive essa sensação. Seria muita insensibilidade achar que só porque eu não compreendia racionalmente o que se passava, meu espírito, minha alma ou seja lá o que for não estavam sendo alimentados de alguma forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isso é o principal que se leva do xavante. Uma vez lá, na terra deles, convivendo com eles, algo na gente muda. Não sei se é pelo fato de conhecermos uma sociedade completamente diferente da nossa ou se realmente acontece alguma coisa muito além da nossa compreensão. Mas todos os warazu que conheci, que estiveram lá com o coração aberto, não voltaram iguais. Não estou falando de mudanças de hábitos ou de personalidade, mas de trazer algo internamente que não se traz de qualquer viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É numa cerimônia como o &lt;em&gt;Wai’a&lt;/em&gt;, por exemplo, que se torna possível entender como eles possuem essa aura mágica, mesmo estando tão enfraquecidos. Usando uma expressão bem popular, desde que os portugueses chegaram, os xavantes "só se deram mal". Tiveram que fugir por mais de 400 anos, foram perseguidos, assassinados, escravizados, expulsos de suas terras, contaminados com doenças, entre tantos outros males. Depois, sob a desculpa do "progresso", foram confinados em pequenos pedaços de terra e obrigados a se adaptar a uma realidade completamente diferente da que conheciam. Era a sedentarização dos nômades com todas as implicações. Para piorar, eles não só continuaram presos, mas passaram a sofrer interferência direta da cultura &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;. E isso os prejudicou em vários sentidos. Porém, apesar do quadro catastrófico, ao fazerem uma festa tão antiga, eles conseguem recuperar muitos de seus valores tradicionais, transmitir a cultura para as novas gerações e manter a aura mágica que sempre tiveram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através dessa fonte inesgotável que possuem e que nós há tempos perdemos, é possível enxergar, talvez, a única esperança para que o xavante e muitos outros povos não se tornem apenas páginas de livros de história. Há um meio termo entre o presente sem rumo e o conhecimento do passado, que pode ser o caminho mais viável. E, por ironia, nós, &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;, responsáveis por grande parte dos males que os assolam, somos importantes nesse processo. Não que iremos consertar o estrago, longe disso, mas nossa interferência foi tão grande que eles não têm como sair sozinhos. Eles precisam da nossa ajuda. Temos uma espécie de antídoto para o nosso próprio veneno. E, através da união entre o conhecimento tradicional deles com o nosso, científico, poderemos encontrar a maioria das soluções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os índios jamais saberão por conta própria que para não terem aquelas dores insuportáveis nos dentes é preciso escová-los e parar de comer balas e bolachas. Mas, com um trabalho bem-feito, é possível fazer a prevenção e conscientizá-los. Sem a gente, eles não terão novamente certos tipos de alimentos, como o milho xavante, por exemplo, pois esse não mais existe no habitat deles. Mas alguns institutos possuem essas sementes e, num projeto bem-feito, ele poderá ser plantado e cultivado de novo (só por curiosidade, essa espécie de milho, além de servir como ótima fonte nutricional, também fortalece dentes e gengivas). Eles não sabem que o lixo acumulado dentro das ocas pode provocar infecções, pois antes, além de serem nômades, só consumiam orgânicos. A natureza se encarregava de eliminá-lo. Hoje, se forem bem instruídos, poderão fazer um grande fosso a alguns quilômetros da aldeia e queimar tudo, periodicamente, nesse buraco. Não é uma solução ecologicamente correta, mas já é alguma coisa. Na caçada, em vez de se pintar, fazer o cerco ao animal e atirar com arco e flecha, muitos dão tiros de espingarda, calibre 22, mal dados, acertando fêmeas grávidas ou ferindo animais. Com um bom trabalho de retomada da caça tradicional e do manejo dos animais, eles não só resgatarão uma de suas principais características – caçar – como também prejudicarão menos a fauna. E assim por diante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, no mundo inteiro, pessoas que se preocupam com os povos nativos e têm interesse em ajudá-los. Em proporção são poucos, mas numericamente são muitos, e é daí que pode surgir o apoio, as assessorias, as parcerias para que o warazu, com todo conhecimento científico, possa interagir com os índios e criar soluções viáveis dentro do contexto cultural desses povos. Isso, além de melhorar as condições de vida, contribui para o resgate das velhas tradições, valores e costumes. Na aldeia &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, vi alguns projetos sendo implantados que são a maior prova de que isso dá certo e pode ser um caminho. E o que é melhor: há dinheiro disponível para esses projetos, especialmente no exterior. Se for um trabalho sério, útil e, mais importante, sem picaretagem (esse é o perigo), há financiamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos leitores podem estar se perguntando: "Mas e daí? Por que a preocupação com o xavante ou com os índios? Pra que se preocupar com eles se já temos tantos problemas?"&lt;br /&gt;No caso do Cerrado, por exemplo. Quem melhor do que o xavante ou os outros povos indígenas que habitam aquela região para preservar o pouco que ainda resta? O índio vive da terra, ele precisa dela para sobreviver. Entende-se como terra o seu território, o espaço sagrado onde estão os animais, os frutos, as ervas, os rios e tudo o que o índio necessita para viver, fazer as celebrações e rituais, transmitir a cultura e se manter como povo. Quanto mais ele se aproximar de suas raízes, mais fortalecido ele estará e melhor cuidará do território, pois a cultura indígena está intrinsecamente ligada ao respeito à terra e ao meio ambiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo enfraquecidos atualmente e com alguns hábitos que não condizem com suas tradições, os índios ainda são as pessoas mais adequadas para preservarem a natureza. Se não fossem eles na região do Cerrado, certamente mais cidades teriam surgido e praticamente tudo estaria desmatado. E a importância do Cerrado é muito grande, uma vez que ele possui uma das maiores biodiversidades do planeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu até sugeriria algo utópico: já que nos restam tão poucas florestas para serem preservadas e como os índios têm tão poucas terras para sobreviver, por que não estender seus territórios até essas áreas? Tenho certeza de que elas não vão piorar e os índios viverão muito melhor. Eu sei que não há o menor interesse, pois empresas e governo vivem da exploração dessas áreas. Mas seria ótimo se lugares como a Amazônia, por exemplo, fossem habitados por muito mais índios. Porém, como disse, é só utopia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso específico da aldeia &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, fico feliz em saber que há alguns anos essa tentativa de realizar projetos com os &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt; vem sendo feita. É bem verdade que nem sempre dá certo, mas o importante é que estão tentando e tenho certeza de que é algo que o velho &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, se estivesse vivo, faria. Ele, um dos mais contrários ao contato com a sociedade brasileira &lt;em&gt;warazu&lt;/em&gt;, ao longo dos anos percebeu que seria inviável viver isolado e mudou sua posição. Mais tarde, fez o contato oficial e manteve boas relações com os warazu que se aproximavam com boas intenções. Quando velho, enviou os netos para estudar na cidade e os preparou para os dias de hoje, para que eles estivessem aptos a dialogar com o branco, não só para defender os interesses do seu povo, mas para trocar informações. E agora é justamente isso o que o xavante e muitos outros povos precisam: juntar o conhecimento tradicional com o conhecimento científico para buscar soluções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho absoluta certeza de que é com esse espírito que o xavante deve encarar o futuro e é assim que &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt; estaria conduzindo o seu povo hoje. E &lt;em&gt;Wederã&lt;/em&gt;, através dos principais descendentes de &lt;em&gt;Apowe&lt;/em&gt;, está fazendo a sua parte para manter o espírito do velho cacique vivo, sempre presente e iluminando a todos que desejam seguir esse caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/para%20fechar.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116173887998704656?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116173887998704656/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116173887998704656' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116173887998704656'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116173887998704656'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/para-fechar-alm-das-conversas-tambm.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-36567477.post-116173843692663299</id><published>2006-10-24T18:06:00.000-07:00</published><updated>2006-11-08T21:14:17.420-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;para Tio &lt;em&gt;Sibupá&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;(+ 2006)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7684/4079/320/sibupa.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;Bibliografia&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALENCASTRE, J M P. Anais da Província de Goiás. Publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1864 e reeditado em 1979 pelo Convênio Sudeco/Governo de Goiás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BUENO, Inês Rosa. Fogo Cruzado: práticas de cura Xavantes frente à sociedade “Waradzu”. São Paulo, Tese, FFLCH/USP, 1998.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FREIRE, José R. Relação da conquista do gentio Xavante. São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, 1951.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GIACCARIA, B. e A. HEIDE. Xavante (auwê uptabi: povo autêntico). São Paulo, Editorial Dom Bosco, 1972.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GRAHAM, Laura R. The Always Living: discourse and the male lifecycle of the Xavante Indians of central Brazil. Texas, Austin (EUA), Unpublished Ph.D Dissertation – The University of Texas at Austin, 1990.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEWIS, David Maybury. O Selvagem e o Inocente. Campinas, Unicamp, 1990.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEWIS, David Maybury. A Sociedade Xavante. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves Editora, 1974.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LOPES DA SILVA, A. Dois séculos e meio de história Xavante. São Paulo, Em História dos índios do Brasil, Companhia das Letras/FAPESP/EDUSP/Secretaria Municipal de Cultura, 1992.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LOPES DA SILVA, A. Mitos e Cosmologias indígenas no Brasil: breve introdução. São Paulo, Em Índios no Brasil, Secretaria Municipal de Cultura, 1992&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LOPES DA SILVA, A. Nomes e Amigos: da prática Xavante a uma reflexão sobre os Jê. São Paulo, Coleção Antropologia, vol. 6, FFLCH/USP, 1986.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MEDEIROS, Sérgio Luiz. O Dono dos Sonhos (um estudo das narrativas do índio Xavante Jerônemo Tsawe). São Paulo, Dissertação de Mestrado, 1990.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NIMUENDAJÚ, Curt. Etnografia e Indigenismo. Campinas, Editora da Unicamp, 1993.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sites&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ISA – Instituto Socioambiental (&lt;a href="http://www.socioambiental.org/"&gt;http://www.socioambiental.org/&lt;/a&gt;), FUNAI (&lt;a href="http://www.funai.gov.br/"&gt;http://www.funai.gov.br/&lt;/a&gt;), Rota Brasil Oeste (&lt;a href="http://www.brasiloeste.com.br/"&gt;http://www.brasiloeste.com.br/&lt;/a&gt;), Prefeitura de Água Boa (&lt;a href="http://www.aguaboa.mt.gov.br/"&gt;http://www.aguaboa.mt.gov.br/&lt;/a&gt;), Estado do Mato Grosso (&lt;a href="http://www.mt.gov.br/"&gt;http://www.mt.gov.br/&lt;/a&gt;), Estado de Goiás (&lt;a href="http://www.goias.gov.br/"&gt;http://www.goias.gov.br/&lt;/a&gt;) e República Federativa do Brasil (&lt;a href="http://www.brasil.gov.br/"&gt;http://www.brasil.gov.br/&lt;/a&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)&lt;br /&gt;(Câmara Brasileira de Livro, SP, Brasil)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nacer, Pablo Guimarães, 1976– .&lt;br /&gt;Meu Avô A´uwê / Pablo Nacer. -- São Paulo :Ed. do Autor, 2004.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Índios Xavante – Cultura 2. Índios Xavante – Ritos e cerimônias 3. Mato Grosso – Descrição e viagens 4. Nacer, Pablo Guimarães, 1976–&lt;br /&gt;I. Título.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;04–6673&lt;br /&gt;CDD–918.72&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Índices para catálogo sistemático:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Mato Grosso : Estado : Descrição e viagens&lt;br /&gt;918.72&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36567477-116173843692663299?l=livropablonacer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livropablonacer.blogspot.com/feeds/116173843692663299/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36567477&amp;postID=116173843692663299' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116173843692663299'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/36567477/posts/default/116173843692663299'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livropablonacer.blogspot.com/2006/10/para-tio-sibup-2006-bibliografia.html' title=''/><author><name>Pablo Nacer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06625801940314632534</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://3.bp.blogspot.com/-PtzlJ3Uh5M8/TtQbHQsHLcI/AAAAAAAAHGc/UMgxuN6ODrY/s220/pablo%2Bfp.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
